quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ensaio sobre a Cegueira

Não li o livro mas vi o filme. Saí com a sensação de ter assistido a um thriller meio envergonhado. Esperava outra coisa. Talvez eu estivesse um tanto influenciado por aquela cena magistralmente descrita, pelo afiadissimo Eça de Queiroz, no final de O Crime de Padre Amaro. Reproduzirei a passagem para que vocês percebam do que estou falando.

Presentes o Padre Amaro, o Conego Dias e o Conde de Ribamar, juntos a estátua de Luiz de Camões. Lamentam o fato de alguns “enturrados” dizerem tolices sobre a decadência de Portugal.

Mas, deixemos ao Eça a precisão desta supimpa pincelada.

“- A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos... E o que vou dizer não é para elogiar vossas senhorias: mas enquanto houver neste pais sacerdotes respeitáveis como vossas senhorias, Portugal há de manter com dignidade seu lugar na Europa! Porque a fé, meus senhores, é a base da ordem!
- Sem dúvida, senhor conde, sem dúvida, disseram com força os dois sacerdotes.
- Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animação, que prosperidade
!”

E agora vem o melhor da festa.

E com grande gesto mostrava-lhes o Largo do Loreto, que àquela hora, num fim de tarde serena, concentrava a vida da cidade. Tipóias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a palidez clorótica duma degeneração da raça; nalguma magra pileca, ia trotanto algum moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos da praça gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre suas altas rodas, era como o símbolo de agriculturas atrazadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguês enfastiado lia nos cartazes o anúncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operários havia como a personificação de indústrias morimbundas... e todo este mundo decrépido se movia lentamente, sob um céu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a lotaria e a botota pública, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das Pequenas Novidades: e iam num vagar madraço. Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de tabernas, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e crime.
- Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento... meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!
E o homem de Estado, os dois homens de religião, todos os três em linha, junto as grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu pais – ali ao pe daquele pedestal, sob o olhar frio de bronze do velho poeta, ereto e nobre
”.

O pior cego é aquele que não quer ver. Ops, será que fui injusto com o filme do Meireles?

domingo, 27 de dezembro de 2009

O Pomo da Discordia

Semana que passou recebi mais um e-mail de um principe nigeriano. O coitadinho está com seus milhões de dolares presos num banco de não sei aonde e precisa muito da minha ajuda para meter a mão na bufunfa. Fiquei naquela de “dou não dou” e acabei dando uma rapidinha (ô língua!) na Internet para saber mais sobre certas fraudes que são cometidas todos os dias contra nós, pobres e ingenuos consumidores de toda e qualquer bobagem tais como ganhar dinheiro facil, alcançar o paraiso, atingir a felicidade suprema ou simplesmente tirar aquela verruga da ponta do nariz (aliás, vi outro dia, no Largo da Batata, um anuncio onde eram exaltados os poderes uma certa raiz, principalmente no combate a “Empoteça Sexçual” - dá para acreditar?) Navegando, encontrei verdadeiras pérolas da mais alta esperteza humana. Não sei onde foi que li, ou ouvi, que fazer o mal é a coisa mais fácil deste mundo, parece que a gente já nasce sabendo, parece que já vem impresso no codigo genetico - agora fazer o bem é coisa para muitos anos de labuta e sofrimento. A bondade é uma disciplina muito puxada, muitos levam pau nesta matéria. Quem a pratica sabe do que estou falando.
Irei começar pelas mais leves até chegar na que considero a mais safada de todas as investidas para ganhar um troco em cima de otários que, ao contrario dos sabidos, nascem aos montes. Não irei mencionar aqui as fraudes que nos sucederam e sucedem, tipo anões do orçamento, juiz lalau, paulo maluf, fazendas de rãs, mensalões, dolares na meia, na cueca e outras tantas, dado que a proximidade podem fazer de mim um suspeito. Sei lá se não possuo uma conta no Caribe? Se não sou laranja em algum esquema de superfaturamento de obras publicas? Todo dia recebo correspondencias, via mala direta, com meu nome e endereço completos sem que eu saiba de onde foi que eles tiraram aquela informação. Listarei algumas que talvez já tenham caido no esquecimento e são ilustrativas justamente pelo fato de serem exemplares. Ah, tendo tempo, dêem uma passada no site fraudes.org.
A primeira grande fraude historica é a do CAVALO DE TROIA, que de tão bem sucedida rendeu worms, trojans e outros tantos virus da mesma laia. Após dez anos de cerco, Troia não dava sinal de cansaço e os gregos já estavam exauridos em recursos. Ulisses, grande general e, não por acaso, neto de Sisifo (considerado o mais astuto dos homens porque conseguira enganar a propria morte e por isto foi por toda a eternidade condenado a rolar uma grande pedra até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo) bolou o estratagema do cavalo e pos um fim aquele conflito, possibilitando desta forma o surgimento do Imperio Romano, com seus cesares, augustos e constantinos da vida.
Vamos dar um salto. Vamos até o século XVI, ao evento que é considerado o ato inaugural da escultura renascentista. Estamos em 1496, na cidade de Florença, Itália. O jovem Michelangelo, então com 21 anos, querendo ganhar um troco rapidinho e sentido que o mar estava pra peixe, afinal havia uma verdadeira febre entre os poderosos, cada um mais ansioso que o outro, em exibirem em seus jardins obras da antiguidade classica grega. Michelangelo, talentoso que era, não dormiu no ponto. Compôs em marmore uma peça que chamou de Cupido Adormecido. O danadinho envelheceu artificialmente a obra e a vendeu, como autentica, ao Cardeal de San Giorgio de Velabro. O cardeal, que de bobo não tinha nada, acabou descobrindo a fraude. Mas ao invés de punir o falsario encomendou-lhe mais duas peças. Michelangelo iniciou aí sua momunental e prodigiosa carreira tornando-se um dos grandes nomes do Renascimento (Escola do pensamento que acabou descobrindo o Brasil e criando o nosso famoso jeitinho expresso na imorredoura Lei Aurea de Gerson).
Pulemos mais um pouco. Vamos a Paris. Ano 1925. Victor Lustig era um jovem checo, galante, fluente em varias linguas que gostava de aplicar o golpe da maquina de fazer dinheiro. Um dia, ele ficou sabendo que a Prefeitura de Paris estava tendo problemas em manter o custo de manutençao da Torre Eiffel. O peralta não pensou duas vezes. Alugou um apartamento num luxuoso hotel e mandou cinco cartas convites a cinco grandes comerciantes de sucata da cidade convocando-os a participarem de um leilao. No dia e hora marcados, os cinco gordos senhores foram muito bem recebidos e apresentados ao “Vice-Diretor-Geral do Ministerio dos Correios e Telegrafos”. Todos deixaram na mesinha de centro os envelopes com as respectivas propostas. Alguns dias depois, um deles, o que tinha feito a menor proposta, foi convidado a comparecer ao mesmo hotel. Diante de uma certa desconfiança do comerciante, Victor, para tornar ainda mais autentica a negociata, falou que o Prefeito queria uma comissao para assinar imediatamente a transferencia. Isto fez o senhor Poisson acreditar piamente no negocio e entregar-lhe cerca de cem mil francos pela Torre e mais “um por fora” para o Prefeito. Victor fugiu para os Estados Unidos e lá aplicou uma lábia em ninguem menos que o senhor Al Capone. Pois é! Consta que convenceu o Al a investir cinquenta mil dolares num banco. Após ficar com o dinheiro guardado num cofre por tres meses, voltou para o mafioso e disse que o banco havia falido e que porisso estava devolvendo-lhe o dinheiro. Dizem que Al Capone o presentou com cinco mil dolares pela HONESTIDADE. Justamente a quantia que Victor pretendia inicialmente extorquir do capo de tutti capo. Bons tempos aqueles, em que a honestidade podia ser reconhecida e recompensada ate por bandidos.
Essa parece inofensiva mas mostra muito bem como funciona a industria cultural. Nos final dos anos 80, em plena febre da dance music, surgiu no mercado fonografico uma dupla chamada Milli e Vanilli. A dupla emplacou varios sucessos, dentre eles Girl, I'm gonna Miss You, que para a alegria do seu produtor, vendeu nada mais nada menos que nove milhões de cópias. Daí ao Grammy foi um salto. Mas o inesperado quebrou as pernas dos meninos. Numa festa da MTV o gravador mastigou a fita e a farsa foi descoberta – a dupla de cantores não cantava nada! Dublavam apenas, mal e porcamente. Cobertos pela vergonha tiveram que devolver o Grammy. Diz a minha sogra que eles fizeram operação para troca de sexo e vieram morar no Brasil onde acabaram repetindo o sucesso na pele da dupla Pepe e Nenem. Minha sogra gosta de botar uma lenha na fogueira das vaidades dos outros.
A penultima historia aconteceu bem inda agorinha, ali, na celebrada Wall Street. Meca dos bravos, pátria dos homens livres, trincheira de ardorosos defensores da livre iniciativa e sacerdotes do deus mercado. Bernard Madoff estava entre eles. Bernard Madoff é um deles. Bernard Madoff é hoje considerado a maior fraudador de todos os tempos. Conseguiu arrancar do publico nada mais que cinquenta bilhões de dolares apenas dando credibilidade a nossa velha conhecida “piramide”. Este sistema foi inventada pelo italiano Carlo Ponzi, em 1919, e hoje conta com diversas modalidades: desde a corrente de cartas até o Marketing Multi Nivel, que todos nós conhemos pela Internet, onde são oferecidas formas miraculosas de ganhar dinheiro sem sair de casa ou sem fazer esforço, conforme preferirem. O sistema de investimento atraves de piramides já levou varios paises à ruina, desde a Albania no final do seculo passado, até a sempre diurna Islandia mais recentemente. E o pior é que as pessoas continuam acreditando nestas maneiras de enriquecer rapidamente. E é justamente isto que os vigaristas contam a seu favor: a esperança e a ganancia dos incautos. Madoff, 71 anos, que já deve ter se fantasiado muitas vezes de Papai Noel para animar os sonhos dos seus netinhos, declarou-se culpado de onze das acusaçoes de fraude e foi condenado a 150 anos de prisao. Ah, Carlo Ponzi morreu na miseria no Rio de Janeiro em 1949.
A última historia é de arrepiar os cabelos do sovaco. A venda das indulgencias! A indulgencia, como voces devem saber, é um artificio usado pelos padres catolicos em beneficio dos pecadores, a partir da maxima: é perdoando que se é perdoado. Deve ter sido são Francisco de Assis quem disse isto. Não importa. O que importa é que isto acabou virando um negocio da china para a Igreja Catolica, tao necessitada de recursos para edificar o reino do Cristo sobre a face da Terra e construir palacios dignos dos seus cardeais e papas. Giovanni di Lorenzo de Medici, este principe do renascimento, eleito Papa Leao X, elevou aquela prática ao seu nivel mais deplorável com isto cimentando o caminho para o surgimento do protestantismo de Lutero e a Ética do Capitalismo. E tudo dentro do mais estrito e legitimo direito (?). Vamos dar uma passada em algumas das circunstancias em que a Igreja podia livrar a cara de um pecador e sair com algum: “Se um eclesiástico incorrer em pecado carnal, seja com freiras, primas, sobrinhas, afilhadas ou, enfim, com outra mulher qualquer, será absolvido mediante o pagamento de 67 libras e 12 soldos; se um eclesiástico, além do pecado de fornicação, pedir para ser absolvido do pecado contra a natureza ou bestialidade, deverá pagar 219 libras e 15 soldos, mas tiver cometido pecado contra a natureza com crianças ou animais, e não com uma mulher, pagará apenas 131 libras e 15 soldos; o sacerdote que deflorar uma virgem pagará 2 libras e 8 soldos; a religiosa que quiser ser abadessa após ter se entregado a um ou mais homens simultaneamente ou sucessivamente, dentro ou fora do convento, pagará 131 libras e 15 soldos; os sacerdotes que quiserem viver em concubinato com seus parentes pagarão 76 libras e 1 soldo; para cada pecado de luxúria cometido por um leigo, a absolvição custará 27 libras e 1 soldo; a mulher adúltera que pedir a absolvição para se ver livre de qualquer processo e ser dispensada para continuar com a relação ilícita pagará ao Papa 87 libras e e 3 soldos; em um caso análogo, o marido pagará o mesmo montante; se tiverem cometido incesto com o próprio filho, acrescentar-se-ão 6 libras pela consciência; a absolvição e a certeza de não ser perseguido por crime de roubo, furto ou incêndio custarão ao culpado 131 libras e 7 soldos; a absolvição de homicídio simples cometido contra a pessoa de um leigo custará 15 libras, 4 soldos e 3 denários; se o assassino tiver matado dois ou mais homens em um único dia, pagará como se tivesse assassinado um só”. E vai por ai a fora com mais outras trinta e cinco formas de engordar os cofres do Papado, conforme está descrito em o LIVRO NEGRO DO CRISTIANISMO, do trio Jacopo Fo, Sergio Tomat e Laura Malucelli. Agora pensem nas catedrais, nas inumeras igrejas, capelas e outras obras de arte que hoje são patrimonio da humanidade, aclamadas e visitadas todos os anos por milhoes de turistas, e se quiserem saber de onde veio tanta inspiraçao, tanta beleza, tem nisto um bom começo de resposta.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Projeto para Solução da Crise

MOPAVAN
Motor de Propulsão Aquática com Válvula Magnética, tipo Seringa, mas sem a agulha, a fim de que jamais possa ser usado como arma de destruição em massa.

Cultivo e criação próprias
© ® dez/2009



Descritivo:
A água entra através da abertura, empurra a parede deslizante até o fundo onde é impelida a retornar ao ponto de origem, por conta do encontro de dois polos iguais. A abertura não é fechada também devido o encontro de dois polos negativos.
Com este movimento temos que o objeto será impulsionado para a frente pela pressão da saída da água.
Resta saber se a repulsão interna causará pressão suficiente para fazer a parede retornar.

Plano (nada novo mas arrumarinho) para o Ano Novo

Sacrifique teu orgulho.
Reconheça-te parte, pequeno.
Zera o teu passado e abra mão da herança.
Prepara-te para a morte deixando um legado para a Vida.
Não acumule.
Não desperdice.
Dê a cada um de acordo com o mérito.
Combata a impostura, o medo e a superstição.
Controle o impulso.
Mantenha-te limpo.
Mantenha-te ocupado.
Descubra e cultive o que te faz feliz, aí estará o sentido da tua vida.
Continue fazendo planos mas nunca deixe de testar a eficácia de cada um deles.
Não temas o abandono.
Comece do começo, desenvolva no meio e termine no fim.
Aprimore tua palavra, amacie teu semblante e abra bem teus ouvidos.
Selecione, organize e estude.
Coloque a prova todas as tuas conclusões.
Conserte o que tem que ser consertado e descarte o que não tiver mais conserto.
Mantenha-te sempre na luz, visível.
Mantenha tua reserva diante da lisonja.
O que não servir para ti não impinjas aos outros.
Aceita o que te ofertam - os olhos dos outros não enxergam com os teus.
Lembra-te: tua liberdade é o teu limite.
Quando alcançares a maturidade não te envergonhes por te encontrares nu.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Paisagem


Marcos Michael (2007)

Pássaros visitam árvores

Pássaros visitam árvores.
A quaresmeira despiu-se das derradeiras flores.
Uma safira veio despedir-se daqueles galhos
Uma jovem e irrequieta promessa
Entrou-me pela janela na voz do bem te vi.


Não, não sou mau. Apenas tôsco.
Minhas mágoas se acalmam com um beijo
Minhas faltas uma palavra as acalmam.

É certo que fechei algumas portas, traí algumas rotas...
Mas quem sou eu para dizer isto de mim?

Não quero falar de torpezas.
Queria falar dos albatrozes, aves que nunca vi.

Vou para onde pedras não me apontem.

Vê essa bruta vitalidade, esse tronco de aroeira,
Esse lacre, essa chave enferrujada, esse nó, essa nau desgovernada?
Nunca estou só mas não encontro o tom que baste a obra dada.
Faria de mim um verbo solto, um acorde em brado lento,
Uma pausa na paisagem, um doce vento... desatenta me diz aquela voz.

As planícies que me assolam, de quantos cactos almas se somaram?
A árvore de há muito já extinta, sobrados seixos, eras rebuscadas
Busco recriar em alvores retorcidos de manhãs.

Ó alfojes de cangas tão serranas
Ó piquis, carnaúbas de abas tão longínquas
Houve alguém em tuas lascas?

Onde os mapas que me foram apagados
Onde os vinténs de lorotas
Sorvedouros de salivas desdentadas?
Novenas falecidas de histórias.

Ó cavaleiros tão levados de aboios
Lenços brancos acenam suas tardes.
Tropas forminguentas de voragens
Redes entre corpos tão urgentes
Caminhos na caatinga a palmo largo
Lupanares se acendem em clareiras...
E os corpos das meninas nos altares
Quase um rito pré imposto de passagem.

Esses ecos que me plangem a memoria
Elos gastos, ociosos de malandros,
Fizeram de mim um instrumento.
E agora que sou plano, vasto e tardo
Com ferros me aplaino e me desgasto.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O Quarto


Van Gogh (1853-1890)

O Construtor de Silencios

Graves cios corrompidos de agravos emergem no mar raiz pleno de aves
Peixes plumas aureolados de labutas vigiam astros pontes invisíveis
Cartilagens desenhadas de soluços erodem a torre de guerreiros monocordios
Em ciclos, acordem ecos retumbantes na cava melopeia de um fagote
E o poeta de grinalda ararada trezanda um labirinto de solstício
Equadores de eras tao aduncas: onde a ilha, meu cabloco?
Onde a retina se espanta, onde os cimos se nivelam?
Na espuma eriçada dos relampagos, nos cirios acridoces ou nas mágoas?
O poema construído de silencio dardeja em peripécias de aladas caravelas
E a amada de janelas presumidas...
Nuvens já nao tingem os mantos bastos
Noites já nao sonham os olhos glaucos...
E esses dias que nunca se aplacam.
Quantos restolhos de ausências
Quantos caminhos em nossas tardes de encolhas
Nao, nao o apontem com olhos enviesados
Sua culpa ele ostenta escusado
Ouçam desses lábios um preambulo de fuligem
Destinado a inascer qual de um calvário
Pois abstraido numa procissao de estandartes
Anteviu a ilha derradeira nestes tropicos mutilados
Sonhou a biosíntese em espelhos calcinados
Tantas vezes insalubre e obvio no assombro
O poema, este arco iris engalanado
Desfralda velas florecidas de concordias
E vai, torto qual os becos, tronxo, tecendo garantujas encantadas.
O poema antropologico, o poema geofisico fica a dever ao pastiche dessa carne
O poema sincopado sobrevive, vê Jorge
Quanto canto, quanto danço, mesmo malogrado?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mulata Grande



Caribé (1911-1997)

A Herança

Recebera do advogado a documentaçao completa. Saira do edificio sentindo-se com se, finalmente, a lei da gravidade houvesse sido revogada. Dificil acreditar. Olhou para as chaves, lá estavam elas, reais.
Passos bebados conduziram-no pelas quadras, enquanto visualizava vizinhos, facilidades, incovenientes... quase lá... 96... 98... 2000.
Putz! O estado geral da casa nao era de todo ruim. O pior, pode verificar, encontrava-se do outro lado da grade, na varanda, diante da porta, plantado sobre o traseiro, focinho inquieto, pelo eriçado, orelhas em riste, enormes presas cintilantes... O primeiro pensamento foi: Rex?, articulou desajeitadamente e quase nao teve tempo de pronunciar a ultima letra. O animal disparou, sedento de sangue e, a uns tres metros do portao, deu um salto. Ascanio, com o coraçao num batuque surdo, sentiu os membros afrouxarem, fugir-lhe o espirito... e aquelas patolas buscando atingi-lo atraves dos ferros que rangiam enfraquecidos. O cao fixou-se impedido, alvoroçado com aquela visita inoportuna. "A senha... preciso de uma senha... nao, de um telefone... onde tem um telefone por aqui"?
- Alo, doutor Gouveia, olha... o senhor nao disse... sim, mas... que faço?... é, eu sei... bem... é... o problema é meu... obrigado por nada! Chamar a carrocinha? Que tal a SPA? Nao, ele nao esta abandonado... pertence à casa... e a casa me pertence, logo...
- Bom dia. Por favor, um quilo de coxao mole. O cutelo partiu uma costela. - Perdao, sou novo por aqui, acabei de adquirir... ou melhor, herdei uma, ahn, um lote no fim da rua, ahn ahn, e descobri que tenho uma companhia nada amistosa.
- E esta pensando em ganhar a confiança dele?
- Preciso!
- Quer um conselho?
- Por favor.
- Mate-o! Outra costela partida. - Nao, isto seria desumano. O cutelo tinha se aproximado a uma distancia muito perigosa do nariz de Ascanio.
- Nao se atreva a soltá-lo.
- Nao, nao senhor, de jeito nenhum... veja bem, ahn... estou tentando tomar pé da situaçao... ver quais alternativas... nao desejo prejudicar ninguem.
- Entao, o que vai ser? O punho armado caiu sobre o balcao. - Bem, digamos... a alcatra esta fresca? O olho exibiu uma veia exaltada. - Um quilo entao. E, por favor, corte em pequenos pedaços, pode ser?
- Se vamos ser vizinhos é bom que fique sabendo logo de cara: sou um cidadao tentando ganhar a vida o mais honestamente possivel; nao gosto de estranhos; nao gosto de muita conversa e nem que duvidem de mim. Portanto, aqui esta o seu pedido, passe bem e obrigado pela preferencia.
Os tempos atuais nao permitem digressao. Rapidez e eficiencia sao as palavras da hora. Por isto vamos tratar de encurtar a convesa e acompanhemos o jovem Ascanio fazer o caminho de volta e matar (desculpem!) nossa curiosidade com o desfecho desta historia.
Assim que botou o pé na calcada foi recebido pela fera: Arf, au... arf, au... arf, au, au... Instintivamente desembrulhou a carne, cavocou com os dedos, selecionou uma porçao e vum... atirou. Para nossa decepçao o naco caiu no meio de um monte de trastes e lá ficou, oculto, entre tábuas, latas e garrafas imprestáveis. O cao girou a cabeça, parou de latir e comecou a arfar, provavelmente decepcionado com tamanha impericia. - Desculpe! E preparou-se para arremaçar mais um .
Um garoto surgiu ao sul empunhando uma vareta na mao direita. Avido e sacana, recostou-se na grade e, de esguelha fotografou a cena. Irrompendo aos gritos, talatando nos ferros, atraiu para si a atençao da fera. Com que destemor, com que intimidade, com que desenvoltura os dois chegaram ao entendimento! Finalmente o menino bateu com menos forca a vareta no ultimo vao da cerca tres vezes. O cao deitou-se e veio grunhindo ate o alcance da sua mao.
- E ai, parceiro? Disse, acariciando-lhe a nuca. - Já comeu hoje? Aquele moço ali parece que tem alguma coisa pra voce. O cachorro olhou para Ascanio. Vai lá, vai! O cao levantou-se, voltou para a varanda e prostou-se na posiçao de gárgula. - Deixe a carne do lado de dentro do portao, sugeriu o menino. - Depois e só esperar. Tchau! E lá foi saltitando um assobio orgulhoso. Ascanio fez o que o garoto ordenou e deu dois passos atrás. O animal cheirou o ar e, em meia lua, lentamente, caminhou até a comida . Ergueu os olhos lacrimosos e latiu. Desta vez uma oitava abaixo.
Ascanio pensou que tudo na vida possui um valor agredado e teria que ir muito além da prosaica decisao a respeito de qual cor deveria pintar a casa se quisesse, de fato, pertencer a um universo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Pequenos Lapsos

Quando cheguei no prédio o porteiro avisou que a proprietária deveria ligar autorizando a visita ao apartamento.
- Ela disse que pedisse ao senhor que ligasse.
- De jeito nenhum, ela sabe da norma do condominio.
- Tem um telefone publico aqui por perto?
- Virando ali a esquerda, lá em cima.
Tinha um cartao com apenas tres creditos. Será que daria? Anda, anda, anda... nada de orelhao. Mais um pouco... enfim!... Quebrado! Na outra esquina: quebrado! Sério: comecei o dia com o pé esquerdo. Chego na rua adjacente. Quem diria: um orelhao intacto.
- Dona Lucia, o porteiro pede que a senhora ligue... pi, pi, pi! Ligo de novo... ocupado. Ligo outra vez, alguem atende mas a ligaçao cai. Acabaram meus créditos (palavrao). Banca de jornal, banca de jornal... ali! Os cartoes acabaram (mais um palavrao). Desço uma escadaria. Compro um cartao com o total máximo de créditos.
- Dona Lucia, o porteiro...
- Já autorizei!
- `brigado!
Dez horas da manha. Retorno ao prédio. Espero na calçada a possivel locatária durante uma hora. Quem disse que ela apareceu? Volto ao escritorio tentando sonhar com a minha comissao. Se der certo, ganho o mes. A recepcionista diz que tem recado para mim, um pedido de retorno telefonico. Adivinhem de quem?
- O senhor disse que daria um retorno assim que chegasse lá!
Nao me lembro disso nao! - Olha, tem que ser agora. Disponho de uns quarenta minutos.
Ela é louca o que? (Outro palavrao!) Combinamos ontem que ela me encontraria no local as dez horas, se me lembro agora.
- Nao acha melhor depois do almoço? Tenho que...
- Nao, tem que ser agora. Encontre-me lá dentro de meia hora.
Até a avenida gasto 10 minutos, depois o onibus... hora de rush... nao vai dar, por baixo gastarei uns 45 minutos para chegar ate lá. É melhor pegar um taxi. Uns vinte reais resolvem o problema. Tudo bem, a comissao vai ser boa mesmo! Cheguei em cima da hora.
-Oi, a cliente decidiu vir agora. O porteiro sorri um risinho que me pareceu de deboche. Cinco, dez, quinze minutos na calçada... (mais outro palavrao!) teria dado tempo se tivesse vindo de onibus, joguei vinte paus no ralo. Mas lá está ela, finalmente.
Adorou o apartamento, adorou o preço, perfeito, dentro do seu orçamento. Só uma coisinha: será que a proprietária permitiria a divisao da enorme sala, permitindo a criaçao de mais um quarto, sabe: para o irmaozinho que estava estudando em Sao Carlos e vinha todo final de semana visitá-la? Mas o apartamento tinha quatro quartos, mais um para que? Nao me atrevi a formular esta indagaçao, limitei-me a dizer que a dona Lucia provavelmente nao criaria caso, como de fato nao criou. Criou um verdadeiro barraco foi quando mencionei o valor do aluguel.
- Quem botou este preço?
- É o que consta da ficha cadastral do imovel, dona Lucia!
- De jeito nenhum. Aquele apartamento vale, no minino quatro mil... mas deixo por tres e quinhentos.
Minha gerente nao deu a menor força, ainda mais porque o erro tinha sido dela - é da sua inteira responsabilidade o preenchimento dos descritivos dos imoveis.
- É sempre assim, quando encontramos inquilino o dono sempre aumenta o preço. Agora é com voce, hora de mostrar competencia, meu rapaz!
Penso na cliente. Primeiro darei a boa noticia. Depois seja o que deus quiser. Resolvo assumir toda a culpa.
- Doutora, a proprietária permitiu a divisao da sala, nao é sensacional? Acho que voces duas poderao, no futuro, vir a ser boas amigas. Ela é advogada, a senhora pratica a medicina, certamente tem muitas coisas em comum, nao é verdade? A senhora pode mudar hoje, se assim o desejar. Inclusive posso indicar uma otima transportadora, deixarao seu novo apartamento todo montadinho e se responsabilizam por eventuais danos aos seus pertences. Repoem qualquer coisa que eventualmente possa se quebrar no transporte, sem qualquer acrescimo no valor combinado, nao é uma maravilha? A senhora pode ficar tranquila. Ahn, agora, um pequeno detalhe... quanto ao valor... houve um pequeno engano da minha parte...
- Olha, minha oferta final é dois e quinhentos.
- É... parece que... mais o diferença é tao pouca, doutora. Além do mais a senhora gostou tanto do apartamento!
- Quanto?
- Qua...tro... mas podemos deixar por tres e....
- Nada feito, seo Correia. Olha, agora estou em consulta. Depois a gente se fala.
Só me resta pegar minha filha na escolinha.
- A mae dela já levou.
Quando chego em casa, minha mulher disse que estando por perto quis me fazer uma surpresa e que eu nao tomava jeito mesmo: sempre atrasado nos meus compromissos.
- Falta de comunicacao.
- Voce devia comprar um celular.

Grande Fachada Festiva



Alfredo Volpi (1896-1988)

domingo, 6 de dezembro de 2009

Abaporu


Tarcila do Amaral (1928)

Resumo do Dia

Na manha daquele dia os carros transitaram. As vias de acesso fervilhavam como de costume. Vadios continuavam a caminho abarrotados de tralhas. Idosos hesitavam nas semaforos. Uma criança perguntou ansiosa se podia brincar lá fora. Desconfiado e incerto, o pai disse que iria esperar noticiario das oito. A mulher aproveitou para conferir o estoque da geladeira e no embalo repassou mentalmente os pontos criticos do Plano B a ser executado na eventualidade de ter que ir para a casa da mae. Os controladores de voo, durante a troca de turno, comentaram a possiblidade de mais um extravio de bagagens de dois ou tres comentaristas de futebol, fato este que foi devidamente levado a assembleia da classe e, apos cinco horas de discussao, varios atrasos e uma multa por excesso de velocidade, deu-se por aprovada uma moçao recomendando o envio de um fax, devidamente carimbado e nas oito vias regulamentares, a instancia superior do Conselho Nacional de Navegaçao Aerea, Terrestre, Maritima e Fluvial, a CONANATEMAFLU, entidade esta com poderes discricionarios e amplamente reconhecida por seus relevantes serviços prestados ao intercambio entre os povos. Foi ai que uma chusma invadiu, sem cerimonia, os botecos, restaurantes de kilo, esquinas, vitrines, vans, filas de banco, agencias de emprego, borracharias, saloes de beleza, consultorios, sexshops, oficinas, ciber cafes e quetais, sem deixar de fora as lojas de um e noventa e nove, movimento este que nao passou desapercebido pelos medidores de qualidade do ar que, naquela fatidica manha, acusaram altos indices de exortaçoes picarescas, principalmente frases de duplo sentido, emanadas por pipoqueiros, manicures, babas, passistas, gandulas, soldados, entrevistadores de cati, taxitas, seguranças, porteiros, oficiais de justiça, sacoleiras, alcoolatras, mediuns, esotericos, lascivos, frentistas, flanelinhas, pastores com ou sem ovelhas, malabaristas e saltibancos, isto sem contar os ambulantes que naquele minuto disputavam com unhas e dentes cada milimetro do espaço publico com os jovens recrutas da guarda metropolitana que pirateavam esta pratica diretamente subvencionados pela egrégia confraria dos coletores de assinatura nos corredores palacianos de todos os poderes. As agencias de fomento, pesquisa e desenvolvimento minimizaram o fato e divulgaram nota conjunta, com graficos e tabelas da mais alta estirpe, onde buscavam acalmar os operadores da bolsa alheia, dando como liquido e certo que tais oscilaçoes de variancia eram nada mais nada menos que o resultado do reflexo psicologico da curva de tendencia logaritmica sobre o aumento de alguns generos alimenticios, notadamente a abobrinha. Varios blogs foram criados numa tentativa desesperada por parte de pos-graduandos em gastronomia avidos por discutirem estrategias que pudessem se revelar estaveis do ponto de vista evolutivo em toda a cadeia fast food no que foram devidamente enquadrados por seus orientadores as voltas com o famoso dilema do prisioneiro. Nas redacoes dos principais jornais, e nos sensacionalistas tambem, sem falar nas revistas de fofocas, todos estavam com os cabelos em pé diante do beco sem saida em que se encontravam durante a caça de mais um novo paradigma jornalistico para suas manchetes descabeladas. Papos de aranha enredavam os plantoes de todas as delegacias, prontos socorros e clinicas de desintoxicaçao. Quem, quando, onde, como e porque era a prioridade maxima entre publicitarios responsaveis por polpudas contas de ONGs virginais no comercio das boas intençoes, visto serem eles atualmente os principais ideologos da cultura nacional, internacional, transnacional e porque nao dizer transexual ja que para suas mentes plenipotenciárias se A está para B necessariamente C estará para Z, é uma questao de matematica pura e com a matematica pura nao se brinca exatamente por ser materia pura e exata, é logico! Tudo parecia caminhar para o normal quando de repente nao mais que de repente mais uma bolha estourou. Nao redirecionou os debates em torno da emissao de carbono decorrentes das flatulencia do rebanho vacum mas fez oscilar o pau da bandeira de varias praças civicas. Quem estava de bermudas nao foi pego de surpresa. Agora quem estava na chuva tratou que desistir do churrasco na lage e correr atras do prejuizo que a essa altura ja tinha levado para o beleleu a aurora boreal que, sem saber, estava sendo negociada a preço de banana para cobrir o deficit do ultimo filme catastrofe lançado nas ferias de julho. Um jovem recem formado pela prestigiosa GV, desgustando um breja no sujinho da esquina comentou, a boca pequena, a eminente fusao do Rio de Janeiro com a Bahia, o que daria ensejo a um novo estado de coisas possibilitando finalmente o uso correto dos substantivos e verbos, neo tropicalisticamente transfigurados e mutantes, pura concretude poetica, de acordo com a nova ortografia dos herdeiros de Pessoa, em todos sambas enredos das principais escolas e blocos de axé music, dada a urgencia dos preparativos para o proximo Carnaval. Reordenaçao esta preconizada desde os tempos da Jovem Guarda pelo expoente da raça e presidente vitalicio da honorável seita Odara, o doutor em letras, filologo, historiador e esteta, nosso inesquecivel Caetano Veloso. Ou nao!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Menino e Velocipede


Marco Bastos (2009)

Desconstruto

O ponto de partida é sempre o de chegada. Outro está em mim como um espectro a perseguir meu rastro. Eu, esse estranho paradoxo. A identidade é diferente daquilo que consta nos documentos. Cada um, um esboço, um ensaio, um ponto de vista, uma versao biográfica. Disseram que vivo aos saltos. Eis o aspecto. Sem origem nem destino beiro o desatino na certeza de projeto impossivel. Sendo responsável por algo é sinal que falhei em tudo o mais e antes que seja obrigado a comer o chapéu que nao uso, deixo a página em aberto e nenhum ponto final.

...viera em arcanjo de andrajos poentes que figura recorrente a outra face latente a terra a chä a semente homem imprevidente marinheiro que somente navega por navegar breve sina constará ele todo sabido lenda acaso escolhido vento sido partido sem conter nem contido tanto ódio ferido carrega como estampido porfia magoa luar sem nome ilha chegar entre trilhas enrijecidas ausencias retorcidas vozes árias dissolvidas sombras aves caidas posto eras esquecidas rubras noites suicidas lateja esse alem mar fonte fado a expiar naves rumos altera tanto fica que pudera a vista bem que quisera outro manter a vera essa busca que quimera a marca o começar alma tem para aportar acerca o mundo a beira medra no imo cegueira tangidos templos canseira longinquos arcos fronteira ecos dor penedeira toque de quem queira ferrea furia escusar sendo limpo visitante treme a pele coriscante simbiose bacante nao há lingua que decante o encontro rompante fere os olhos navegante descobre seu caminhar nasce do caos avatar eis o rito que processa tempo do mito acessa espaço pois nao lhe impeça justa lida já confessa exposta a clâ a promessa aurea certeza expressa esquecido contemplar chega o tempo angular finda a sorte caudilha atados membros a forquilha sob hurras maravilha da comuna emerge a filha cada poro seu palmilha doces dedos de baunilha vao a tribo alimentar em lonjuras de cantar fez aurora seu portal olhos garços de cristal terno riso de metal totem boca imortal paradigma ancestral reverbera acidental coro de nuvens... fatal...

Rapaz e Cranio


Magnus Enckell (1893)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Comentário

Enlouqueceu! Não tira nunca aquele chapéu da cabeça. Já insisti tanto que abandonasse este hábito execrável. Ele diz que não irá abandonar os amigos. Passa o dia fora de casa. Seu lugar predileto é a entrada da barra. Ali tem uma pedra grande onde permanece horas a fio conversando, adivinhem com quem? Para R., ele já fez a passagem prá outro mundo. Prá mim ele enlouqueceu mesmo. Imagine, chamar um chapéu de amigo!

Este comentário li num pedaço de papel almaço, sem data nem assinatura. Mas pelo tom pareceu-me escrito por uma mulher. Caiu-me aos pés quando abri um volume de O Mundo como Vontade e Representação, no sebo Sagarana, na Rua Fradique Coutinho, em São Paulo, numa tarde chuviscosa de dezembro, terça-feira, alguns anos atrás.
Perambulava pelas vitrines, à espera de hora propicia para regressar ao apartamento, o trânsito estava, como sempre, horrível, o dia tinha sido exaustivo... súbito, dei-me conta de que não havia nenhum bom filme marcado para aquela noite na televisão tampouco algo novo para ler, por isso decidi entrar na livraria.
Ao vasculhar a primeira estante, a minha velha camarada sussurrou com aquele jeito peculiar e incorrigivel de me incentivar: Ler prejudica a vista. Vai acabar cego! Mas ela não lia! Porém enxergava como uma coruja. Não havia como esconder-lhe o que quer que seja. Quando comprava uma roupa, um sapato ou algo qualquer para a casa, vinha sempre com os mesmos comentários: Comprou o que??? Pagou quanto???... O material não é lá muito bom...! Para quem é, bacalhau basta! Sentiram? Então por favor, não me censurem quando eu digo que tudo que faço, faço o mais vazio possível de pensamentos. Claro que isto é um exagero. Afinal, vivendo com essa voz dentro de mim, 24 horas por dia, vocês hão de concordar que não e nada fácil despistá-la. Ainda mais quando se trata de livros. Essa minha inseparável amiga sempre dedicou uma especial aversão aos livros. O que me leva a concluir que é analfabeta de pai e mãe. Reconheço que o raciocínio é precipitado, por isto façamos de conta que não o pronunciei. Afinal o que importa aqui são as lembranças que aquele comentário anonimo me despertou.
Mais um filete da sua generosa paciência, por favor. Meu quarto parece um labirinto de livros, revistas, papeis velhos, velhas anotações em cadernos amarelados e uma infinidade de bugiganga que acumulo sem pestanejar. Para que serve tudo isto? Só para ocupar espaço e juntar poeira! é o que ouço quando sento na cama. Fazer o que? E um hábito de infância. Colecionei caixas de fósforos – algumas eu transformava em “máquinas fotográficas” (Sabe como fazer isto?). Guardava uma infinidade de embalagens de cigarros e fingia que era dinheiro! Tampinhas de garrafas, selos, botões, figurinhas... amontoava tudo em caixas de sapatos e escondia debaixo da minha cama ou no fundo do guarda roupa. Mas a minha coleçao favorita era a de gibis. Economizava centavos, deixava de comprar material escolar para investir em Tarzan, Zorro, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Dom Chicote, Reizinho, Os Sobrinhos do Capitão, Pinduca... um tesouro de fantasias. Um tesouro que, infelizmente, vi arder no quintal da minha casa. Uma perda lastimável! Eu não faria isto nem com o meu mais empedernido inimigo. Acho que foi ali que aprendi a mentir. Foi ali que eu comecei a conversar com o meu chapéu. Foi ali que eu comecei a enlouquecer. E tempos depois quando contemplei um poster ultrarealista do meu signo, compreendi qual era o meu destino. Tinha que me livrar daquela voz. Não iria mais permitir que ela controlasse meus pensamentos com aquela vigilância e censura implacáveis. Eu tinha que enclausurar aquela voz em algum lugar. Mas aonde? Um lugar onde... encontrasse... um lugar habitado... qual era o seu pior pesadelo, o que ela mais temia?
Será que aquele anonimo percebeu que escrever pequenos comentários em pedaços de papel e esconde-los dentro de livros em brechos literários era uma forma de libertação? Nunca saberemos. Resta a curiosidade: quem terá sido, qual sua verdadeira motivação?
E o que mais intriga e nunca podermos saber se ele conversava mesmo com seu chapéu e se conversava porque conversava. Tenho para mim que conversar com o chapéu não é sinal de loucura. Eram amigos, nao eram? Acredito mais numa especie de gratidão com aquele velho companheiro e protetor. Nada como um inanimado ombro amigo.
Hoje em dia não se usa mais chapéus porem as pessoas costumam conversar horas com o computador. Seria sensato da minha parte afirmar que enlouquecemos todos?
Para minha surpresa, a minha velha amiga, neste momento, adota um tom mais amigável e pontifica: De criança e louco todos nós temos um pouco! Como diria Vincent Price: Ah, ah, ah...!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Preciso de uma aspirina

Ops! Um açougue? Balcão alto, tampo de mármore, uma balança à esquerda. Junto a parede, à direita, uma pilha de papel pardo. Não vejo carnes expostas. Porque sei que é um açougue? Nada que diga: é um açougue. Mas eu sei, me foi dito. Ops de novo! Alguém, algo, me diz coisas que não são. Algo nomeia de antemão. Algo prejulga. Açougue ou não, digo agora: era um açougue.
Quatro pessoas estão diante de mim: duas mulheres, um homem e uma menina. Uma mulher loira, a outra morena. O homem é ruivo. A criança tem os cabelos negros mas a pele é bem alva. Fico no espaço entre a pilha de papel e a balança. O homem e a menina saem pela esquerda. Não sei para onde vão. Importa?
Decido encarar as mulheres: preciso de uma aspirina! Por que não fui a farmácia? Qual é o meu propósito? Elas estão esperando que eu justifique isso. Vamos por etapas: a) preciso de uma aspirina; b) se preciso de uma aspirina e porque sinto alguma dor, provavelmente de cabeça; c) o que açougue tem a ver com aspirina e dor? Acho que dá pra concluir: eu quero que cortem-me a cabeça?
Assumo todos os riscos desta eventual estupidez. Mas não temo o ridículo. As mulheres trocam olhares insuspeitos, foi um pedido normal, presumo. Então... homem certo, lugar certo, hora certa, não é?
Aspirina custa caro, diz a loira. Estarei lidando com algo inusual. Acho que preciso ser mais direto. Devo implorar? Enfio a mão no bolso da calça e sinto a existência de uma única nota. Seria injusto não apresenta-la. Ainda me resta um pouco de dignidade. Uma descarga de orgulho me aciona. Deposito a nota sobre a pilha de papel.
O que é isto?, pergunta a loira. Dinheiro, respondo eu. As duas olham em torno, cochicham algo enquanto caço bolhas no ar. Será que não tem valor? Não, não é o valor monetário que as intriga, é o símbolo impresso. Creio que identifica uma causa, evoca um motivo. Não temo o mundo novo em que me encontro.
Revolução Francesa?, questiona a morena. O que?, tento entender. O rosto, diz a loira. Ah, sim. Já leram sobre a...? Bem... entreolham-se as duas. Em livros?, insisto em saber. Não. Nunca tinham visto algo assim. Vale dez reais, acrescento. Aqui a frase me parece sem propósito. Tâo pouco?, sorri a morena. É relativo, penso eu. Excitei-a? Sinto o proibido, meus gestos tornam-se involuntários, minhas papilas exsudam um gosto agridoce. Leram sobre a Revolução Francesa?, digo e percebo que estou sendo inconveniente. Espere aqui, diz a morena. Que bom que meus problemas passaram a fazer parte de suas vidas. Identifiquei-me de maneira correta. O equivoco inicial pode, no futuro, vir a causar algum transtorno. A mulher loira apanha um jornal e vai para a extremidade oeste do balcão. O homem volta e atende um cliente. A menina retornou com ele e agora esta encostada na parede ao fundo. Sinto no seu olhar uma sombra de desconfiança. O que será que eles comercializam aqui?, tento disfarçar.
Belos desenhos, digo, referindo-me ao documentario sobre dinossauros que está sendo exibido na amplavisâo acima das nossas cabeças descobertas. Vigorosos, criativos.
O balcão avança em curva até a calçada, como se quisesse alcançar o ar livre da rua. A noite começa a descer. As imagens da pré-historia se sucedem, projetadas no éter. Tento ser simpático. Mas não sei se é o bastante. A noite formou-se em estrelas. Afasto-me do balcão. As ruas enchem-se de gente.
A mulher morena voltou, diferente, mais magra, menor, atraente, muito atraente. Veste um tubinho de malha com listras coloridas na horizontal. O vestidinho chega-lhe apenas até a altura das coxas. O cabelo longo, negro, cai-lhe majestoso pelas costas. Enlaço-lhe a cintura com o meu braço esquerdo, trazendo-a para perto de mim. Os olhos dela, meigos e doces, buscam, vez ou outra, a aprovação dos meus que, bobos, perdem-se na arquitetura bizarra das fachadas.Ops! O que significa isto? A saia dela desdobra-se, alcançando os tornozelos? Está questionando o meu desejo, por certo. Em homenagem ao seu pudor digo que sim, não é o lugar nem a hora. Indefesa arrasta-me até uma sala onde estão dispostos diversos andaimes. Um jovem loiro emerge do sub-solo por entre as tábuas do assoalho: voce encontrará a aspirina na... volta-se para ela que acena do outro lado da rua. Trocou de roupa, tão depressa? Mudou também o cabelo. Usa calça e camiseta, pretas. O cabelo agora é curto. Preciso corresponder as suas expectativas. Atravesso. Desconfio da praça. Tento evitar o embaraço causado por algumas pessoas que insistem em brincar no espaço entre eu e ela. Ha um banco de aço inoxidável. Sou convidado. Consigo me desvencilhar dos transeuntes e corro. Um raio me atinge, perco completamente a cabeça.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Pingo, o menino desalmado

PRÓLOGO
Paisagem do semi árido nordestino.
NARRADOR - Certas histórias são dificies de contar porém, toda história merece ser contada.
Agachado em cima de um morro um menino observa a região. Pequenino e magricela, veste apenas um surrado calção.
NARRADOR – O que vocês verão a partir de agora nunca aconteceu de fato. É pura invenção. Ocorreu-me da lembrança de uma remota leitura de um livreto de cordel.
O olhar do menino descansa sobre detalhes: a estrada que serpenteia o morro, um velho leito de rio seco, uma cerca e um casabre em ruínas.
NARRADOR - Para mim uma história só faz sentido se for provocante.
Menino olha pro céu, uma nuvem cinza aproxima-se. Desce em debandada manobrando, com um arame, uma roda de velocípede.
NARRADOR - E o que temos aqui é uma enorme provocação. A minha reação foi acrescentar-lhe um epílogo. Espero que a atitude de vocês, diante de qualquer provocação, seja mais criativa que a minha.

CENA 1
Menino aproxima-se da casa. Homem surge no umbral da porta.
HOMEM – Vai pra onde?
MENINO – Tomar agua!
HOMEM – Pode beber na cacimba mesmo.
MENINO – Cade mãe?
HOMEM – Ela tá ocupada!
Menino olha em volta e decide entrar. Homem barra-lhe a entrada.
HOMEM – Já não disse...!
MENINO – Eu quero minha mãe!
Homem empurra-o para o centro do terreiro.
HOMEM – Hoje ela é minha!
Menino acocora-se e fica rabiscando o chão com o dedo. Uma jovem mulher envelhecida, surge na porta. O garoto levanta-se esperançoso.
MULHER – Aproveita para buscar lenha. (Mais alto) E não esqueça de encher os potes!
MENINO – (Entre lágrimas, praqueja) Um dia ainda acabo com essa desgraça!

CENA 2
O garoto está catando gravetos, observado pela mira de uma arma. Tendo acumulado o bastante, limpa o suor da testa. Homem aproxima-se. Traja farda militar e carrega um rifle numa das mãos.
MILITAR – Mora aonde?
MENINO – Logo ali... depois da cacimba.
MILITAR – Viu este homem por aqui? (Mostra-lhe uma foto)
MENINO - Tá lá em casa!
MILITAR – Sozinho?
MENINO – Com minha mãe.
MILITAR – Me mostra o caminho.
MENINO – O senhor vai prender ele?
MILITAR – Prender dá muito trabalho.
MENINO – Que que ele fez de ruim?
MILITAR – Não interessa. Ele não presta e pronto.
Menino faz um feixe de gravetos e coloca sobre o ombro.
MILITAR – Faz de conta que não estou aqui. Vai, faz teu trabalho.
Menino toma a dianteira.

CENA 3
Aproximam-se da cerca.
MILITAR – Espera aqui. Agora é comigo. (Vai até o meio do terreiro. Grita) Eleutério! Saia vestido, sujeito!
HOMEM – (De dentro) Tô sempre pronto, macaco!
MILITAR – Então se ajeite, cabra safado. Vim te buscar.
HOMEM – Óia que eu vou dar trabalho!
MILITAR – Sou pago para isto.
HOMEM – Mas não o suficiente.
MILITAR – Homem, eu não vim parlamentar. Estamos gastando saliva. Saia logo dai, e desarmado.
HOMEM – (Saindo) Tu pensa que é mais homem que eu?
MILITAR – Eu não penso nada. To cumprindo com a minha obrigação.
HOMEM – (Abre os braços) Pronto! E só me levar.
MILITAR – Vai andando na direção da cerca e siga adiante. Eu vou logo atrás.
Homem inicia caminhada. Militar, acompanha. Ao passar pela cerca vê o garoto agachado.
HOMEM – Foi esse peste que te trouxe aqui?
MILITAR – Não bula com o menino.
HOMEM – (Encara o menino) Qual dos dois tu acha que é teu pai?
MENINO – Eu não tenho pai!
HOMEM – Todo mundo tem um pai, Pingo!
MILITAR – Sai daí, menino. Corre pra dentro.
HOMEM – (Agarra o menino. Aponta uma arma para sua cabeça) E agora, sargento... o que vai ser?
MILITAR – Eu vou te matar do mesmo jeito, Eleutério! Com ou sem o menino te servindo de escudo.
HOMEM – Qual de nós dois é pior, sargento?
MILITAR – Eu sou! (Dispara. Homem cai, garoto sai correndo em direção a casa) E isto não doeu nadinha.

CENA 4
Ao aproximar-se da chegar na porta é agarrado pela mãe.
MULHER – Cadê a lenha? Voltou de mãos vazias. E quem te ensinou a ser cagueta?! (Bate).
MILITAR – Larga ele!
MULHER – Sou a mãe dele, faço com ele o que me der na telha!
MILITAR – Não na minha frente, pustema!
MULHER – Que que é? Pensa que é dono do mundo? Pensa que manda em mim? (O militar retira o menino das mãos dela) Você não pode... Ele é meu filho.. Já sofri muito por ele... Eu conheço os meus direitos, sabia? Um filho tem que ficar com a sua mãe!
MILITAR – Tu quer ficar com ela?
MENINO – Até que gosto dela... quando não traz homem pra casa!
MULHER – É isto que eu ganho? Por te carregar nove meses na minha barriga, por te dar de comer todos estes anos, por ter me tornado este molambo, me vendendo a troco de tostões, só para te sustentar? Quer saber: dane-se, faz da tua vida o que bem entender.
MILITAR – Vai, pega o que e teu e vamos embora daqui.( Menino sai)
MULHER – E quanto ao defunto? Vai ficar ali... assombrando o meu terreiro?
MILITAR – Eu não sou coveiro! (Sai)
Garoto volta, manobrando sua roda da de velocípede. Segue o militar.
MULHER – Volta aqui, seu desgraçado! Vai deixar o serviço pela metade, meganha dos infernos. (Corre até ele e esmurra suas costas. Militar livra-se dela com um sopapo. Ela cai no chão) Pingo, meu filho, fica e defende tua mãe!
MENINO – Nunca tive pai e agora deixei de ter mãe.
MULHER – Eu sou tua mãe, ingrato. Sou e vou ser sempre. Por onde quer que tu vás, eu vou te perseguir. Como nuvem em dias de chuva, cheia de raios, eu sempre vou te perseguir. Tu nunca encontrarás paz.
MENINO – (Distante. Para si) Pra mim tanto faz. Eu nasci sem alma mesmo.
MULHER – (Sozinha) Vai, meu filho! Cumpra com a tua promessa. Que deus te ajude. Que você consiga acabar com esta sina. E quanto a mim, devo enterrar os mortos que nunca foram meus. (Levanta-se, olha em torno) O mundo é tão grande, são tantos os lugares... (Olha pra cima. A nuvem cinza paira) É... parece que vai chover. Preciso tirar a roupa do quarador!

EPÍLOGO
O menino segue pela estrada manobrando habilmente, com um arame, a roda de velocípede. O militar, a frente. Aos poucos, a figura austera começa a desvanecer até desaparecer por completo. Resta apenas, naquela estrada sem fim, um menino distraído com seu improvisado brinquedo. A tarde cai lentamente enquanto uma ansiosa voz feminina grita.
MULHER – Pingo! Cadê você, meu deus?
Finalmente o encontra desacordado à beira do barranco. Ela o anima. Limpa o seu rosto, alisa seus cabelos.
MENINO – Eu caí.
MULHER – (Ri e apruma-se) Vem, vamos para casa!
MENINO – (Tempo) Um dia vou conhecer meu pai?
MULHER – Esquece! Eu sou teu pai e mãe. (Saem)
MENINO – (Tempo) Meu carrinho! (Volta e pega o brinquedo)
Os dois seguem até o fim.