quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Coluna do Adroaldo

Nota do Editor.
A partir desta data a Coluna do Adroaldo Macedo não mais será publicada nas páginas deste prestigioso jornal. Hoje, com o devido consentimento da Justiça – em mais uma prova inconteste de que não existe censura no nosso querido país, ilha da mais essencial das democracias - publicamos sua última crônica, infelizmente inacabada.

“Depois daquela tarde em que fui hostilizado cruelmente por um grupo de quatro indivíduos, debaixo da marquise do prédio, meu editor concordou que eu podia preparar os textos no conforto e na segurança do meu apartamento. Achei ótimo. Nunca vi sentido em cumprir horários nesta minha profissão, já que o que o jornal quer de mim é apenas uma matéria, a manutenção da coluna sobre comportamento e uma crônica toda semana e, para isto, independe de onde as escrevo. Mesmo porque o ambiente da redação é um antro de intrigas, cada um querendo consolidar suas carreiras não importando às custas de quem ou o quê. O mercado das almas é o que mais cresce nesta feira de vaidades incontroláveis. Estando conectado ao jornal só preciso cumprir os prazos, não importa se trabalho de manhã, à tarde ou durante a madrugada. Pois é, estou me sentido bem melhor. Acordo na hora que quero, fico pelado zanzando pela casa, bundando o tempo que eu quiser e só vou para o computador no momento em que o texto está pronto na minha cabeça. Nestes momentos, ele sai praticamente acabado, só preciso fazer alguns ajustes e zás... direto para o computador do editor, que daí a alguns minutos me manda um e-mail solicitando uma ou outra correção ou acréscimo.

Estou muito confortável nesta minha nova maneira de trabalhar. Morando sozinho posso me dar o luxo de ser totalmente desorganizado, e isto não me incomoda nem um pouco, trafego muito bem dentro do caos, não me importa nem um pouco se as coisas estão fora de lugar, pelo contrário, percebo que assim funciono bem melhor do que quando vivia casado e tendo hora para fazer tudo, hora para almoçar, tomar banho, jantar, sair... cansei de obrigações, basta a que tenho com o jornal por força unicamente da minha necessidade de ter que pagar contas, algumas deixadas por minha ex-mulher que é uma gastadeira incurável, além do mais tem as duas meninas que dependem de mim para conquistarem um lugar nesta sociedade de merda, para onde eu cair na besteira de trazê-las. Sinto pena delas, mas sinto mais pena de mim, não tenho perdão por ter sido tão abestalhado ao ponto de me deixar levar pelos encantos físicos da mãe delas, que não descuidou um só instante em me cativar com as suas curvas generosas, lábios carnudos, belos seios e uma cabeleira negra capaz de agasalhar todas as minhas carências. Um monumento daqueles e um babaca como eu só podia dar nisso: duas filhas lindas mas completamente à mercê deste mundo que não vacila em apelar para os mais baixos instintos ou fazer dos meios fins, quando se trata de manter o atual paradigma de desenvolvimento.

Aceito e assumo este caos. Não me sobrou escolha. Agora mesmo estão espalhados pelo chão e sobre os móveis, cerca de dez periódicos – os quais sou obrigado a ler diariamente – e mais uma dúzia de revistas, dos mais variados gêneros e temáticas, sem contar a quase centena de livros que me são enviados pelas editoras, na tentativa de que eu venha a resenhá-los e recomendá-los de algum modo na minha coluna. E sempre faço o que me pedem. Não sei dizer não. Sou como aquela rapariga que diz sim para qualquer tarado por absoluta falta de confiança em si mesma. A cidade está inundada, suja, depredada, amorfa, mesquinha e tacanha - apesar da alavancagem que as classes C, D e E deram na indústria dos telefones celulares? Sim, lá vou eu redigir mais um texto. Mais uma falcatrua política, mais um escândalo nos degraus dos palácios, mais uma maracutaia engendrada para favorecer este ou aquele político? Sim, mais um texto de 140 linhas. Um iconoclasta para execrar, um subserviente e venal para exaltar? Opa, só se for agora: saindo mais uns trinta parágrafos em times new roman 12 padrão, espaço duplo. A turma tá fumando crack adoidado? Mais um texto. As jovens mães continuam enfiando agulhas de tricô no útero para abortarem suas crias indesejáveis, morreu mais um homossexual, mais um velho, mais um negro, mais uma puta, mais um mendigo, mais um filho sem pai abandonado numa das milhares de favelas imundas que cercam esta cidade, vítimas dos fundamentalismos cotidianos? Texto, texto, texto. Os caras estão fodendo o planeta, com seus carrões de luxo para saciar uma indústria absolutamente sem futuro, entupindo as ruas e detonando mais ainda o ar desta cidade que não pára simplesmente porque é uma completa desvairada que só pensa em consumir mais e mais porcarias produzidas aqui e lá fora só porque um dia lhe disseram que ela era a locomotiva do progresso, este progresso de bosta que só privilegia a ostentação e o vício em detrimento da vida? Sim, mais textos, mais dúzias de pesquisas pra ler, mais uma vintena de análises sobre as causas e os efeitos deste caos intocável e subsidiado pelo deus mercado, dúzias e dúzias de páginas, todas de acordo com a premissa progressista do politicamente correto - sim porque podemos descer a lenha mas temos que ser morais e éticos ao ponto de não criar descrédito ao jornal nem os princípios jurídicos da nação o que significa não gerar nenhuma onda de desconfiança e anarquia que acabaria por levar a humanidade de volta à barbárie e ao caos. Parecem incansáveis os preceitos, ouvidos e lidos diuturnamente: combata o pecado, nunca o pecador; mantenha a esperança; seja otimista, levante o seu astral, permita que o universo conspire a seu favor... estas titicas retiradas de manuais de auto ajuda que só engordam os seus produtores e que se alastram mais que erva daninha, nos aprisionando num provincialismo alienado, omisso e covarde.

Aqui diante da janela, olho para o meu próximo texto com o ceticismo a me provocar cacoetes e comichões: tenho que entregar amanhã duas laudas e meia sobre o processo de despoluição dos rios Tietê e Pinheiro. Caralho! Onde vou encontrar forças para fazer um texto construtivo? Foi o que meu editor pediu, quase que com lágrimas nos olhos. Há três dias que estou matutando sobre o assunto e não encontro termos além dos genéricos puta que os pariu, abutres de uma figa, súcia de traíras, comandita de canalhas... Estas palavras não me dão trégua e insistem em ficar pairando sobre o teclado e a tela do meu computador, como almas penadas a assombrarem minhas perspectivas.

Não existe mais lugar onde jogar as bitucas de cigarros, os cinzeiros estão cheios. De vez em quando as reaproveito, principalmente naqueles momentos em que não tenho saco para ir ao boteco da esquina comprar mais um maço. Mas vejam só: eu disse não. Consegui dizer não pelo menos uma vez na vida. Disse não à danada da cerveja e à vodca. Antes começava a beber por volta das dez horas da manhã e só parava quando caía em alguma sargeta. Cansei das crises de consciência devido ao que tinha aprontado durante o porre, cansei das amnésias alcoólica e à sensação de estar possuído por algum espírito imundo. Tomei vergonha na cara e hoje só bebo fanta laranja e, de vez em quando, um suco de limão, que é para não abaixar ainda mais minha combalida resistência.

Hoje foi mais um dia daqueles. Choveu pra cacete, todas as emissoras de televisão veicularam à exaustão que não devemos culpar ninguém por isto, que a culpa é da Natureza, nunca em toda a história choveu tanto assim. Os âncoras e as celebridades imploram aos subúrbios para que parem de jogar lixo nos míseros córregos que ainda insistem em atrapalhar a nossa vida... acho que o melhor mesmo seria pavimentar tudo, tacar asfalto e concreto sobre todos eles e criar a cidade dos sonhos.

Não estou ainda terminal nesse negócio de pânico mas tenho evitado sair à rua. O zelador sempre quando me trás a correspondência aproveita para dizer que preciso fazer exercícios, que estou com uma puta barriga e já pode ver sinais de varizes nas minhas pernas... Que se dane! Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Só morto, eu espero. Peraí, estão tocando a campainha...”

Três dias depois do ocorrido, fiquei sabendo que o nosso amigo havia sido preso e condenado pelo crime, inafiançável, de fumar em lugares fechados. A síndica do prédio havia feito a denúncia junto ao Comitê Paraoficial dos Fiscais pela Preservação da Saúde dos Não Fumantes que, com base na lei, prestamente, o encarcerou, o interrogou e, num ineditismo, como que para tornar exemplar o caso, do dia para a noite, preparou-se o processo, ouviu-se as testemunhas, que juraram em uníssono, terem sido ameaçadas em seus bem estares pelo comportamento insidioso e malévolo do réu. Feita a juntada aos autos de vários depoimentos fidedignos de especialistas, ilibados cidadãos comprometidos com a moral e os bons costumes, o processo foi levado à júri quase que no mesmo dia e no começo da noitinha anunciou-se a sentença: haveria de pagar uma multa de um milhão e quinhentos mil reais, fazer doação mensal de duzentas cestas básicas para lares de caridade, além da pena de quinze anos de reclusão em regime fechado, sem direito a condicional, sem direito à apelação, numa penitenciária no interior do Estado das Alagoas.

Nós, da redação, sentiremos sua falta. Boa sorte, Adroaldo.

Em tempo: por determinação da Diretoria deste aguerrido jornal, ouvidos todos os canais competentes, o espaço antes ocupado pelo nosso infeliz repórter, doravante apresentará, já a partir da próxima semana, os sábios conselhos da nossa mui querida amiga e patrona, Sra. Dra. Maria Guilhermina Cavalcante Loureiro Silva e Silva, exímia bióloga, botânica e diácona primaz da Nova Igreja Católica Reformada Apostólica Evangélica Positivista Sincrética do Brasil, premiada e publicada várias vezes, nacional e internacionalmente. A sua coluna ministrará à comunidade local profícuos ensinamentos sobre o plantio e cultivo de bromélias, visando a exposição em feiras municipais, estaduais e federais, trabalho ao qual se dedica a mais de cinquenta anos na Fundação Preservacionista Radical da Flora e Fauna dos Jardins de Antanho, onde exerce o humilde cargo de presidenta vitalícia.

Obrigado!


sábado, 20 de fevereiro de 2010

A Aposta de Pascal

Muita saliva, neurônios, papel e tinta já foram gastos para afirmar ou negar a existência de Deus.
Adentremos ao reino da metafísica, onde se procura conhecer as coisas em si e dar respostas últimas e definitivas.
Em Crítica à Razão Pura, Kant afirma que todas as afirmações da metafísica não são legítimas porque empregam o entendimento humano fora dos limites definidos pela intuição espaço-temporal e redundam em antinomias, ou seja, geram contradições. Quer dizer, existem tantos argumentos a favor quanto contra, todos com a mesma força lógica. E acrescenta, domínio da metafísica só é possível pensar, jamais conhecer.
Primeira contradição: Quando se especula sobre a totalidade do universo, a razão pode chegar tanto à conclusão de que o universo tem um princípio no tempo e limites no espaço, quanto pode afirmar exatamente o contrário: o universo é infinito no tempo e no espaço.
Segunda contradição: Refere-se à estrutura do universo no espaço: a tese diz que tudo quanto existe no universo é composto de elementos simples e indivisíveis. Que se algo existe e é divisível, a divisão deste algo deveria cessar num dado momento, chegando-se assim à absurda conclusão de que esse algo é uma soma de nadas. O adepto da antítese poderia argumentar que as partículas possuem uma certa dimensão e nesse caso são divisíveis.
Terceira contradição: Sobre a causa primeira do universo, sobre a existência ou não de um ser necessário, dentro ou fora do universo. Kant agrupa três argumentos principais: o ontológico, o cosmológico e o teológico. O primeiro, encontrado em Santo Anselmo e Descartes, afirma que o homem tem idéia da perfeição, que necessariamente deve existir porque se não existisse não seria perfeito. Se o ser humano possui a idéia de perfeição é porque ela existe e se ela não existe como se explica que o ser humano a possua? Kant diz que esta é uma idéia localizada, quer dizer apenas os seres humanos a possuem, portanto ela não possui validade nenhuma, a não ser quando aplicada do ponto de vista humano, localizada. O segundo argumento, o cosmológico, prova a existência de Deus na enumeração das causas dos fenômenos até chegar a causa não causada, que seria Deus. O erro desta argumentação, para Kant, é que não existe motivo algum para que uma série cesse em algum ponto. Finalmente, o argumento teológico diz que se todos os seres cumprem algum fim, possuem alguma finalidade, servem para alguma coisa, logo deve haver um fim último: Deus. Kant diz que se trata apenas de um conceito metodológico, empregado para descrever a realidade, mas do qual não é lícito extrair qualquer conclusão referente a um ser superior, que não existe nenhum motivo para que cesse, neste caso, o princípio da casualidade.
Assim, para o filósofo alemão, a metafísica ultrapassa todas as limitações inerentes ao ato de conhecer fazendo afirmações totalmente ilegítimas.
Mas Kant era um homem do seu tempo. Ao negar todas as conclusões da metafísica, afirma que a razão não é constituída apenas por uma dimensão teórica, que busca conhecer, mas também por uma dimensão prática, que determina o seu objeto mediante a ação. Nesse sentido a razão cria um mundo moral e é nesse domínio que podemos encontrar os fundamentos para a existência de Deus. Se para a ciência a hipótese Deus é absolutamente desnecessária, do ponto de vista moral ela é plenamente justificada. Deus não existe, mas precisamos dele para guiar nossas ações morais. Este é um argumento que coloca os seres humanos na posição de criadores, seres capazes de, para viverem moralmente, terem uma conduta moral, criam um ser supremo, uma idéia perfeita na qual passam a basear suas existências. O argumento categórico de Kant resume-se em “aja de tal modo que a tua conduta possa ser assumida por toda a humanidade”. Nesta máxima estaria resumida toda a moral cristã - passada, presente e futura. O velho filosofo era, apesar do casmurro, um sujeito generoso.
Coisa que não encontramos em outros pensadores. Alguns são tão furibundos nas suas afirmações que dá medo encará-los. Ontem mesmo recebi um e-mail de um remetente identificado como discípulo de cristo. Lá pelas tantas ele afirma em negrito: Os anjos expulsos do céu se disfarçam de pessoas boas e falam para as pessoas fazerem boas obras para terem o direito de estar com Deus depois da morte, tendo o objetivo de anular o direito de estar com Deus pelo sacrifício de Jesus, para a pessoa morrer confiando que ela mesma pode se justificar diante de Deus pelas suas obras e não morrer confiando no perdão dos pecados e justificação pelo sacrifício que Jesus fez por nós. Os demônios sabem que ninguém pode ter o perdão dos pecados por boas obras , por isso se disfarçam em bons e falam em fazer boas obras.
Quer dizer que se eu fizer boas obras não vou pro céu? Boas obras são artimanhas do demo? Chamem o pelotão do choque que eu estou já enviei currículo para o pessoal do narcotráfico.
Outros são descaradamente oportunistas. E aqui vem a justificativa do título. Pascal, eminente matemático, foi tão calculista e maldoso na sua afirmação que causa arrepios em qualquer um com um mínimo de sensibilidade. Blaise Pascal (1623-1662) desenvolveu a Teoria das Probabilidades. Criou a primeira máquina de calcular. Quando tinha apenas 16 anos criou o seu famoso teorema ao determinar se os seis vértices de um hexágono estão situados sobre uma circunferência e os três pares de lados opostos se intersectam, os três pontos de intersecção são colieares. O que quer que isto signifique, e parece significar muito, transformou para sempre o cara num gênio da humanidade. Mas todo gênio tem lá sua cota de tolice. E a de Pascal equipara-se a sua genialidade. O que nos deixa com 50 por cento de possibilidade de considerá-lo ora como um sábio ora como néscio. Ou seja, caímos numa antinomia da razão.
Um dia Pascal teve um visão e converteu-se a uma doutrina chamada jansenismo, que entre outras coisas afirmava que já que o ser humano pecou há de carregar para todo o sempre a marca do pecado. Então tudo que o ser humano fizer será ruim, pois foi corrompido na origem. Só Deus pode ofertar a graça de alguma boa ação praticada pelo ser humano. Portanto, o ser humano peca por conta da sua natureza corrompida mas, apenas com a graça de Deus é capaz de fazer alguma coisa boa. Outra consequência deste argumento é que Cristo não morreu pela humanidade mas apenas por aqueles agraciados por Deus com a possibilidade de realizarem boas ações. Temos aqui a doutrina da Predestinação. Deus dá a graça a quem ele quer, a quem ele não quer... já era!
Bem, mas qual foi a aposta do Pascal? Sigamos o seu cálculo:
- Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, será beneficiado com a ida ao paraíso.
- Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, não terá perdido nada.
- Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, não terá perdido nada.
- Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, você irá para o fogo eterno.
Quer dizer, você tem 50 por cento de chance de se dá mal, e 50 por cento de se dá bem. E nada do que você possa fazer irá te ajudar nessa fração que falta para provocar o desempate desta conta. Nem o sacrifício do Cristo pode te salvar, porque ele veio para salvar apenas aqueles que Deus já tinha determinado anteriormente com a sua graça. Então, como fazemos para obter a graça de Deus? Calvino pega a deixa e diz que só pela prosperidade podemos alcançar a graça de Deus. Quanto mais próspero você for na sua existência terrena mas a graça de Deus se derrama sobre você, porque se você enriquece é porque Deus te deu a graça de ficar rico. Enfim, só os muito, muito, mas muito ricos mesmos podem alcançar a graça de Deus.
Para mim só sobra a esperança que Deus leve em conta que tempo é dinheiro, afinal já vivi bilhões de segundos nesta vida.


domingo, 14 de fevereiro de 2010

Terceiro Encontro

Sabe, é assim, terceiro encontro: quer dormir lá em casa hoje? Assim, na lata? Melhor não, direto assim não, tem que ir com calma, como manda o figurino, mas ela não manda nenhum sinal, não sei, não consigo imaginar o que está se passando na cabeça dela, estou indo em frente, ansioso, com uma vontade louca de saber o que ela pensa de tudo isto, se está de fato desejando mais alguma coisa ou isto é só mais um encontro entre duas pessoas que finalmente conseguiram ir além de uma simples troca de olhares por sobre as divisórias que as separam oito horas por dia sem saber muito bem o que esperar uma da outra, mas isto é apenas a coisa mais natural do mundo, coisa que acontece quando pinta aquela atração, sei lá, quando os olhares vão ficando cada vez mais insistentes, mais flagrantes e dissimulados, até que finalmente, naquela hora, meio assim, desavisada, mas estratégicamente planejada, chega a hora do cafezinho, eu e ela ali, sozinhos, diante da máquina de café, mexendo e remexendo o açucar no fundo do copo de plástico, conversa vai, conversa vem, assim meio como não se quer nada, só jogando verde, a conversa indo e vindo, caçando assunto, interesses, vontades, nada de desejos secretos, embora uma ou outra isca vá nesta direção com o próposito futuro de surpreender, fazer alguma coisa que chame a atenção, que marque, que distinga e quando a gente pensa que não, sai, assim meio sem querer aquela frase, que no momento parece frase pronta de ator, com aquele olhar quarenta e dois, mas tudo bem, todo este tempo, ali, um ao lado do outro, separados por um divisória, a tempos querendo dizer aquilo, e quando ela, a frase, consegue sair a gente nem acredita que disse vamos sair juntos qualquer dia, existe uma certa atração, alguma química, sei lá, a tempos venho tentando dizer isto e é nesta hora que a gente se surpreende, quando o inesperado acontece, embora eventualmente possamos estar preparados para certas singularidades, para a perda de validade de todas as leis, tais como a esperada concordância ser exatamente o seu oposto, ou algo ainda muito mais incerto tal como um simples sorriso, um sorriso pendente, um sorriso como resposta, um sorriso que não diz que sim nem que não, que deixa a gente meio sem chão, sem saber onde jogar o copinho plástico e decide, mecanicamente, amassar, fazer uma bolinha e ficar ali, no corredor, diante da máquina de café, brincando, jogando de uma mão para outra aquela bolinha nhec nhec, meio tonto, meio patético, e aí a gente se dá conta que alguma coisa não foi dita, que os olhares estavam emitindo sinais errados, que tudo não passava de um grande equívoco ou que se está sendo precipidado, não, precipitado nada, nunca se é precipidado quando se chega a este ponto, ao ponto dos olhares só faltarem falar e eles falam, não é? Será possível que eu tenha me enganado, não estava tudo claro àqueles olhares, que não faltava mais nada, que só faltava aquela frase, mas que coisa, porque fui dizer a bendita frase?, não era nada disso, não era para ser assim, claro, nada de roteiro, nada de lógica tradicional, as coisas deveriam acontecer de maneira casual, assim como não se quer nada, deixar ao acaso, entrar em sintonia e deixar que o universo conspire a nosso favor, claro, era isso, tinha que ser assim, só podia ser assim, nada de ser direto, nada de demonstrar insegurança, nunca demonstrar insegurança, pelo menos não no começo, não com aquela frase, não naquela fase, onde tudo é mistério, insegurança pode, mas só depois, com a intimidade talvez, mas não agora, não no início, não na hora da saída, juntamente quando ela não me olha, não diz tchau, não diz nada e desce primeiro, conversando animada com duas colegas, e eu pensei, perdi, dançei, fiquei a ver navios, mas não mostrei, não demonstrei nenhum interesse, nenhuma preocupação, fiz de conta que nada tinha acontecido, mas estava chovendo e ela parou e não acompanhou as colegas, e ficou ali, friccionando os braços, debaixo da marquise do prédio, sem sombrinha à mostra, ela estava sem sombrinha, e eu percebi a deixa, era uma deixa ou não? Claro que foi, tanto foi que ao abrir meu imenso guarda-chuva e olhei na sua direção, ela sorriu e eu não hesitei, perguntei quer carona e ela não recusou, aceitou de cara, eu não esperaria que recusasse, estava torcendo a nosso favor, acho que ela também, porque enlaçou o braço no meu e eu senti parte do seu corpo quente junto ao meu, foi um instante e tanto e foi naquela hora que senti que não tinha mais nada a dizer além de perguntar se já tinha visto o último filme do Woddy Allen porque sabia que teríamos com o que nos distrair durante aquela viagem que acabara sendo o nosso primeiro encontro e agora estou aqui, ansioso, de novo incerto se precipito ou não outra resposta lacônica. Quer saber, deixa como está. Talvez eu a convide, lá pelo quarto ou quinto encontro, para passar um fim de semana da praia.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Emulação a Dirceu

Quantas estações, exilado, minha flor, Marília bela...
Quantas fronteiras aguardam estas distâncias fatigadas de ausências?
Tão perto esta flor, tão longe o jardim!

Quantos sóis, Marília, quantos desastres e chacinas
Quantos entes, parentes, aderentes terão que sucumbir
Quantas novelas, xeriados da Xena, terão que resistir
Quantas cirandas, financeiras ou não, terão que participar deste tema solidão?

E os dispersivos sonhos que não assinalei...
Que serão destes dias, ponta e novelo, esperança e caos
Quantos, Marília, serão teus, quantos bons, quantos maus?

Peregrino, nada posso senão devaneios em desprovidas horas
Nada posso senão palavras adornadas de murmúrios
Sussurros que imploro ao vento te lembrar.


domingo, 7 de fevereiro de 2010

Carta à Rosália

São Paulo, 02 de janeiro de 2010.

Minha querida amiga Rosália.
Escrevo estas mal traçadas linhas para saber como vai você e ao mesmo tempo falar um pouco de mim.

Desde que saí daí não tenho parado de pensar no que seria da minha vida se eu tivesse me casado com o Joelmir. Acho que foi melhor assim, agora tenho certeza de que meu casamento com ele não teria dado certo. Ninguém aguenta ser passada para trás assim como ele fez comigo. Na maior cara dura. E ainda por cima com aquela zinha que eu considerava quase como uma parente. Cheguei a levar ela para minha casa quando os pais dela tiveram que se mudar para Brasília. E no que deu você sabe bem. Na noite em que peguei os dois deitados na minha própria cama só pensei em morrer. Mulher nenhuma merece isto. Ainda mais que eu fazia de tudo por ele. Mas deixa pra lá. Vou levar a minha vida e esquecer. É só disso que preciso. E você? Espero que já tenha encontrado o seu príncipe encantado. Não esqueça de me avisar se ele aparecer. Quero acompanhar tudo, tintim por tintim. Não é porque me decepcionei que não vá me alegrar com a tua boa sorte. Desejo sempre o melhor para você. Você sim, é uma verdadeira amiga. Sinto muito a tua falta. Queria que tivesse outro jeito da gente poder conversar.

Olha, Rosália, por aqui vai tudo mais ou menos. Estou trabalhando numa casa de família. Uma agência de emprego me mandou aqui. Ela é médica e ele engenheiro. Mas sabe como é, cada um no seu lugar. Moram num prédio bacana, com piscina, campo de futebol e tal, numa rua onde não passa ônibus, onde não tem um papel de bala pelo chão e tem segurança pra tudo que é lado. Cada prédio tem pelo menos dois homens vestidos de preto no portão e um que fica dentro da guarida. Tem uns que até estão armados. Às vezes sinto como se estivesse vivendo numa prisão. Mas é quase isto mesmo, meu quartinho não tem janela e parece uma caixa de papelão de tão apertado. Se eu tivesse mais estudo talvez conseguisse um emprego melhor mas, isto ainda vai demorar, ainda nem terminei o supletivo. Difícil é encontrar tempo para estudar. Começo meu dia às cinco e meia e tem dia que só consigo parar depois da meia noite. Folgo apenas uma vez por mês. Mas vou levando, como Deus quer. Quem precisa tem que se sujeitar.

O que mais me deixa triste é o modo como eles me tratam. A dona Ximena, minha patroa, vive me repreendendo que não devo falar alto, que falar alto é falta de educação. Que devo tomar cuidado com os espertos, que não posso trazer namorado para o apartamento, que devo tomar muito cuidado para não engravidar. E o seu Horário, o marido dela, não perde ocasião de dizer que falo errado, vive corrigindo tudo que falo, chega a dar agonia. É tanto não devo, não devo isto não devo aquilo, que não devo assistir novelas, que não devo ver o Sílvio Santos, o Gugu mas, o que devo assistir então? Na minha televisão só pega isto. Não é que nem a deles, que parece uma janela, pendurada na parede e só passa programas em inglês, como é que eu posso ter uma dessas se o meu salário mal dá pra eu mandar todo mês o que prometi pra mãe? Outro dia, a dona Ximena disse que devo sempre andar de uniforme quando saio na rua, mesmo nos dias de folga, que a cidade é muito violenta, que é para eu não ser confundida com ladrão, assunta só! Isto já está me enchendo a paciência.

Sabe o que mais me dói? É ser tratada como um leproso. Sabia que nem em sonho empregado pode usar o elevador social? A gente tem uma entrada lateral e só pode usar o elevador de serviço. Os guardas e o porteiro ficam na maior marcação em cima da gente. Parece que nós somos uns condenados. Sei não, esses ricos parece que não cagam, não mijam, não choram, não tem sentimentos. Às vezes penso que eles acham que estão nos prestando um favor por nos empregar em troca de um salário tão mal pago. Ah, sabe que já tem dois meses que não recebo nada? Eles foram passar o fim de ano no estrangeiro, passaram quase vinte dias, e quando voltaram vieram com uma conversa que o limite do cartão tinha estourado e que eu aguentasse uns meses até a situação voltar ao normal. Eu perguntei quando eles iam assinar minha carteira. O seu Horácio me disse que eu não me preocupasse que ele estava vendo se a firma dele pode me contratar mas que isto demora e que eu tivesse paciência. Tenho deixado eles me enrolarem porque você sabe que não conheço ninguém por aqui e não posso voltar para Xaréu, não por agora, ou até conseguir esquecer tudo o que passei por aí.

A vida não tem sido nada boa comigo, Rosália. E ainda por cima tem o filho deles, nem acabou direito de sair das fraldas e vive se engraçando comigo. Sabe o que o safado me disse outro dia? Que se eu deixasse ele entrar no meu quarto de noite, ele me daria uma televisão bem maior que a que os pais me deram. O danado vive me agarrando por trás, na lavanderia, na cozinha, é só o pai e mãe sair pro trabalho começa o meu calvário. Vivo fugindo do engonço. Ele pensa o que, que sou mulher da vida? Você me conhece, Rosália, só vou para a cama com um homem que eu amar de verdade. Talvez este dia nunca aconteça, talvez eu acabe mesmo ficando para tia. Mas não vou ceder de jeito nenhum. Embora o peste pareça um artista de cinema, de tão bonito que é. Mas comigo não, violão. Sei o que ele quer. Não posso bobear, porque nessa parte eu sou o lado mais fraco da corda. Não quero sair daqui com uma uma mão na frente e outra atrás. E se ele me engravidar? Aí sim é que a porca torce o rabo. A família dele vai querer cuidar de mim e do meu filho? Duvido. Pois é, de amargura basta o que já tenho passado. Acho que ele pensa que porque a gente não tem toda a instrução deles não tem caráter, ou que a gente é trouxa. Pois estão muito enganados.

Rosália, quem faz aqui aqui mesmo paga. Veja só como são as coisas. A filha dos meus patrões, nem se formou ainda e, uma noite, durante o jantar ouvi uma conversa de que ela ia para a Europa conhecer o mundo. Nossa, parece que a casa veio abaixo. A dona Ximena disse que nem pensar, que ela tinha que continuar os estudos, que gastaram muito com o estudo dela e ela não podia fazer isto não, que ela ia ficar sem a mesada dela e coisa e tal e sabe o que aconteceu? A menina foi. Juntou o que tinha e foi. Ontem o irmão dela me disse ela que está lá, trabalhando de doméstica para se sustentar. Pode? Só pode ser castigo, não é?

Da sua amiga de sempre,
Claudinete.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Saudade ao Acaso

Foi a noite, guiada
Pelos solitários caminhos do coração
Que inspirou aquele desejo gratuito
Fortuito afeto, ato justiceiro e sem nome.

Rio fui, sereno inundar a terra.
E quando o mar, conspirando com as vagas,
Ceifou as rochas, das gotas morango
Daquele sorvete, precipitou o ar.

Ferido, o vento revelou-se inoportuno.
Restou o cantiga ineficáz da jia.
Foi tudo, findou, divagamos Diva.

Teus olhos romperem a rua, sem encanto
A comédia instalou-se... e nessa tragilouca paixão
Flagrei minha saudade te espreitando ao acaso.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Dúvida

Ah, se este tranquilo transeunte
Ignorando suas medidas satisfações
Permitisse minha cabeça no seu ombro...

Eu choraria por certo
E traçaria incerto
Em palavras poucas, ralas
Um perfil de você.

E enquanto a cerveja
Regasse nossas fantasias,
As vozes dos automóveis
De tão roucas calariam.
Uma lua, cúmplice, surgiria
E aplaudiria nossa embriaguez.

E quando o bar fechasse,
A cidade dormisse,
Nós, bêbado de ti,
Solitários,
Gritaríamos teu nome.

E em mim
Um oceano
Ecoaria em dúvidas:
Que há com a noite
Que me separa de ti?