domingo, 31 de janeiro de 2010

Não levo desaforo para casa

Quando ouço esta frase me lembro da infância. “Não levo desaforo para casa” era quase um lema no meu tempo de menino.
- “Se for homem pisa aqui”! Nenhum menino ia dormir com isto atravessado na garganta, mesmo que lhe custasse o nariz quebrado. A mãe? A mãe era sagrada, ai daquele que não defendesse a sua. Este sentido de honra é da infância da humanidade. Mas a gente cresce e, aos poucos, adquire um certo senso de medida.
Na minha infância não existia esse negócio de tamanho. Quanto maior, mais estrondosa era a queda. Um menino, se comparado a uma “caçola de macaco” não hesitava em pular de um telhado, dormir no cemitério, atravessar a cidade através das galerias pluviais. Um adulto, não, tem noção do perigo, sai pela tangente, diz que a religião não permite, que tem mulher e filhos, engole alguns sapos e faz das tripas coração para adquirir um carro maior e melhor do que o do seu antagonista. Esta é a vingança adulta: ter mais que o outro. Um menino só tem a honra para ser lavada.
Quando se é menino, são muitos os limites e tudo é urgência. Por isso não se levava desaforo para casa. Por que estou escrevendo isto? Talvez, porque pensei que no meu tempo de menino, não existia perdedores, ou melhor, ninguém se sentia perdedor. As cicatrizes eram exibidas como troféus, um indicativo de que não se fugia à luta. E mesmo quando perdiamos se saía vencedor. Havíamos tido a coragem de nos batermos pelo dever de sermos homens. E isto, ninguém nos ensinava, era um código não escrito, coisa de meninos, puro instinto.
Dirão: barbérie, império do mais forte, influência dos faroestes americanos, dos seriados do Jim das Selvas, Nioka, Zorro ou Flash Gordon. Isto, quando não tínhamos nenhuma garota nos arrastando para ver os filmes, cheios de canções e beijos (argh!), do Elvis, da Doris Day ou da Marisol. Mesmos nestes, tinha, vez por outra, troca de sopapos. Ahhh, o cinema vinha baixo quando o herói dava um troco bem dado e merecido no sinistro e metido a besta do valentão dissimulado. Brutos nunca se davam bem, até que veio Os Brutos Também Amam e eles começaram a descobrir em si um pouco de humanidade. A valentia relativou-se e os advogados fizeram a banca, com seus labirínticos argumentos e suas potentosas saídas. Quem Matou o Fascínora se tornou um enigma apenas decifrado entre amigos.
Conheci poucos valentões de verdade, a maioria era de “fritar bolinho em porta de geladeira”! No meu tempo de menino não havia aquele com o qual ninguém podia. O malvado, malvado mesmo, era um pária. Numa briga, sem que ninguém nos avisasse sabíamos a hora exata de parar, era quando olhavámos nos olhos do outro e enxergavamos a nossa própria fraqueza, às vezes na forma de um filete de sangue escorrendo de algum membro indefeso. Era dolorido, sabíamos, o sofrimento imposto, o sofrimento além das forças, ficavámos com as penugens arrepiadas diante das cenas finais da Vida, Paixão e Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo. Não desejavamos aquilo para ninguém, nem para o nosso pior inimigo. Não erámos cínicos. Crianças, embora atrevidas, não são descaradas.
Maior não brigava com menor. Acaso houvesse uma afronta ou ofensa entre desiguais, equilibrava-se imediatamente a contenda: dois ou três pequenos contra um grande. E não havia vanglória na vitória (exceção: quando se queria impressionar as meninas). Não conhecíamos a palavra vingança. Ninguém sofria mais que podia, um simples “pára” ou “lona” encerrava o combate. O que era resolvido numa briga, acabava ali e ponto final. Depois íamos todos para a praça e o vida voltava ao seu normal.
Quer dizer, até entrarmos em casa. Qualquer que fosse o resultado, ganhando ou perdendo, preparavámos para pior: repreensão, orelhas puxadas, uma ou outra cinturadas e, sobretudo, boca fechada e choro contido direto para o castigo, certos de que brigar é coisa feia e gente civilizada não se presta a isto.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Droga

A droga explode e os cacos chips
A droga estoura e a vida clip
A droga expande e o sexo shopping
A droga dilata e o circuito integra
A droga alarga e o vazio impera
A droga propaga e o niilismo opera
A droga espalha e o signo nivela
A droga sobeja e o vírus controla
A droga regula e o self vicia
A droga modula e o marketing recria
A droga seduz e a massa ignara
A droga oscila e a mídia satura
A droga sonha e a pesquisa simula
A droga escolhe e a família detona
A droga elege e o clone fascina
A droga transita e o vídeo programa
A droga agita e o laser erotiza
A droga desfila e a robótica fatura
A droga rotula e o micro ulula
A droga rebola e a gandaia geral

A droga, qual a bomba, é sincrética
E o apocalipse, uau!


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Lavi

Foi assim, de repente. De repente tudo estava no chão. Pedra sobre pedra, um monte a perder de vista de destroços. A terra tremeu e as casas gemeram e desabaram ante a fúria do terremoto. Dessaline estava voltando do trabalho quando sentiu, sob os pés, fervilharem as pedrinhas do caminho de terra que o levava, todos as tardes, ao encontro da família. Ficou estático, ali, no meio da rua, e só conseguiu cair de joelhos quando a última casa desabou. Não teve medo durante, teve medo agora, quando tudo havia cessado, teve medo por suas duas filhas e pela mulher. E cambaleou até o que antes havia sido sua morada.
Um corte profundo no braço o despertara do torpor. Rasgara uma parte da perna da calça e fizera um torniquete à altura do cotovelo esquerdo. A ferida não mais sangrava, uma camada de poeira se acumulara sobre o ferimento quase como um curativo improvisado porém os dedos estavam ficando roxos, devia afrouxar um pouco o nó antes que... ahn, quem falou? Um gemido agudo, próximo, o fez interromper o próprio cuidado. Ali perto, perto de onde já havia estado antes cavoucando com as mãos calosas os entulhos em busca de algum sinal de vida. Seriam elas? Lalin! Estimé! Matant! Onde, Bondyé, onde?
Com dificuldade, seguiu, através dos restos do que antes havia sido uma modesta residência de artesão oleiro, fabricande de tijolos, utensílios domésticos e alguns artefatos de decoração, atividade que ultimamente mal dava para compensar o que tivera que gastar, quatro anos atrás, com o envio do seu único filho para a Universidade. Ayiti! Quantas esperanças foram depositadas nele! E para quê? Seis meses após a matrícula fora cooptado pela oposição radical e entrara para a guerrilha sob pretexto de libertar o país do jugo totalitário, da ignorância e da miséria. Que estrago, Bondyé! Que estrago os antigos governantes, descontentes com a perda de poder, vinham fazendo com o seu pobre país. Só não se comparava àquele porque perpetrado por mãos humanas. Para este não, pois que vindo do Alto, não existia comparação. Era a ira de Deus desabando sobre as cabeças dos viventes, cabeças duras e perseverantes no pecado, pensou Dessaline não como um desafio ou uma revolta contra o Todo Poderoso mas uma constatação de que algo de verdade precisaria ser feito para interromper aquela sucessão de erros que tinham levado sua ilha a mais completa miserabilidade.
De corpo e alma, enquando divagava, ia, desordenadamente, afastando restos de parede, caibros partidos, ferros retorcidos, fios expostos, uma porta de geladeira, um sapato velho, um resto de uma surrada boneca de pano, alguns cacos de telhas, uma roda de bicicleta, uma porta de guarda roupa e um pedaço do vestido de Lalin... Lalin?! Lalin, gritou, sentindo que colado ao tecido um torso pequenino revelava-se. Lalin, respira, menina! Lalin estava inteira mas, machucada, muito machucada. Será que viva? Ajuda, por favor! Gen yon moun la? Não havia ninguém para ajudá-lo. Todos estavam ocupados na busca de um seu. Lalin, acorda, Lalin! Vem, menina, volta pra mim. Mas Lalin não podia responder. Estava dormindo. Um sono pesado. Um sono longo, para nunca mais acordar.
Agora que se resignara da perda, de mais esta perda, olhava para o nada, sem qualquer emoção. Não havia mais esperança. Elas tinham ido. Ele tinha ido. Dessaline estava sozinho. E não via caminho, não via nem dia nem noite, apenas um vazio sem fim. Foi trazido de volta à vida oprimido pelos gritos de alguns vizinhos que pareciam protestar contra algo ou alguma coisa ou alguém. Tentou afundar a cabeça entre os joelhos, tapou os ouvidos mas continuou ouvindo aquelas imprecações, muitos xingamentos, palavrões... “fora bandido, carniceiro, maldito”! Pensou ser mais um dos ataques que vinham sendo conduzidos por aqueles que, uma vez libertos dos muros da prisão, voltaram para atormentar, como demônios, o bairro. E pediu, com uma certa alegria, que uma bala o varasse naquele instante. Seria uma benção, pensou.
Porém, ao invés da dor aguardada, o que sentiu, sobre o ombro, foi o toque de uma mão. Um toque leve, carinhoso, tímido. Quem era, Bondyé? Quem parecia estancar a sua dor? Quem o ajudava a levantar-se e buscava o seu abraço? Kimoun sa ye?
Cercado pelos vizinhos que continuavam sua arenga, alguns ameaçando de morte o seu anjo de toque tão suave, Dessaline via a luz. E no centro da luz, o rosto do seu único filho que, desarmado, voltara para ajudá-lo na reconstrução da vida.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Gloria Mater

Vejo a ti princesa ensolarada na torre-farol, tu sereia
De olhos verdes saudade contemplar o catástrofe anunciada.

Daí, donde a luz periódica mansamente repousa, solitária,
Vejo o tímido ensaio de lágrima no reflexo da planta
Que profecia nos aguarda? Que sinais o tempo nos dera?

O cansaço mecânico dessa dança – vontade de desistir e ceder
Conspirado em longínquo acordo de medo e rancor
Te impele cavalgar sonhos lânguidos e maçantes
Consumidos no drama mesquinho da sobrevivência.

Perscrutada pela urbe vaidosa, hesitas:
- Qual, a perspectiva mundana, o prestígio ou a varanda sem sombras de anseios?

Olho a ti, Maíra, rosa adornada de sardas flamejantes,
Construir na trama pontilhada dos orvalhos,
Sagrados princípios habitados de sussurros e espera

Encontro a ti finalmente na íris compassiva das corujas
Ciosa não de cotidianos receios mas da precariedade dos caminhos.
Respire Maíra, eu te peço, flor, deixe que pouse no teu umbigo
Cavo e redondo, o grão que centelha as miliáguas férteis da tua calma.

Deixe que te toque o sublime acorde, movimento iniciático da profusa primavera
Para que, trovejante de calores, tenhas acesa a chama que dissipa o caos.

E no casulo da tua serena e recatada probidade
Quando os desígnios encontrarem a plena forma,
Rejubile-se, Maíra, que agora são os teus olhos que me vêem
Nascido desse celebrado encontro, eu, teu filho e amante
In mundi per alta gloria mater et natura nostra.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Treinamento

Domingo. Jornal. Caderno de Empregos. A maioria dos anúncios pede envio de curriculum através de caixa postal: que droga! Ops, um salva a pátria.
Segunda. Acorda cedo, faz a barba e sonha: “homem entre 21 a 50 anos”... cai como uma luva. Três xícaras de café... esquece a fruta. Dois cigarros além e lá foi perder-se no meio da multidão.
- Por favor... só um instante... aceita um cafezinho? Estremece: “vendas, não, por favor”! Sala apertada. Diante do poster vociferando oito qualidades de um campeão, aguarda.
O sexagenário recrutador, com simpatia estudada, apoiado nas cãs, inicia: metalúrgica, fabricante de filtros purificadores de água, 17 anos no mercado, mais de 300 escritórios comerciais, exportando atualmente para 28 países...
- Começamos produzindo 180 unidades/dia. Hoje vendemos 30.000/mês. São vários modelos, todos aprovados em testes rigorosíssimos. O modelo mais recente, Ecologic Line, é a joia da coroa... O povo gosta, vocês sabem, nome estrangeiro chama atenção. Este aparelho é um sofisticado sistema de três filtros à base de carvão ativado. Fornece água gelada, natural e saudavelmente fresca. Demos um de presente ao padre Marcelo no programa da Hebe. Posso dizer que a nossa água, além de pura, agora é benta! Aplausos. Risos. Apupos.
Conclui afirmando a solidez do grupo, a competitividade do produto (marca sinônimo de qualidade) e exige um vídeo onde é mostrado o processo produtivo e comercial. Uma frase pontifica o epílogo: Empresa 100% brasileira! E o locutor complementa: A serviço da saúde!
Um assistente aproveita a deixa e enumera a melhor parte.
- De acordo com o desempenho individual a ser observado durante treinamento de quatro dias, qualquer um de vocês, mesmo sem experiência, pode vir a integrar o quadro de TLMKT ativo/receptivo da empresa, com todos os benefícios decorrentes: VT, VR, SV, CN, AM... Além do fixo em carteira, comissões variáveis entre 10 a 15% dependendo do produto, mais bônus semanal àqueles que completarem a cota.
Feitas as contas, viu que os olhos da mulher estouraram nas órbitas.
- A aquisição do purificador é automática, pois é notória a impropriedade da água que consumimos.
Outro assistente saca as provas de uma pasta estufada com recortes, panfletos, reportagens de inúmeros jornais denunciando a contaminação dos rios e a falência do sistema de tratamento de água.
- Este material deverá ser utilizado por vocês como parte do arsenal técnico para um bem sucedido fechamento de contrato.
Alguma coisa o morde por dentro... não controla o impulso.
- O que a empresa tem feito em relação à conservação dos mananciais?
Só então percebe que havia perdido uma boa oportunidade de ficar com a boca fechada.
- Isto não nos compete. Pagamos impostos altíssimos. É claro que cada um de nós é responsável mas... o que fazer? A vida é dura mas é a vida e o ser humano é, por natureza, destruidor. E nós, profissionais, temos que sobreviver, não é verdade?
Uma mocinha levanta o dedo: “Posso vender para alguém da família”? O rapaz de pele lustrosa e empapuçadinho responde que não mas que gostaria de saber o telefone do parente. Risos. Palmas. Apupos.
Silêncio! Quem ouviu? A mulher: “Quando é que você vai tomar juízo”?


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A Hora do Dragão

Todo dia ela fazia tudo igual. Assim vinha nos últimos quinze anos. Acordava às seis, banhava-se, preparava o café, levava as crianças à escola, passava no supermercado, pagava uma ou outra conta, telefonava para uma amiga, voltava para casa, ligava a televisão, preparava o almoço, trocava de roupa, telefonava para outra amiga, ligava o computador, lia os e-mail's, enviava os relatórios atrasados para a empresa de consultoria na qual trabalhava, dava um ou dois pitacos nos sites de relacionamento que participava, saía para pegar as crianças, passava no escritório do marido e lá iam todos de volta para casa para jantarem, trocarem algumas palavras, ajudar nas tarefas escolares das crianças, verem um filme na tv e depois cama, talvez um pouco de carícias e... dormir, que ninguém é de ferro. Nos finais de semana, uma saída pro restaurante, cinema ou teatro; uma visita, uma festa de aniversário, uma reunião de família, uma formatura, uma exposição... E assim Simone ia dando conta de seus dias sem uma reclamação que fosse, sem um muxoxo qualquer, fazendo das tripas coração para não pisar no tomate, afinal escrevera certo dia numa página do seu diário adolescente que aos vinte e cinco anos casaria com um cara legal, teria duas filhas e viveria feliz para sempre.
O que Simone esqueceu é que “para sempre” nunca é para sempre, é enquanto dura. Como tudo nesta vida tem seu prazo de validade é preciso estar atento para a hora do baque, para a hora do dragão. O que a gente não sabe é quando será, em qual momento acontecerá. Às vezes a gente nem percebe mas já houve o baque, o dragão já apareceu faz tempo e tornou-se comensal. Nesses casos, a pessoa pode ficar se perguntado o que está acontecendo, porque as coisas não estão do jeito que queremos, porque nada anda, porque essa rotina e coisa e tal. E pode acontecer que sejamos surpreendido. Para a maioria das pessoas a intuição nunca falha. Mas ela nunca nos dá a pista certa, é como um cachorro que late repentinamente sem nos dizer de pronto o que está acontecendo. Temos que ter a coragem de investigar. É nessas horas que podemos nos defrontar com surpresas, com o desconhecido.
Naquela manhã de sábado, Simone acordou na mesmíssima hora, banhou-se, preparou o café para o marido e as filhas, recolheu a roupa suja, dirigiu-se à àrea de serviço, colocou na máquina de lavar, primeiro as peças menos sensíveis, calculou uma quantidade de sabão e ligou. Olhou no relógio, já eram passados quase trinta minutos das sete, decidiu aguardar mais um pouco antes de acordar todo mundo – estava preocupada com o casamento de uma prima logo mais às quatro, ainda não havia comprado o presente mas já sabia mais ou menos o que iriam dar e decidiu sentar-se.
Com mãos cruzadas sob o queixo, fixou-se num ponto no ladrilho da parede, reparou num pingo de sujeira mas desviou o olhar ao sentir o corpo pesado. Algo oprimia-lhe os ombros e visualizou a imagem de um camelo. Emitiu um uh baixinho, quase irônico, no mesmo instante em que era arrancada da cadeira pela visão assustadora e brutal da máquina de lavar transformada num horrendo e singular dragão.
Singular porque não lhe pareceu comum um dragão sem cabeça. Todos os seres vivos possuem cabeça, pensou, porque este dragão está decapitado, foi a pergunta que surgiu enquanto era arremessada contra a parede por aqueles braços finos de fios, ardentes como brasas, a lhe queimarem a pele alva por debaixo do robe de seda. Debateu-se contra o amontoado de peças - cuecas, calcas, meias, blusas - cuspidas por aquele estomago dentado. Lutou contra a falta de ar que azulava seu rosto sem maquiagem. As teclas-presas, arreganhadas e famintas, buscaram o seu pescoço na tentativa de sugar-lhe o bem mais precioso, a sua vida, toda a sua vida. Tentou articular um grito, tentou chamar pelo marido mas guardou-se: aquele era seu momento, aquele monstro era o seu monstro, ela tinha o dever de vencê-lo e mesmo que lhe custasse a própria vida lutaria com unhas e dentes para derrotá-lo.
Uma onda de energia varreu-lhe as veias num relâmpago. Deu um potente chute no que considerou o centro baixo da máquina, sentiu o pé machucado e arrastou-se até o quartinho de despejo. Armou-se. De posse de uma vassoura e uma pá de lixo, partiu para dentro com tudo. Assemelhava uma ninja com anos de aprendizagem com o mestre de todos os mestres; Átemis, lutando ao lado do pai contra os Gigantes; Átena, ao lado de Odisseu, combatendo os pretendentes de Penépole. Com a vassoura como espada e a pá como escudo, o estrago não foi maior porque aquele barulho, aquela algazarra toda, finalmente despertou o esposo e as duas filhas que, assustados, correram para acalmá-la, abraçá-la, aconchegá-la e protegê-la. Sentaram-na numa das poltrona da sala, entre beijos e toque gentis no seu sedoso cabelo completamente desalinhado.
Quando Simone, finalmente, decidiu fitar nos olhos da família, sussurrou com um sorriso maroto: “Sabem aquela máquina de lavar que pensamos em presentear a priminha? Vamos comprar duas”.


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Doze Poemetos (Quarta Leva)

X
Quando esta rua transbordar
Nos meus olhos restará o vaso
Esquecido da planta que o habitou
E a rua, recomposta de estranhos
Caminhos que a planta almejou
Talvez cante uma suave melodia
Que abafe o ruído do vaso partido.

XI
Se tempo é dinheiro
Eu, que já vivi bilhões de segundos
Sou um tremendo capitalista.

XII
Não tenho mortos para enterrar nem túmulos para enfeitar...
Um dia voarei através das nuvens, atravessarei o mar
E sereno em muitas brisas não cederei à vertigem das fronteiras
Serei bem vindo em tantos braços, bafejado em quantos dons
Dedos diligentes e mansos balsamarão minhas asas com unguentos virginais
Longe, verei o dia e a noite recriarem suas órbitas,
E em uníssono as estrelas dançarão boas vindas em minha íris...


domingo, 17 de janeiro de 2010

Doze Poemetos (Terceira Leva)

VII
No inicio era apenas uma saudade.
De tão irrequieta tranquei-a num sacrário
Para as horas de solidão e infortúnio.
Mas, então, me apercebi
Que era que apenas o desdobrar-me
Na direção de mim mesmo.

VIII
Todos os céus me sobrepõem
Todos os abismos me circundam
Roço a vida com os dedos
Minhas mãos simulam alegrias
Sou uma vítima desse logro
Incapaz de perceber o blefe.

XIX
O nome que me sagra, não direi
Blasfemaria se dissesse
Mesmo porque desconheço
O império que me põe em guarda.
Parto, repleto de tua grandeza,
Com a alma cheia e vasta
Nada há que mais tema
Senão minha fraqueza.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Doze Poemetos (Segunda Leva)

IV
Colho as idades e os versos todos saudade
Nascidos aqui nesta tarde quase outono.
O ar em minhas mãos e este sábado carnaval.
Ah, vinho, fumo e bálsamo, Janaína, minha estrela nadir,
Tua pele e a tua anima toda em mim, querubim.
E esse longo sono, Mirabela, e este ocaso de mim?
Abalos sísmicos me açulem que já invento um jardim.
Saúdo as horas e canto os instantes que renasci.

V
Inventei palavras para possuir todas as coisas: criei o tempo,
Delimitei o espaço e a isto chamei realidade.
Elaborei imagens para dar sentido a todas as coisas,
Crei o destino, limitei a ação e a isto chamei felicidade.
Institui linguagem para relacionar todas as coisas,
Crei simbolos, ensaiei ritos e caminhei despencado no rastro dos nãos.

VI
Quantas ruas andei, quantas portas entrei,
Tantos leitos dormi, de quantas bocas ouvi
Quantos lábios beijei, sensato ou insensato
Te procurei tantas vezes e tu, Miracelli,
Pedra e cinzel, sempre aqui, ó luz, dentro de mim.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Doze Poemetos (Primeira Leva)

I
Primeiro foram as mulheres
Depois os índios, negros, judeus, ciganos e bichas.
Agora são os mulçumanos, imigrantes, nordestinos e fumantes.
Oh, mundo branco, cutelo cristão, crudelíssimo fraudador de si mesmo:
Quando não restar um só reflexo e a luz não mais se dissipar em cores,
Quando os rios não mais desaguarem no mar e não for possível recomeço,
Encararás teu exílio ou decretarás uma plástica no teu aspecto de cão?

II
Biografia definitiva (por enquanto):
Homo sapiens sapien
Demens loquens faber
Simbolicus poeticus religious
Cientificus!

III
Ler Nietzsche, botar pilha no relógio, sacar dinheiro.
Telefonar e sondar se já pintou aquele trabalho.
Ler eventuais e-mail's, atualizar curriculum, tomar banho, almoçar.
Continuar lendo Nietzsche, rabiscar algo, assistir tv, tirar uma soneca.
Acordar com a sensação que resolvera o enigma e encontrara a missão
Escrever no silêncio e relutar até o último instante em apagar.


domingo, 10 de janeiro de 2010

Homero e Eu

Era um animal comum. Nem pedigree tinha. Porém era fiel, atencioso, alegre, brincalhão, vigilante, obediente, disponível, protetor... tudo o que se espera de um cão. Viera para os seus donos ainda filhote e aprendera rapidamente onde comer, onde beber, onde dormir, onde fazer seu xixi, onde fazer cocô.
De inicio tentava insinuar-se a todo instante e causara alguns incidentes. Com suas exigentes brincadeiras, demonstrações de carinhos e ou simples curiosidade chegara a quebrar uma peça valiossíma, arranhar alguns móveis caríssimos, sujar uma e outra parede branquíssima, no que foi várias vezes repreendido pelos donos com uma mansidão cativante. Esta atitude fez com que logo percebesse que o melhor mesmo era sempre aguardar o clique, que devia ser oportuno e, principalmente, controlar a torrente de impulsos que insistiam em dominá-lo. Não foi difícil o aprendizado e, para a alegria de todos, crescera robusto, saudável e indispensável.
Houve uma ocasião em que mostrou considerável bravura. Durante uma breve ausência dos donos, dois estranhos tentaram invadir a casa no que foram prontamente rechaçados por sua diligente auto-confiança. Fizeram-lhe muitas cócegas na barriga por isto. Ele gostou muito. Tinha um lar, uma família, comida, bebida, um bom colchão para dormir... a vida era bela. Que mais poderia querer?
Dava-se bem com os outros animais da casa. Fizera um certo esforço, é verdade, para chegar àquela convivência pacifica. Por ser maior e mais forte, achava-se no direito da posse exclusiva do território. À custa de algumas cicatrizes, depressa percebeu que cada um estava ali “defendendo” a sua própria sobrevivência. Não tardou para começar a distribuir olhares fraternos para um ou outro “inimigo natural”. Afinal aquela comunidade animal tinha parte na responsabilidade de manter o bem-estar e a felicidade da comunidade dos donos. Em retribuição ao zelo diuturnamente demonstrado? Foi mais longe. Compreendeu que ali, todos dependiam de todos - para o bem estar e felicidade do território.
Pelos donos aprendera a desenvolver um carinho todo especial. Passou a compreender todos os seus estados de ânimo, todos os seus desejos e motivações. Condoía-se sobremaneira não poder fazer muito mais além de latir e abanar o rabo. Mas era suficiente. Que mais poderia fazer um cão? Conseguia afastar as nuvens cinzas de preocupações que, volta e meia, teimavam em pairar sobre aquelas cabeças de olhos vívidos, pousadas em pescoços eretos, sustentados por ombros donde pendiam braços que mantinham mãos e dedos fartos de afagos e surpresas. O fato de os donos, sua prole, parente, aderentes e agregados conseguirem manter-se sobre duas pernas era, para ele, um verdadeiro assombro. Tentara várias vezes caminhar naquela posição mas desistira por, infelizmente, revelar-se bastante incômoda. E de suas bocas saíam não latidos, mas sons inebriantes, sons que aprendera a distinguir e a relacionar. Sons que aprendera a venerar com toda sua alma de animal.
Numa noite, todos da casa estavam reunidos na sala. Era uma noite especial, um dos filhotes dos donos atingira uma altura considerável e exibia já uma leve camada de pelos a cobrir-lhe quase por completo o rosto. Congratulavam-se mutuamente, satisfeitos com aquela ocasião. Não cessavam de comentar que o filhote agora atingira uma etapa de destaque e que logo logo iria para um lugar distante, dedicar-se a afazeres que, certamente, lhe traria muitas glórias e muita, muita alegria e felicidade para aquela família.
A mesa estava arrumada. Bolos, tortas, pães, empanados, doces, pudins, assados, molhos, cestas com frutas, foram trazidos e expostos. Várias garrafas de vinhos, jarras de sucos e água completavam aquele espetáculo de odores, cores e sabores. Todos os animais foram instados a permanecerem em seus nichos à espera de alguma solicitação ou oferta de alguma iguaria. Todos obedeceram. A exceção do nosso protagonista que relutante, conseguira esquivar-se e ir prostrar-se na poltrona para, com olhos inquietos acompanhar toda a cena. Súbito, alguém suspendeu uma taça e propôs um brinde. Ansioso, o cão grunhiu baixinho. Ninguém prestou-lhe atenção. Grunhiu um pouco mais alto e insistiu. A dona o interrogou com o olhar. Sentiu que só tinha uma alternativa. E arriscou. Em meio a algazarra de vozes, choques de objetos, trinados, silvos, pios, miados, balidos, coaxos, chilreios, gorjeios, grasnos, grassitos... levou um certo tempo até que conseguiu articular por completo sua intenção, enfim, tendo dominado, a princípio, o próprio espanto, soltou num só jorro aquilo que seria descrito como sendo o ápice da sua curta existência:
- Eu também desejo ao Luquinha toda a felicidade do mundo!
Fez-se um silêncio constrangedor, mortal. Naquele momento, revogada a lei da gravidade, penso, até os anjos suspenderam a sua guarda. E qual baque, o alvoroço foi total. Uns disseram que aquilo era obra do demo e trataram de armar-se de qualquer objeto pontudo ou cortante, outros que haviam presenciado um milagre e juntaram as mãos em prece, dois ou três, lambuzados de caldas, quedaram-se petrificados em seus assentos; alguns filhotes esconderam-se debaixo da mesa empurrados pelos pais enquanto outros cercaram-no, aos pulos, ávidos que lhes revelasse o truque e ou contasse um história; alguém disse que iria chamar a carrocinha, o corpo de bombeiros e até a polícia federal; a bisavó resmungou que aquilo era uma impertinência; a tia vesga estridulou haver chegado o fim do mundo e rasgou as vestes; e, enquanto o dono pedia insistentemente calma e ponderação um parente distante, especialista em cálculos e finanças e com amigos influentes na política e no showbis, asseverou que aquilo era uma dádiva, um verdadeiro negócio da china, que reparassem: tinham ali, diante dos seus olhos, uma verdadeira mina de ouro, uma fonte inestimável de riqueza, era só deixar por sua conta, em troca de uma pequena comissão claro, que logo logo estariam todos nadando em rios de dinheiro, era tudo uma questão de pragmatismo, que deixassem de lado certos escrúpulos e aproveitassem a oportunidade.
O que sei sobre os acontecimentos anteriores e posteriores a este evento termina aqui. Homero prefere não comentar, insiste em manter silêncio e tocar a sua vida. Respeito, afinal temos nos dado muito bem e não me agrada contrariar a quem tem sido um verdadeiro pai para mim. Sim, senhores, ele me adotou, eu que perambulava pelas esquinas em busca de mim mesmo, acabei encontrando um amigo. Sei agora tudo que preciso saber para ter uma vida relativamente confortável, sem preocupações com sobrevivência, segurança, relacionamentos, prestígio e ou poder. Hoje, embora faça uso muito raramente da palavra, dedica-se a escrever suas experiências e a me passar um ou outro conhecimento. Tem usado o meu nome para publicar os seus livros e é enfático: para todos os efeitos, ele é apenas o meu animalzinho de estimação. Eu gosto.
Se somos celibatários? Não. Homero tem lá suas aventuras mas é muito previdente, prefere lances rápidos, costuma me dizer que a paixão é fugaz e a imperfeição animal. Eu, recentemente, encontrei alguém, que ao contrário dos chatos, priva-me da solidão fazendo-me valiosa companhia.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Decreto

Fica estabelecido que dias melhores virão.

Que numa tarde, ao acaso, sem selo ou carnaval
Me verás passar por ti trajado de dejá-vu.

E se dias melhores virão, verás ainda que
Estarei de relance numa flor desabitada
Talvez numa palavra sem nome
Ou numa pluma que pousa no chão da tua sala.

Dias melhores virão, sim!
Virá março e suas águas, todos os ciclos...
Todas as luas, todas as estações,
Todas as marés dançando rituais de iniciação e passagem.

Fica estabelecido que dias melhores virão.

Peço apenas que não cerres as tuas portas
Que não seques as tuas lágrimas
Que não sujes as tuas mãos
Que não te deixes enredar de embaraços, coragem!

Lembra-te, trabalhos lutam paramentados de amores, minha ilha!
E os meus calejados dedos buscam a doçura dos olhos teus.

Sim, Maíra, dias melhores virão
Sem aviso, sem festa, apenas um olá e um beijo e nenhuma sedução.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O Labirinto

Era um corredor. Um edifício.
Tudo indicava que o edifício era o corredor.
Como vim parar aqui?
Muitas portas. Que abriam salas, salões, quartos, cubículos, passagens... Outros corredores. Portas solenes, formais, pesadas, lacradas, trancadas, arruinadas, escancaradas, entreabertas, curiosas, sedutoras, cantantes, ruidosas... De variadas texturas, inumeráveis formatos, infinitas cores... Portas falsas, enganadoras, portas que conduziam a nada, portas que nos deixavam sempre diante de si mesmas ou que nos enfiava um muro na cara. Portões, portículas... Umbrais...!
No interior de cada cômodo, apenas objetos aguardavam um olhar, eventualmente um toque que despertava lembranças, que nos arrastavam à geografias nunca antes sonhadas inundando o visitante de sensações nunca antes experimentadas.
Sou só eu e este corredor?
Algumas portas tornavam-se familiares, íntimas. Outras assustavam, amedrontavam, aterrorizavam. E havia aquelas que nos provocavam com seus abismos, precipícios, paradoxos, assimetrias, virtualidades... Sem falar das portas estranhas, exóticas, simbólicas, místicas, sagradas...
O quê construiu esta maravilha?
Fácil perder-se por ali. Podia-se passar anos sem que se pudesse voltar a uma porta visitada anteriormente. Era possível passar-se uma vida naquele corredor sem que fossem abertas todas as portas, tantas as possibilidades de entradas que se descortinava a cada dia.
Contudo, lá no fim do corredor, havia uma estranha porta, uma porta escura, recorrente, com uma inscrição no alto da soleira: “Por aqui só se passa uma vez”.
Melhor deixá-la por último.


A Onda

William Bouguereau
(1825 - 1905)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Tributo a Dante

Divina Comédia: Um admirável Manual de Individuação.
A busca da centelha indizível habitante em toda humanidade.
Dêem só uma olhada na introdução.

DANTE: Ontem eu fugia. Ontem eu era náufrago. As trevas assombravam meu coração. Hoje vejo este sol iluminando a colina - meu rumo. Mas o estorvo da beleza sedutora, do mau gênio e da sordidez não permite que se passe por esta planície. Ah, poeta, afasta de mim todo o mal que me espreita. Que, conduzido por ti, eu consiga alcançar o meu destino.

VÍRGILIO: Já fui homem no tempo de falsos deuses e cantei os feitos dos justos. Por isto, guiar-te-ei através do sofrimento, da amargura e da esperança. Mas é só, o monte das alegrias infindas não me é dado alcançar.

DANTE: Ora quero, ora não quero, tenho a alma aberta a toda sorte de idéias. Vê bem se mereço que me guies, se guardo em mim potência suficiente? Receio que empreender esta jornada seja uma grande insensatez. És capaz de entender o que a mim causa tanta confusão? Eu que nada decido, nada resolvo, que penso sempre em desistir.

VÍRGILIO: Tu és dominado pelo medo, ages como um animal assustado. O homem que se acovarda perde a razão, meu amigo!