domingo, 28 de março de 2010

A Máscara Nossa de Cada Dia

Acordou sentindo falta dos três perdidos sentidos. As orelhas ainda estavam ali, salvas. A face não doía mais. Só doía quando lembrava. Do dia em que quebrou a cara. Boca, nariz e olhos viraram pasta, viraram nada diante daquele poste. Restaram apenas a cara lisa, a cara dura, o vazio e os pensamentos. Ainda era alguma coisa.

Tateou até a comoda e, diante do espelho, gaveta após gaveta, buscou uma máscara, dentre as dúzias que possuía. Virou, mexeu e sentiu difícil encontrar uma que caísse melhor ao dia que havia pela frente. Relaxado, embora sem opções, pensou que estava já na hora de comprar uma nova. Não... Esta não... Usei anteontem... Talvez... Uhn... Um pouco gasta...

Plástica? Quem falou? Nem pensar. Deforma. Irreversível. E uma tatuagem? Não, tatuagem não, é muito estática. Algo mais dinâmico, cogitou. Devia existir algo assim, uma massa especial, algo, sei lá, que se possa aplicar sobre o rosto e sair moldando conforme o humor, alguma coisa flexível e fácil de aplicar, moldar, retirar, moldar de novo, algo reutilizável, algo que, findo o dia era só puxar, raspar os resíduos, botar tudo numa maquininha, tipo reprocessador, misturado com um pouquinho do pó que se podia comprar junto e que serviria para manter a consistência e aumentar a durabilidade, ah, não pode esquecer das duas gotas da fórmula secreta e, eureca!, nova massa, tudo de modo bastante econômico, rápido e prático. Claro que teria que haver uma máquina, é verdade, o resto seria refil, dois ou três pacotes do pó e um vidrinho de algo com nome tipo XY2H Ultra Prime, daria para um ano ou mais. Beleza, não? Porque não pensaram nisso antes?

Ficou de produzir um relatório detalhado com as informações básicas, só as básicas porque não tinha nenhum conhecimento de química ou física ou biologia, isso era com os químicos, físicos e biológos da indústria para onde teria que enviar imediatamente o relatório, antes que algum esperto tentasse lhe passar a perna, afinal não dava para confiar em ninguém hoje em dia, era melhor ficar na moita, boca de siri, nada de abrir o jogo ou bater com a lingua nos dentes, contar para alguém nem pensar, nem à própria mãe e escolher rapidinho qual indústria, que tipo, talvez uma quem sabe, alguma indústria farmacêutica, não, farmacêutica não, não era remédio, ou era, não, tem que ser indústria de cosmético, não cosmético não, sim, de cosméticos sim, porque não? Um material dessa qualidade seria mais apropriado à industria do ramo de cósmeticos e afins.

Topariam na hora, era só enviar o relatório mas, pensa, o importante era que fosse um produto cem por cento natural, claro, e da região amazônica, nacional, um produto genuinamente nacional e natural, cujo princípio ativo fosse extraído de uma plantinha qualquer, dessas que ninguém dá nada e deixa de lado, passa batido e de repente um cientista americano... Não americano não, é muito manjado, um cientista checo, é, um cientista checo, caras que vivem numa cidade chamada Praga só podem ser sérios e caras sérios normalmente, pensa, não estão lá tão ligados nessa coisa de status, poder pessoal, grana, essas coisas que a gente logo associa aos americanos, do norte é claro, claro que tem exceções, é evidente, em todos os continentes, deixa prá lá, bem, o fato é que um cientista checo em viagem de recreio pela Amazônia (estava indo muito bem) visita uma tribo lá nos cafundós da selva, uma tribo ainda em estado bruto, quer dizer, estado puro, ou melhor, estado selvático quase puro, e assim como não quer nada, acaba sendo apresentado a uma plantinha qualquer, insignificante, sem qualquer atrativo, de nome impronunciável e classificação duvidosa, mas que acaba por provocar uma verdadeira revelação, tudo por conta de uma sessão de xamanismo praticada durante a pororoca, para reconstituir as pálpebras do filho mais velho do cacique, que tinha assoprado um fogo contra o vento, imaginem!, e ficou com a cara muito estranha, precisando de um conserto urgente, nossa! pegou mal na tribo tal desatino e como o jovem é o sucessor imediato do pai no cargo máximo da aldeia, trata o velho chefe de convocar os poderes do pajé no domínio da erva que ninguém no mundo civilizado conhece.

O ritual todo desperta a curiosidade cientifica e acadêmica do cientista checo, algo lhe bateu extraordinário, uau! aquilo era mais que descoberta, era um achado científico que irá mudar a face da humanidade, e trata logo de fazer um exame preliminar munido de um aparelhinho, de aparência despretenciosa, fabricado na China e adquirido num bazar turco na periferia de Istambul, cara! última palavra em matéria de tecnologia de ponta no exame rápido de substâncias ou composto de substâncias minerais ou vegetais passíveis de gerar alguma coisa boa e proveitosa para a humanidade (estão vendo porque o cientista tem que ser um checo?) e que, por acaso, vejam só, trazia dentro da mochila. Logo o jovem cientista checo, recém divorciado, às voltas com a pensão de dois filhas e pressionado pela chefia do departamento de química da Universidade de Praga para que entregasse logo sua tese sobre novos compostos orgânicos e/ou inorgânicos capazes de trazer contribuição significativa no campo de novas resinas de multíplos usos, redige ali mesmo um contrato informal, no seu caderninho de notas, no qual o cacique se compromete cultivar, colher, fazer um rápido processamento e exportar o pozinho extraído da plantinha fenomenal, enquanto ele, o cientista checo, terá que produzir a fórmula secreta lá no laboratório improvisado na área leste, nos fundos da oficina mecânica do campus da Universidade Karlova, a mais antiga da Europa Central.

Ato contínuo, o pré-acordo é ratificado e endossado por uma ong holandesa defensora dos direitos dos povos à independência total sem intervenção de qualquer natureza, que também estava de passagem por lá naquela hora, na figura do seu secretário executivo que, por acaso, ouve toda a conversa do jovem cientista checo com o cacique ali na barranca do rio, que pode, porque não, ser o próprio rio Negro, onde todo mundo vai pescar, dar uns mergulhos e jogar conversa fora e não tarda mexer alguns pauzinhos através de rápidas e decisivas consultas via celular do chefe, porque o seu acaba ficando sem bateria, aos membros do conselho superior da entidade sem fins lucrativos, com sede em Amsterdan, e ali mesmo, na barranca do pressuposto rio, sem mais delongas e com todas as garantias possíveis de um pequeno financiamento a longo prazo a perder de vista, convence a todos, o chefe, o xamã, mais dois ajudantes e o cientista checo, que é de bom alvitre criarem uma microempresa que garanta 40% pra tribo, 40% pro checo e 20% para a ong (A Universiade de Praga iria chiar, como comprovado veio a chiar) pelos próximos 50 anos, ficando o cientista checo eleito, por 4 votos a 2 (tem sempre alguém querendo jogar areia na sopa dos outros) presidente da nova companhia, tudo devidamente anotado e registrado num cartório na cidade de Belém (lembrem-se que estamos falando da Amazônia, logo deve ser Belém do Pará e não aquela outra Belém), servindo como testemunhas dois funcionários dos Ibama, um da Receita Federal e outro da Funai, chamados na última hora para imprimirem um caráter legal à trama, trama não, dá um ar meio sinistro, ao negócio parece mais apropriado. E todos trocam cumprimentos, tapinhas nas costas, duas ou três talagadas de vodka (o checo que descolou e o cara do Ibama adorou, afinal não era todo dia que podia se dar o luxo de entornar uma legítima vodka polonesa) e todos viveram felizes para sempre, inclusive ele...

Opa, como era mesmo o seu nome? Como, esqueceu o próprio nome? Tinha um nome, não tinha? Ou será que nome apenas tinham as máscaras? Bom, deixa prá lá, depois pensaria nisto, não parecia muito importante... C, porque não? Pode ser C, simples não, C! A, B ou C... tanto faz. Vá lá, fica sendo C.

Caramba, esse pessoal ia mesmo deitar e rolar. Podia até ver. Nossa, cara, que idéia. Massa para moldagem de rosto! Esse bem poderia ser o nome, não, muito longo, que tal abreviar, que tal: mamoro, não, lembra namoro, não, masmolros, então, melhor, bem melhor. Masmolros. Imponente. Ficou de enviar um e-mail sugerindo o nome, por que não, é um produto coletivo, não é? Quem sabe, levaria algum, porque não! Tudo muito prático, muito prático mesmo e perfeitamente legal. Agora, para usar precisaria de um pouco de treino. O que não iria demandar mais que algumas aulas de modelagem em argila. Nada mal. Poderia até ganhar algum produzindo peças de decoração enquanto ia moldando narizes, bocas, olhos, sobrancelhas, orelhas... taí: porque não pensou nisto antes? Lembrou-se do senhor Batata, conhecem? Também seria legal, não seria? É só comprar umas peças avulsas e ir montando cada caractere. Não, não daria certo, já pensou, ter que fazer cavidades no rosto? Essas cavidades teria que ter medidas bem calibradas. E se comprasse uma peça pirata, que não se encaixasse direito no lugar? Seria um incomodo. O melhor mesmo é massinha produzida com aquela plantinha milagrosa. A cara tá lá, lisa, você vem e aplica uma camada, uma coisinha só, e... O resto é a criatividade que será adquirida com a experiência na argila. Bom, enquanto esse dia não vem, ia com as que tinha mesmo. Se o orçamento algum dia permitisse...!

Já pensara muitas vezes em comprar algumas daquelas máscaras japonesas que são usadas no Teatro No, incríveis não é mesmo? E as venezianas? Bonitas, muito bonitas, mas sem muita variedade de expressões. E as gregas? Fortes, mas pesadas. Africanas não, muito grandes, o material é perecível, exige muito cuidado. Mas do que estava falando? As máscaras nacionais são de primeira, usadas até no carnaval, quer prestígio melhor do que durante o carnaval? Uma máscara aprovada durante o carnaval, fica para sempre, é eternizada, vira modelo para toda uma geração. Não tem passarela melhor quando se quer mostrar uma máscara nova. Nossos modeladores nada ficam a dever aos modeladores estrangeiros. É o tal negócio, temos que prestigiar a indústria nacional. Por isso faz sempre questão de exibir a etiqueta das suas máscaras, orgulha-se daquele made in brasil.

Atrasado e sem conseguir decidir, pegou a primeira que estava à mão e saiu com a barba por fazer, o lábio inferior meio torto e rachado, precisando de um pouco de manteiga de cacau, uma remela esquecida no olho esquerdo, só o cabelo, o cabelo não, o cabelo fez questão de penteá-lo impecavelmente, como faz todos os dias. Certos hábitos não há porque mudá-los, não é mesmo?


quinta-feira, 25 de março de 2010

Mais uma, Paulo Renault!

Quase a pedidos, devo publicar mais um poema do Paulo Renault. A postagem anterior atraiu curiosidade sobre a sua obra. Sei que o pessoal da Catavento não vai pegar no meu pé se alimentar um pouco mais a divulgação deste poeta, um dos poucos poetas que conheci de verdade. Convivi bastante com ele e sei que, onde quer que sua memória esteja, um pouco da sua lembrança ficou comigo. Portanto, para aqueles que desejarem conhecer seu único livro deixo aqui a maneira prática de conseguir um exemplar. Entrem em contato com a Editora Catavento, lá em Maceió, através do pombo eletrônico edicoescatavento@uol.com.br
Enquanto isto degustem esta preciosidade, um das suas últimas criações e, um dos que mais gosto:

QUERO DIZER HOJE TUDO ISTO QUE ESTÁ AÍ

Quero dizer que hoje,
As flores possuem inimigos,
Diferentes dos de antes: tímidos e distantes,
E adversos aos do futuro,
Pois a cotovia e o rouxinol de William,
Não abençoam mais os amores eternos e insofismáveis,
Porque eles já não mais existem,
E as graúnas que restaram contam-se nos dedos,
Porque Peri e Ceci não se contam nem deles.

Quero dizer que hoje
Os preás cotias teiús e rolinhas,
Não chegam mais nem para os caetés de Palmeira dos Índios,
Porque de ambos não sobrou quase nada,
E a guariba batida na pedra
É mais saborosa que a sardinha coqueiro,
Mas não cabe na lata,
E o corvo não mais agoura a personagem à meia noite,
(Ao pé de muita lauda antiga)
Porque Edgar morreu,
E os pombos do Teatro Deodoro
Cagam na cabeça das pessoas que se recostam nos portais
Como se fosse a última coisa fizessem,
Já que irão desaparecer.

Quero dizer que hoje,
Se a Branca de Neve fosse esconder-se na mata de São Miguel
A Rainha má, sem dúvida, sairia vencedora,
Pois, sem florestas, sem anõezinhos libidinosos
E um princípe otário,
Nunca aconteceria um bom conto de fadas,
E Brigitte Bardot só lembrou-se das focas e leões marinhos
Quando os peitos lhe caíram na barriga.
É por isso que os ratos não querem mais morar
Em Tel Aviv e Beirute,
A Pajuçara e a Ponta Verde são bem mais agradáveis,
E boa parte das pessoas adoram carne de gato.

Quero dizer que hoje,
Marte é um planeta muito feliz:
Desértico, imoral, nú,
Pois, absolutamente, ninguém pode viver
Arrodeado de palmeiras, coqueiros, mulungus,
Mesclas, catingueiras rasteiras, cedros, mognos,
Corações-de-negro, azeviches, jacarandás,
Capas-rosas, jatobás, babaçueiros, brincos-de-viúva, oitizeiros,
A impedirem a nossa caminhada para o ermo.
Para que tantas matas?
Folhas, paus, raízes, cascas, galhos?
A esconderem lacraus, escorpiões, cobras venenosas
De nomes tão furtivos e falsos,
Rainha, coral, papa-ovo, cipó-de-boi, d'água, verde
Langanhentas, peçonhentas
Caranguejeiras, tarântulas, viúvas-negras,
Coleópteros bisonhos, besouros, cavalos-do-cão, embola-bosta
Répteis calafrientos,
Sapos, jias, rãs, cururus-pei-pei, jacarés, crocodilhos.
Rios? O de Pessoa está cheiro de bosta,
O Paraíba do Sul é uma latrina,
E no Salgadinho as lavandeiras do Reginaldo
Enchem de merda os bolsos das nossas calças.
O Danúbio Azul é um rio negro, pardacento e fedorento a mijo.
(Ovos de Curimã, tainha e arabaiana são excelentes para tiragosto,
Caviar tem cheiro de coisa podre)
É preciso ter quiba para aguentar o canto do ferreiro
E o olhar raivoso do gavião;
Para que quero apitos ao pé do ouvido?
Milhares de pássaros (ainda bem que a metade já se foi);
Caga-sebos, papa-capins, cabloclinhos,
Andorinhas, nambus, urubus, abutres, águias,
Patativas, curiós, sabiás, rolas, anuns,
Marrecos, galinha-d'água, socós, cegonhas
Flamingos, bico-de-lacre, joões-de-barro, jaçanãs,
Uirapurus, albatrozes, pinguins,
Gaivotas? Chega de gaivotas e pelicanos!
Ninguém pode negar que o som do quartzo às seis
É bem mais agradável que o barulhos dos pardais.
E o meu chaveiro repete melhor que o papagaio
E o “bota mais baby” do digital laser,
Entra mais macio que o arrulhar das hamburguesas.

Quero dizer que hoje,
Que os pássaros, as árvores, os rios, os canais,
Lagoas, oceanos, leões, elefantes,
Zebras, girafas, hienas, tigres, onças, macacos,
Linces, anuns, morcegos, lontras,
E capivaras e tudo mais que representa
Esta comandita de canalha:
Que me deixem em paz.
Quero dizer ainda hoje que:
Ou desapareçam
Ou procurem outro lugar para morar!
Porque este mundo
É pequeno demais para nós dois.


domingo, 21 de março de 2010

A Cidade Desejada

Desejo uma cidade que me abrigue menino, uma cidade que, habitada por meus sonhos, seja repleta de jornadas e onde haja uma princesa guerreira, tão bela quanto belas são suas histórias.

Desejo uma cidade onde todo dia seja dia de gincana no parque, sob um céu sobrevoado de pipas.

Onde exista pomares e eu possa não escolher a fruta mas ser escolhido por ela.

Onde meus pés descalços possam acariciar o solo e minha cabeça e os meus braços sejam apropriados para flores.

Onde todo dia seja dia de cortejo e celebração nas suas ruas sinuosas, coloridas, arejadas e generosas como tardes de setembro.

Onde exista um chafariz, um rio e uma cachoeira despencando no coração da gente.

Onde a brisa venha acariciar minhas pálpebras relutantes com seus sussurros e palavras de gratidão.

Onde uma réstia nos acorde aquecendo nosso peito, nos incitando a um ahhhh dengoso de quem nasceu mais um dia.

Onde, todas as manhãs, de todas as casas, exale um cheiro de pão fresco e o perfume de alecrim seja como um hino a nos fazer levantar depressa para vê-las.

Onde possa correr para a escola e ser saudado, na ida e na volta, por lindas donzelas que emolduram sacadas e janelas recendendo tinta fresca.

Onde nossos passeios sejam saudados por alvos lençóis e risadas, onde chistes inocentes, engraçados e carinhosos nos dêm a segurança de estarmos em casa, nossa casa.

Onde as canções sejam ouvidas no vento e a cada instante ele nos entre pelos poros afagando nossa alma.

Onde homens e mulheres celebrem juntos a chegada de cada estação enquanto as crianças brincam de imitá-los sem deixarem, jamais, de ser crianças.

Onde não existam cemitérios, hospícios, igrejas ou casas de detenção, antes uma pequena capela com uma pira sempre acesa; uma casa de repouso; e um internato onde seja possível aprender qualquer ofício.

Onde os funerais sejam festas pois é um espetáculo ver os corpos desfazerem-se em pétalas para serem carregadas pelo vento em direção aos céus.

Onde a gente cresça, viva e morra, para deixar gravado num seixo à beira da estrada que nos leva a outras cidades, tão bonitas quanto a nossa, um nome como lembrança.

Desejo uma cidade onde não haja velhos nem doentes nem mendigos pois que todos são crianças sinceras e solidárias, brincando de felicidade.

Desejo uma cidade onde os maus, os perversos, os cruéis, os mandões, simplesmente nunca foram inventados por pura desnecessidade.

Onde pais e mães não sejam pais nem mães mas irmãos mais velhos, melhores amigos.

Onde à noitinha, nos vistamos de estrelas e as contemos, as nomeemos e as povoemos , uma a uma, sem medo de que nos nasçam verrugas nas pontas do dedos, pois não alimentamos surperstições.

Onde sejamos visitados por parentes distantes apenas porque parentes distantes têm que vez por outra se visitarem para colocar a conversa em dia e apresentar os primos às primas.

Onde haja um só cinema, um só teatro, um só planetário, um só aquário, um só museu, uma só biblioteca, mas que dentro deles haja todas as cidades do mundo.

Onde se possa ir e vir pelos bosques e todos os atalhos são conhecidos porque todos eles possuem um rito de iniciação e um arauto disposto e pronto a conduzí-lo.

Onde a nossa mitologia seja a mitologia da cidade e as duas se habitem como amantes que se amam de verdade.

Desejo uma cidade onde eu possa fazer de conta que sou mágico e possua o poder de, todo dia, recriá-la pois a cidade que desejo não se fixa na paisagem a atrapalhar o trânsito das nossas meninices.




quarta-feira, 17 de março de 2010

Trivial

Gente,
Mauri cresceu! Virou artista. E macho. Daqueles que possuem uma puta sensibilidade.
Seus traços e as imagens que brotam dos seus mágicos dedos dão prova de que os meus 50% de DNA foram devidamente domados, para o bem e a beleza humana.
Filhão, meu mouro, te amo de paixão.



Canção: Vinicius Calderoni
Direção e Produção: Daniel Tonacci
Desenhos e Animação: Maurício Nunes


terça-feira, 16 de março de 2010

A Verdade Dói

Dizer que a verdade dói é chover no molhado. Jim Carrey em O Mentiroso colocou em imagens este vetusto e proverbial adágio, para ilustrar os impasses surgidos na tentativa de conciliar inconciliáveis interesses. Talvez por isso a verdade sobreviva numa espécie de burca. E ela não é justa. Se fosse teria que ter a parte dos olhos também vedada, tal qual o ícone que a representa. A verdade para ser justa teria que ser também cega. Mas como em terra de cego quem é caolho reina, tome séculos de filosofia na tentativa de sair deste embaraço. Para mim, não vejo nenhum problema nisto. É só não falar a verdade e pronto. Esquece. Tudo que dê trabalho, queime neurônios, demande tempo e esforço para desensacar pode ter certeza que vai chegar tarde demais na hora da precisão. A mentira sempre evita os obstáculos e, quando se pensa que não, ela já pegou um atalho e apresentou-se lépida e fagueira na linha de chegada. E sob várias denominações: conjetura, opinião, indício, hipótese, suposição, especulação, sondagem, ponderação, estudo de tendências... Descansem, não vou alfinetar ninguém, principalmente aqueles profissionais que, por ossos de seus ofícios, a exercem contumaz e peremptoriamente. Longe de mim mexer naquilo que dá certo.

Penso que a maioria dos advérbios é mentiroso, exibem o sufixo mente como que para nos convencer de que, estando conscientes de que sua expressão é falsa, logo e portanto são verdadeiros. Firula de gramáticos. E os adjetivos? Qual adjetivo expressa a verdade que você quer dizer e que permita uma aproximação e consequente conquista daquela gata linda de morrer que você topou outro dia naquela cerimônia de casamento onde os noivos juraram de pés juntos, diante do altíssimo, que só a morte há de separá-los? Quantos e quantos versos não foram derramados no leito da mulher amada na tentativa de deter o tempo e a inexorável verdade do amor eterno e para sempre? Qual o médico não se torce todo quando tem que contar ao paciente terminal que o fim está logo ali dobrando a esquina? O negócio é dourar a pírula e inventar uma saída à francesa para não provocar mais distúrbios no combalido organismo do cliente.

A mentira é a grande sacada da humanidade para aqueles momentos de aperreio que desemboca em constrangimento. E como a gente quer se ver livres desses dois, a mentira institucionalizou-se tal qual piscina de bolas em festinha de criança. E a gente aprende a manha ainda nos cueiros. Quem nunca, quando criança, logo após receber aquele brinquedo bacana, caro, que algum parente comprou e trouxe na maior empolgação e, daí a dois minutos mexendo, futuca daqui futuca dali, deixamos o coitado em petição de miséria, prontinho para engrossar o lixo e, na maior cara de pau, na maior da inocências, apresentávamos a bagaça dizendo: ó, quebrou-se! Quantas e quantas vezes você não abraçou e beijou efusivamente aquela tia aposentada do Banco do Brasil que nunca se esquece de te presentar com cuecas, meias e/ou lenços no dia do teu aniversário, tu que nunca usa cuecas, adora andar de sandálias e está fazendo das tripas coração para encontrar um jeito de comprar um computador memorudo e ligeiro.

Quantas e quantas vezes você não disse que o culpado é o espelho, naquelas horas nas quais a tua mulher te pergunta se você acha que ela está ficando gorda? Quantas e quantas vezes você não se flagrou, numa roda de amigos, após ouvir façanhas e aventuras, naquela emulação de dá dó e te ocorre que talvez também possas ser deveras um cavaleiro andante e ardente e se pega arriscando, a título de ensaio, uma ou duas patranhazinhas peraltas, só para não ficar por fora da conversa e quem sabe ganhar uns pontinhos no conceito de dois ou três, justamente aqueles que, como diz o poeta, vivem isentos de ridículo. Algumas podem até darem certo e fazer a turma rir, aplaudir, se espantar, se comover com as tuas ingênuas estripulias. Porém, outras (cuidado, que o negócio dá gosto e você vai criar asas e vai querer voar cada vez mais alto) irão causar certo desconforto porque você vai ter que explicar alguns detalhes e nada pior para uma mentira do que a gente ficar se preocupando com detalhes que só atrapalham, embaraçam e podem até detonar uma boa e bem elaborada farsa.

Outro dia descobri que o aludido exercício tem nome: técnica de improvisação. Bati às portas da Escola de Arte Dramática para conhecer um pouco mais da coisa. Acabei por encontrar um trem chamado “se” e aí, reforçado por esta tecnologia testada e aprovada pelos melhores laboratórios do mundo, resolvi ganhar a praça de vez. Antes, mentia quase e apenas por absoluta necessidade. Vocês sabem como é, pobre com mania de grandeza não titubeia em inventar genealogia, armas e brasões assinalados. Pois é, todo mentiroso é um mestre do “se”. E “se” fosse comigo? E “se” eu perdesse tudo? E “se” a fonte secar? E “se” a vaca for pro brejo? Vergonha ninguém tem nem quer passar por ela, antes exige-se dos outros que a tome na cara. A porca torce o rabo quando, de “se” em “se” a mentira vai ganhando corpo, forma, volume, densidade, concretude e quando a gente pensa que não, vira fato e deságua no noticiário. Se o “se” cai na mídia, é bom colocar as barbas de molho. Vira tese, vira antítese, vira síntese direto para a boca do povo e, talqualmente todo mundo sabe, a voz do povo é a voz de deus... Cabou! E aí surge a mais dolorida verdade: uma mentira quando sustentada por muitos, acaba mais dia menos dia, se tornando uma efervescente verdade. E para mantê-la nessa condição mais e mais mentiras vão sendo forjadas, porque as versões são muitas e variadas e nós, para nossa própria desgraça, estamos sempre procurando cabelo em cabeça de prego.

É por estas e outras que afirmo, ancorado na minha modesta e humilde vivência nos quesitos sofísticos, rocambolescos, quixotescos e munchausenianos, ter uma profunda admiração por meus amigos pescadores e causoeiros de ilibada fé, mesmo quando aquilo que eles narram é a expressão mais sincera e sublime desta raridade tão perseguida e injustiçada: a verdade. Coisa que, devido a minha acentuada e progressiva miopia, ando enxergando cada vez mais borrada.


domingo, 14 de março de 2010

Den Chou Masti Gol On

No longínquo, ensolarado e verdejante Oásis da Tranquilidade, o austero, extravagante e ufanista Tavinho Cobra Criada, no porão do seu palácio, produz em ritmo frenético (em seu notibuque de última geração, presente do Felópio Trajano, atual monarca da ilha artificial de Dibujiti, condado de Beija, na Alta Mesopotâmia Bizantina), gráficos 3D de tendências mercadológicas, painéis gigantescos de poses atléticas e viçosas naturezas mortas, embalado ao som de folclóricas árias medievas, mixadas pelo topi da vanguarda discojoquista atual, sir Miro Talagada.

Balela, a cozinheira vesga e taquígrafa nas horas escusas, adentra ao recinto trazendo numa baixela de prata duzias de passocas, lanche predileto do monarca à hora do brequifesti. Tal qual uma matraca, do tipo biela solta, enumera os precalços cotidianos a que se vê submetida todos os dias em que tem que se dirigir ao burgo para afazeres triviais e mundanos. O preço do amendoim aumentou mais uma vez, a carne seca anda em falta no mercado e a dívida palaciana com os vendeiros, nestes últimos três meses, pulou de dez para mil, sem que novos papéis fossem emitidos para corrigir tal distorção. Exasperado, o discipulo de Gauguin, recorda que a exemplo do que foi feito em benefício dos fornecedores de rolhas, vai emitir proclamação autorizando novas concessões de lotes de florestas virgens, terrestres e marítimas que, abençoadamente, cercam o vasto continente sob seus domínios, para serem exploradas, por quem os queira, por cem anos, revogáveis por mais cem, já que a Natureza, neste último semestre, tem sido pródiga em se auto renovar por conta própria.

Burocrácio Cancela, secretário particular, guarda costas e Phd em merchandaize, interrompe os pensamentos reais com a correspondência do dia, panfletos de lojas varejistas com as mais novas e imperdíveis promoções, além de dois ou três recortes de jornais de bairros com critícas veladamente desfavoráveis à arte de bem conduzir os negócios da china praticada pelo chefe. Áspero, emite ordens para que sejam redigidas e enviadas longas cartas explosivas a estes malagradecidos e que sejam canceladas as verbas propagadísticas para todo e qualquer pasquim que se atreva a propagar em alto e bom som que existe a mais remota suspeita de que a vaca está indo, resoluta e altaneira, para o brejo.

Porém nem tudo está perdido, assevera a enorbilíssima mordoma, ao lembrar que, para gozar é preciso relaxar. Detalha amiúde os preparativos para a festa de comemoração dos trinta e cinco anos de mandato e sessenta de oito de vida da insigne majestade e garante que será a mais exuberante de todos os tempos. Presidentes e plenipotenciários das províncias adjacentes e do além mar foram convidados e setenta e seis ponto oito por cento já confirmaram presença com margem de erro de dois ponto três, para cima ou para baixo. A grande surpresa programada será a repartição do colossal bolo confeccionado sob os auspícios de Populus, o maior confeiteiro da paróquia, trazido especialmente de Xaréu do Sul para tão delicada missão. Desta vez, todo e qualquer ser vivente na Ilha receberá um pedaço generoso do suculento bolo mais um pacote de meio quilo de jujubas, de cores variadas, para que possam se distrair durante os intermináveis e justos discursos dos inúmeros inscritos na solenidade de saudação ao lider. Uma tropa, devidamente treinada nos isteites e nas ruínas da Velha Tróia, fará a tradicional exibição de pipas, espetáculo que conseguiu, graças aos esforços de eminentes compadres, ser declarado, ontem à tardinha, patrimônio artístico da humanidade pela Liga das Nações Amigas, Adjuntas e Acerbas.

O peito largo tão amado se infla e sugere que talvez seja uma boa ideia programarem uma exposição dos seus trabalhos em tela. Alcançou a marca de nada menos que seis quadros, no último trimestre. É chegada a hora, brada, do mundo conhecer um pouco mais deste seu lado tão meticulosamente trabalhado nas horas vagas desde que deixou de frequentar o bar do Quinca toda quarta à noite. Quem sabe não apareça olheiro dalguma galeria européia e aí talvez, mexendo-se os pauzinhos certos, possa figurar numa ala reservada do Museu do Louvre, do Prado, do Vaticano ou até no da Madame Tussauds. Ah, que não esqueçam de distribuir entre o populacho, gratuitamente, chapéus de feltro, óculos de sol e reloginhos digitais com estampa de pandas, importados da Mongólia em troca de algumas toneladazinha de carvão e suco de beterraba enviados mês passado.

Certos de que, com firmeza e determinação, sendo as decisões certas tomadas, o resto é só aguardar por novas novidades que, roguemos ao divino, não nos pegue nunca de calças curtas. Então, mãos à obra, conclama o atarefado e criativo regente no instante mesmo em que acaba de ser invadido, de alto a baixo, por nova inspiração para mais uma tela pitoresca.

Com pompa e circunstância e, sobretudo, o máximo de sigilo possível para não atrair olhares curiosos, dá-se início à confecção do momumental bolo que, aguarda-se, alimentará toda a população da Ilha mais os milhares de convidados ansiosamente esperados para a festa magna.

Noite alta, céu risonho, bolo descansando no elefântico e imaculado cofre de trava eletrônica devidamente criptografada, sem que se saiba como, quem, onde, quando e porque, um teco da guloseima é, sorrateiramente arrancado. Fato este descoberto na madrugada, durante a programada ronda do comandante em chefe da guarda pessoal e intransferível que, sedento, deu uma passadinha na cozinha para molhar a goela.

Calamidade nacional. Estado de sítio decretado; forças armadas em alerta vermelho escarlate; todas as fronteiras fechadas com muros de arrimo; comunicados lacônicos, em código cifrados, foram enviados a todas as embaixadas tirando o executivo da reta, além da moratória de todos os compromissos internos e externos. Medidas estas tomadas um pouco antes do galo anunciar a aurora que, naquele fatidíco dia, veio um pouco mais cedo como para certificar-se de que tal ultraje houvera sido deveras cometido contra a mais sagrada das instituições de tão provecta República.

Juizes reuniram-se, ainda de pijamas, para redigir súmulas e acordãos baseados em circunstâncias e fatos passados, presentes e futuros, tudo dentro da mais alta observância das normas jurídicas nacionais e internacionais, visando a boa ordenação dos códigos e o cristalino entendimento que daí em diante, espera-se, seja aplicado por todas as instâncias decisórias no âmbito e corredores do judiciário. Aproveitando o intervalo para o cafezinho, todos os togados, aprovaram a instituição de mais uma Corte, para que a justiça possa ganhar eficiência, rapidez e, sobretudo, agilidade no processamento sumário de todas as demandas a ela submetidas.

O Parlamento, em sessão extraordinária e altamente conturbada, aprovou, após exaustivas consultas às bases e a todas as lideranças partidárias constituídas na base de apoio às reformas profundas em pról da governabilidade, em carater de urgência, noventa e seis ponto dezenove por cento de aumento nos seus próprios salários, sob alegação unânime de que com a crise de pânico instalada naquela casa, a confraria dos psiquiatras e psicologos, em face à demanda, iriam solicitar reajuste imediato das consultas e que, em vista disto, deveriam eles, os parlamentares, estarem sobejamente forrados e prevenidos para mais esta facada típica desses profissionais sobejamente sabido não possuírem qualquer tipo de espírito cívico.

A polícia científica, devidamente assistida por abalizados, experientes e exímos agentes das melhores polícias do mundo atual e contemporâneo que, num gesto de grandiosa solidariedade colocaram à disposição dos investigadores nativos todos os recursos tecnólogicos ao alcance da mão e do bolso do carrancudo gerente do tesouro nacional que, premido pelas circunstâncias, decidiu, abrir as torneiras e fazer jorrar todo tipo de moeda disponível no mercado, afinal era a própria sobrevivência do regime que estava em jogo, conclamou, em linha direta e particular, à Casa da Moeda o primeiro mandatário. De posse de todas as traquitanas possíveis e imagináveis, pistas foram levantadas, indicios sondados, suspeitos interrogados, prisões efetuadas e, ao cabo de várias horas de labuta encheu-se páginas e páginas de prosa, causos e piadas de salão com leve toque picaresco. Tal inusitada peça, demonstrativa da capacidade poética dos ávidos e vigilantes arautos da liberdade de expressão teve que ser devidamente revisada pela Academia de Letras, afinal aprovada estava a Nova Ortografia da Língua Ilhéu e tudo tinha que sair de acordo e nos conformes gramáticos circulantes. Às nove horas em ponto, o delegado chefe do comando superior investigativo, deu entrada no Ministério Público com os trezentos volumes, ricamente encardenados. O dalilografo-assistente nível II os recebeu cerimoniosamente e, com gesto magnânimamente teatral, carimbou o tiqueti do estacionamento.

Após demoradas e dinâmicas leituras, além de centenas de exames e testes grafológicos e fonopsicoaudiométricos, por parte de peritos contratados sem licitação mas amparados por decreto extraordinário de longa data, dado o caráter de urgência urgentíssima que sustenta tais exceções, constatou-se, que a peça processual não apresentava nenhuma prova concreta e palpável na qual pudesse se basear para, metódica e impiricamente, afirmar quem tinha cometido tamanho desatino contra o coração e a alma da Pátria.

Luto geral. A Liga Ecumênica de Mulheres Acima dos Trinta promoveu uma animada procissão de desagravo pelas ruas das principais cidades, o que acabou por promover a elevação do preço das velas e dos lencinhos de papel umedecidos. Alguns pontos percentuais foram acrescentados à domada mais preocupante inflação e uma ligeira valorização da moeda local em detrimento do dólar contribuiu para que as importações aumentassem e as exportações chegassem ao nível crítico mais baixo.

Avizinhava-se um cenário de terror e devastação, ainda mais quando era anunciada mais uma frente fria, seguida de fortes pancadas de chuva, vinda do Nordeste. Os argentinos não estavam ajudando em nada, muito pelo contrário mas, em compensação, a ajuda chegou em forma de centenas de milhares de abanadores de plástico com o logotipo de próspera indústria farmacêutica multinacional desejosa de homenagear o próximo campeonato de pandorgas e, de quebra, divulgar uma aspirinazinha bem baratinha que já está disponível no mercado e nas melhores lojas do ramo de todo o país, testada e aprovada no combate à gripe mexicana que insiste em pular todas as cercas de contenção.

Desanimado e cheio de culpa por não ter considerado um apigreidi na segurança palaciana, Tavinho Boa Boca, resolveu fazer um pronunciamento em cadeia nacional, transmitido que foi para os quatro cantos do mundo moderno e civilizado. Após um ligeiro prologo recheado de chistes humorísticos, reconheceu publicamente que:
a) Isto pode acontecer nas melhores famílias, a vida é uma caixinha de surpresas, já dizia o poeta, disse ele, e que foram os dedos mas ficaram os anéis;
b) Que a hora era de união em torno da sua reeleição, programada para daqui a seis e, desde já, contavam com o voto de todos os ouvintes, videntes e, principalmente, de todos os seus parentes e aderentes.
c) Que jurava ali, para todo mundo ver, de pés juntos e braços abertos, que os culpados por tão insidiosa afronta seriam punidos exemplar e severamente na forma da lei - aguardassem para ver! E que, ao contrário do que certos bufantes empesteadores do nosso azul dulcíssimo ar, por aqui não haveria retrocessos, marcha rés, passo atrás ou ciranda cirandinha por mais que apostassem nelas os especuladores da bolsa alheia.
d) Fazia questão de deixar bem claro que a sua administração, sob a sua batuta, estava fazendo de um tudo para que o próximo campeonato mundial de cafifas, programado para daqui a quatro anos - qual toda a Ilha vem contando para sair definitivamente do buraco e adentrar finalmente ao andar de cima - entrasse para a história como o maior feito que uma nação moderna já perpetrou por estes e outros cantos desta Terra tão carente de novas perspectivas e alternativas que nos livre da herança maldita do passado de tão recente memória.

Aplaudido e ovacionado pela claque durante exatos quinze minutos, solicitou, encarecidamente, que tudo mundo fosse para suas casas, cuidar de suas vidas no recesso de seus lares privados, porque amanhã é dia de branco e não se fala mais nisso. Den chou masti gol on e quem vive de passado é museu!



quinta-feira, 11 de março de 2010

Inteligência Coletiva

Nestes tempos tão bicudos, quando atendo ao telefone vou logo fazendo voz de barítono, voz de peito, sentida, daquelas bem cavernosas, oriunda das profundezas das entranhas, como ensinava a inesquecível professora de dicção, Milene Pacheco, nos idos, fugidos e serelepes tempos de EAD. E se me vêm com o invasivo “com quem estou falando” logo de cara – dez em dez cometem, devolvo na mesma moeda: “deseja falar com quem”? Não me permito ser gentil com quem me trata como imbecil. Esse povo do telemarketing não aprende. Os profissionais (?) que viscejam nestes antros de cretinice ainda não sacaram que quando se liga para a casa de alguém, o mínimo que a gente espera é que se identifiquem primeiro, apresentem suas credenciais, questionem se temos disposição e tempo para suas patranhadas e só então, apresentem o negócio. Esta turma, imagino, acredita que estamos ali, sentados no sofá, aguardando, ansiosos, a ligação deles com a oferta imperdível do produto indispensável pelo qual estivemos sonhando toda a nossa vida. É assinatura de jornal, revista, seguro, empréstimo, pacote disto, pacote daquilo, os cambau.

Quase todo santo dia, às vezes onze horas da noite, deram para me azucrinar com uma gravação. A gente fica no “alô, Alô, ALÔ” e nada, nada de ninguém dizer nada, só quando estamos prontos para desligar, entra uma voz gravada anunciando descontos em ligações interrurbanas. Parece tortura. Será que não existe vida inteligente neste planeta? Somos vistos como uma massa de brocóios, sem eira nem beira, nos quais se pode despejar todo tipo de excrecências físicas e metafísicas, em nome do deus mercado, este sim o único que, nas suas vazias cabeças, merece permanecer livre para engendrar e produzir todo tipo de lixo e inutilidade.

Indagorinha tocou o telefone. Era um sujeito dizendo que tinha uma revista bíblica que desejava me entregar e que para tanto precisava do meu endereço. Disse a ele que a minha preferência atual era pelos escritos de Alan Kardec, que se tivesse algum para me ofertar o receberia com prazer. Nada como pedir ajuda do além quando se quer se ver livre de um encosto.

Receberia de bom grado, um telefonena de uma livraria, por exemplo, me convidando para assistir uma contação de hitórias ou a um sarau, ou simplesmente para uma visita sem compromisso à sua loja e, baseado, no meu perfil de leitura, aproveita para me avisar que tal e qual livro daquele fulano que tem uma escrita ou temática próxima daquele outro que comprei no mês passado, está com um desconto razoável. Ou do bar que recebeu um lote de uma cerveja artesanal e me convida para uma noite de degustação e bate papo, com a presença de duas ou três figuras encantadas da nossa emergente raça de impertinentes, verdadeiros arautos e guardiões dos bons costumes.

Negócio não se faz com negócio, negócio se faz com graça. Em tudo tem que ter um pouco de sedução, preliminares e coisa e tal. Não este desfile de mostruosidades que agem como falsas ciganas, nos espremendo, em bandos, contra um muro, insistindo que nem guengas xumbregentas, para que aceitemos suas mercadorias. Isto é assédio. Isto é assalto. E não adianta vir com disfarce.

Outro dia, recebi uma ligação de uma moça, que foi logo perguntando por um tal Eduardo não-sei-das-quantas. Para não parecer grosso, disse que, no ponto do universo no qual me encontrava tal pessoa não existia, sob pena de violar uma lei básica da Física. Ela insistiu: por um acaso, o senhor, não sabe como faço para falar com ele? Mas que sacripanta. Quem ela pensa que é? Uma antiga e saudosa namorada? Diante da minha completa ausência de conhecimento e interesse sobre o paradeiro do tal Duda, continuou, seguindo o adágio: “já que não tem tu, vai tu mesmo”. E, sem que eu pudesse me mexer, foi logo oferecendo uma degustação, pelo prazo de trinta dias, do Estadão. Aí eu afrouxei. Deixei a coisa rolar, decidi relaxar e gozar, afinal estava passando por um estupro moral, melhor não resistir, como aconselha Maluf. Claro que eu poderia ter desligado mas, com certeza, no próximo quarto de hora, ela ou outra me ligaria novamente. Sei como é, eles ficam putos quando você desliga na cara deles e, só de sacanagem, decidem pegar no seu pé, e aí sai de perto, porque vão te ligar a cada meia hora, quando não para te xingarem do tudo quanto é nome feio e ainda te ameaçar de morte na próxima esquina, afinal aquele é o ganha pão deles e que estão trabalhando e não roubando e que merecem respeito e vai por aí afora. O chato só te deixa em paz quando você o trata como um ser dotado de inteligencia, aí ele se encolhe todo e vai curtir seu embaraço murchinho, murchinho. Voltando à menina: como se estivesse me entregando o mais raro dos presentes, disse que a promoção consistia num experimento, no qual, após minha livre e espontânea avaliação, poderia, a minha pessoa, atribuir um valor, um valor considerado justo por uma assinatura anual.

Pensa cá comigo, e se eu decidir pagar zero, será que os Mesquitas aceitariam? Sim, porque zero também é valor, o valor que lhes atribuo, cambada de mequetrefes, fomentadores de intriga, espalhadores de boatos, jogadores de verde, plantadores de casca de banana na calçada...!

Que venha um novo sistema de banda larga que é prá eu ver livre também da Globo. Da Folha e da Veja já me livrei. Não olho nem as manchetes nas raras vezes que vou até uma banca de jornal. Se quero notícias e comentários sobre a vida política, cultural e comercial, desta e outras partes do mundo, vou direto à fonte (possuo computador para que?), ao encontro de uma multidão de gente, pessoas, que dizem o que pensam e o que desejam para o presente e o futuro. Esta Ágora, a praça tão bendita por Castro Alves, é o meu lugar de repouso, sanidade e reflexão. Do que preciso mais?

Como diria o Antonio Celso, no blog Impertinências (papo safo e supimpa): Inteligência Coletiva, meus brodis, Coletiva! A verdadeira Universidade a custo zero mais bem pago do mundo. É claro que no meio disto há os principes nigerianos, a turma neopedófila travestida de cordeiros interetários, os avatares, as “colheitas felizes” da vida institucionalizando o roubo, os líricos pueris, moçoilas e rapagazes catarrentos... Mas aí são outros quinhentos que não vêm ao caso agora.

domingo, 7 de março de 2010

A Tal Sincronicidade

Abelardo Mariano era um sujeitinho barrigudo e xexelento que costumava sair pelas esquinas alardeando grandeza pelo simples fato de um dia, lá pelos idos dos 60, ter apertado a mão do filólogo Jânio Quadros, então candidato a presidente da república, em campanha na hoje quase extinta Vitória da Conquista, numa tarde enquanto folgava na Confeitaria Gato Preto, na Praça XV de Novembro, descansando seus doloridos pés de mais um dia de andanças e contradanças na qualidade caixeiro viajante da Matos & Cairo, grande distribuidora nordestina de artigos para armarinhos, papelaria e conveniências domésticas.

Digo era, porque o nosso Abelardo tomou jeito, fez uma dieta, parou de fumar, de beber, mudou de emprego, de profissão, arrumou outra mulher, novas crenças e hoje mora num pedacinho de chão, lá prás bandas de Jacareí, comprado em 72 prestações, quitadas religiosa e regularmente com a ajuda da neopatroa, que diga-se de passagem, em comparação com a falecida, é um verdadeiro pitéu de pessoa. O sítio do Abelardo tem um quê de “eu-quero-uma-casa-no-campo” com cerquinha branca e coisa e tal. Dá gosto ver sua plantação de hortaliças, tubérculos, e dá mais gosto ainda ver sua criação de galinhas (Lembrei do Jeca Tatu de Lobato, nas páginas do Almanaque do Biotonico Fontoura, com suas galinhas e porcos todos calçados de botina, mas isto não vem ao caso). Faz um sucesso danado, por aquelas bandas e adjacências, o seu queijo de leite de cabra, sem falar nos seus licores e geléias de frutas e de flores e do incomparável pão de gergelim – iguaria de fazer a gente lamber o beiços de tão gostoso que é. Comprou um bicicleta de segunda mão, deu um trato na magrela, botou bagageiro, buzina e toca-fitas e pode ser visto pedalando, todo começo de manhã, com o cabelo ao vento (não estranhem, ele ainda tem cabelo e muito) pela pacata e progressista cidade, a entregar os seus produtos ecologicamente corretos, em lares e casas de comércio. Meio dia está de volta e aí haja rede e perfumes de flores vindo do jardim criado e cuidado por ele com um zelo digno de monge budista

Mas até chegar aí, Abelardo passou poucas e boas, pode-se dizer que comeu o pão que o demo amassou. Não que tivesse cometido algum crime hediondo ou que tivesse sido citado em algum processo cabeludo ou quem sabe sido vítima de algum despacho lançado numa encruzilhada a pedido de algum desafeto, nada disso, as poucas e boas pelas quais o Abelardo passou foi provocado por sua própria cabeça, mais precisamente por seu próprio modo de pensar. Um dia, não sei porque cargas d'água, fez um inocente comentário vingativo sobre alguém e a pessoa veio a falecer alguns dias depois. Abelardo embatucou. Deu uma geral na memória e viu que não era a primeira vez que provocava cataclismos. Janio havia renunciado, constatou. E recordou do dia e hora em que apertou, calorosamente, a mão do homem da vassoura e enxergou naqueles olhos, protegidos por óculos de grossa armação, uma certa dor despertada, um estalo, tipo quando a gente pressente que o céu está prestes a cair sobre as nossas cabeças. Daí para achar que tinha o poder de vida e morte sobre as pessoas foi um pulo. Seria mesmo? Tinha realmente aquele poder? Precisava, deus lhe perdõe, testar essa estranha capacidade. Só assim poderia, metodica e cientificamente, comprovar se, de fato, era possuidor de alguma especie de energia capaz de mudar o rumo das coisas. E partiu para encontrar a cobaia adequada para o seu jogo. Não foi dificil.

O chefe da regional leste da distribuidora estava de passagem pela cidade para averiguações e conferências. Abelardo que tinha por ele um nojento apreço, decidiu juntar o útil ao agradável. O homem não era lá muito bom do coração e vivia reclamando que sentia o seu fim se aproximando. Agia como se fosse uma caixinha de lamúrias e desaprovações, sempre de mau humor, dando tapinhas hipócritas no pobre, que continuava batendo, meio descompassado é verdade, mas ainda dando tempo e folga para que o maledeto continuasse pisando no cangote de todo mundo lá na firma. Abelardo pensou que poderia prestar um grande favor à humanidade se tal estrupício se mudasse para a terra dos pés juntos e, numa tarde, quando estavam fechando o balanço da semana, num gesto rápido e preciso, a pretexto de fazer graça com o coração do guengo, tocou-lhe nas caixas do peitos com a ponta do dedo indicador. O superior achou pouca graça e fechou a cara apesar do bajulatório abelardeano, que procurou disfarçar ao máximo sua verdadeira intenção. Três semanas depois veio a fatídica notícia: doutor Miguel Sacadura bateu com as botas, vítima de um infarto do coração, bem em frente ao Mercado Modelo, enquanto assistia à uma roda de capoeira soteropolitana e degustava, sofregamente, um suculento e afrodisíaco abará.

Podem imaginar como Abelardo se sentiu? Pois é, provada a sua tese, descabelou-se em desespero. Passou a usar luvas grossas e a nunca mais olhou nos olhos de ninguém, tampouco se atreveu a fazer qualquer comentário a respeito de nadica de nada, fosse sobre quem fosse, com um medo pavoroso de provocar uma catástrofe no curso da história. E se viessem a descobrir que era ele o culpado de tantas mortes e desastres, naturais e artificais, que vinham acontecendo pelo mundo e se alastrando como uma onda indicadora dos finais dos tempos? Passou a desconfiar que até o seu pensamento podia romper as linhas do destino e foi aí que, após esta epifânica e matemática constatação, decidiu isolar-se de tudo e de todos. Pediu as contas e sumiu no oco do mundo sem deixar um bilhete ou uma pista siquer. Sua peregrinação o levou a diversos lugares dito santos, na esperança de purgar-se e obter livramento de tão demoníaco poder. Passou pela India, pela Grécia, Montes Atos, Portugal, Espanha, São Luiz do Paraitinga, Cajamar, Aparecida do Norte, Ceilândia, São Tomé das Letras, Corumbá e Mossoró, até que numa dessas curvas e diagonais que o mundo faz, foi parar num piquenique que uma comunidade neo-ripe-pentecostal-do-reino-da-paz-now-e-agora realizava no Sesc Itaquera, na zona leste da capital paulista, e quando pensou que não, num ritual de franqueza abriu seu coração e soltou todo o verbo aprisionado nesses anos todos de medo, fuga, desesperança, busca e procura. A turma o fez sentir-se em casa, cada um (e eram muitos, uns treze, catorze no máximo) com uma história mais escabrosa para contar, porém imbuídos de uma única certeza a motivá-los nessa jornada de incertezas e caos, a de que só o amor constrói. Abelardo foi às lágrimas quando, um a um, se achegaram a ele e pediram, encarecida e alegremente, que lhes tocasse a testa, pois se tinha adquirido a consciência do seu poder de matar era chegada a hora de revertê-lo e transformá-lo num toque de vida, afinal para todo e qualquer mortal sempre é chegada a hora exata da ressurreição. É isso, é isso, Abelardo disse, porque não pensei nisto antes? E, não só tocou as frontes como abraçou-se com os seus novos pares num amplexo cósmico de redenção e retorno a tudo que há de bom e de positivo neste mundo. Aproveitou a onda e mandou ver um grande e cinematógrafico beijo na boca da santinha que hoje vive com ele e com quem acabou se casando de papel passado e tudo. Esta moça, experimentada e esperta que é nas artes bruxísticas, cabalísticas e sensuais, virou e mexeu meio mundo até encontrar as ervas e os encantamentos que propiciaram o expurgo do velho e o nascimento do novo Aberlardo. Evoé, Baco!

Só de fuleiragem, no último encontro que tive com ele, falei do raiva que me havia provocado o quase eterno ministro genérico da saúde e atual governador ausente, responsável pela sanção da fascista lei antifumo no estado. E sem nenhum pudor, confessei que, várias vezes, disse em alto e em bom som para quem quisesse ouvir, que o do Serra estava guardado. Abelardo me fuzilou com aqueles dois olhos em brasa de veterano em altas sapiências esótericas deixando-me avec une puce à l'oreille. Será que aquele tal poder nascia agora em mim? Fiz, ali mesmo, um rápido apanhado na memória e lembrei que em 1983, na única vez em que fui entrevistado por um canal de televisão, o repórter me pediu que dissesse, em pleno Viaduto do Chá, quem, na minha opinião, deveria ser o indicado por Franco Montoro para ocupar a prefeitura da cidade de São Paulo. De bate pronto, tascei Mario Covas e, para minha surpresa, alguns dias depois o homem estava empossado. Embora Abelardo tenha me assegurado que tudo isto é bobagem, é pura e mera coincidência, que eu devia limpar a alma destas bestagens, não pude deixar de ficar bastante e sentidamente preocupado. Sim, porque o sujeito está mal nas pesquisas, sua curva de tendência só tem declinado e, se as coisas continuarem no pé em que estão, com o Aécio dizendo não vou, não vou e pronto, inda mais agora que as Gerais inteira, em ovação, proclamaram seu voto, é quase certo que só lhe sobrará o janístico recurso antes mesmo de ter sido.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Carta ao Clero

Ao meu guia e amigo, Potentoso Cardeal Zatonio Laud.

Salve, salve, digníssimo primaz da Igreja Alfrediana Davoltense de Calçado e adjacências, mecenas resoluto e assíduo, patrocinador oficial e vitalício da Irmandade Itabiriana de Aproximação entre os Povos de todas as Raças, Sexos, Credos, Paixões Etílicas, Futebolísticas e Anexos, salve!

Antes de mais nada, deo gratia. A providência foi generosa em atender minhas inúmeras, incansáveis e recorrentes preces. Finalmente encontrei o bispo a quem posso me queixar.

Venho perante os olhos e coração de tão profíqua Eminência, na esperança de que, a vossa mente, purificada nos páramos da sublimidade, possa promover e derramar, sobre nós, pobres mortais, uma nesga da cintilante luz que aclara e elucida as mais cavilosas e inextricáveis questões.

Para tanto, passo a expor, nestas mal traçadas linhas, um pequeno exemplo da fuleiragem humana porém, monumentosa patada nos mais sagrados princípios norteadores da jornada épica e, porque não dizer, civilizatória da humanidade em busca de melhores dias, onde nos vejamos, finalmente, livres das frases de duplos sentidos.

Data Venia, trata de algo um tanto escabroso, fedegoso, sideral e esotérico, algo assaz perturbador que, para o meu desespero e desassossego, nos últimos dias, tem me impedido de desfrutar do venerável cochilo, de hora e meia, após o frugal almoço.

Até onde vai o cinismo humano, Santidade? Até onde pretendem chegar aqueles que, com suas mentes empocalhadas pelo instinto vil e sanitariamente deploráveis, nos incensam com suas cabalísticas loas na premeditada intenção de nos fazer desejar coisas as quais absolutamente prescindimos, às vezes e quase sempre apelando para as mais baixas e ignominiosas artimanhas.

Parenteses: Viu que lançaram uma cerveja com o injuriado nome de Devassa? Isto é lá nome de cerveja? No máximo, a gente aceita como nome de cachaça, daquelas bem xexelentas. Que aliás, já provei. A danada desceu que nem tropa de elite fazendo o maior furdunço no meu outrora aguerrido esôfago. Já avisei a todos os meus chegados que esqueçam, me incluam fora dessa, nem cogitem arrastar minha pessoa para festa onde essa indesejada esteja sendo servida. Ademais, já pensou, lá em casa, eu, refestelado no sofá, em dia de disputa pelotista, solicitar gentilmente à patroa: Linda, me trás aí uma Devassa? Pega mal. Ou, na costumeira rodada de toda sexta-feira, vociferar: solta aí uma Devassa estupidamente gelada! Vou criar uma antinomia capaz de paralisar o mais serelepe garçon. Para nosso regozijo, o comercial que a propagandeava foi retirado de circulação, claro que sob hordas de protestos da meia dúzia de celerados professadores do imperativo categórico “quanto pior melhor”, estribados no argumento de que se a Boa pode porque não a Devassa? Só porque era a Paris Hilton que mostrava os dotes pudengos e não a Juliana Paes? Num gesto de absoluto desprezo pela mais democrática das democracias do mundo, pediram a intervenção do Departamento de Estado Americano Nortista, acusando, injustamente, nossa gente de xenofaba.

Bem, voltemos à minha narrativa original, motivo de tão pia missiva. Assevero que serei breve no meu relato, para não atrapalhar os vossos elevadíssimos pensamentos, que os sei direcionados na boa intenção de registrar e divulgar os usos e feitos, homéricos e salutares, de verdadeiros heróis, próceres e pais fundadores da vossa e da nossa República.

Fidelíssimo e Magnânimo Mestre, o caso exige vossa atenção e quem sabe, intervenção maciça do baixo, mediano e elevado clero, para que possamos voltar a dormir sossegados e não sermos mais incomodados por tamanho desatino e, por que não dizer, acintosa afronta àquilo que este humilde discipulo considera como sendo o fundamento, a pedra angular, da nossa cultura judaíco-cristã, verdade seja dita.

Preparava-me eu, para atravessar a voluptuosa e empertigada Avenida Paulista, diante do vetusto e labiríntico Conjunto Nacional, logo após um dia estafante de egrégia e enobrecedora labuta, quando, assim sem mais nem menos, descortino na outra margem, uma figura deveras inusitada e curiosa. Um homem de cabeleira alva, fios despenteados ao vento, vestido em fatos asseados e de aparente boa procedência, agindo tal qual aqueles manjados homens sanduiches, propagandistas ambulantes, afinal carregava, penduradas nos ombros, duas placas, uma à frente e outra atrás, onde, a princípio, só pude notar os dizeres frontrais que, em caracteres garrafais e alta caixa, nos avisava: O Fim está Próximo.

Pensei tratar-se de mais uma paródia de certos filmes norte americanos, onde tais figuras sinistras e vexatórias são comuns, levada a cabo por alguma súcia de piadistas em momento de recreio e desocupação. Ledo engano. Em torno ao pretenso divulgador de tão fatídica hora, notei certo alvoroço de gentes, portando e manipulando cameras e microfones. Foi aí que percebi tratar-se de uma inocente e animada produção cinematográfica. Fiz um pequeno comentário silencioso acerca da indigência de alguns artistas que teinam em imitar e/ou macaquear tudo aquilo que nos vem no norte e do leste temperados porém, calou-me fundo a precipitada e preconceituosa impressão quando consegui enxergar na camiseta de um dos técnicos compenetradíssimos o logotipo da produtora Conspiração Filmes, tão badalada no circuito fílmico tupiniquim. Ora, ora, a menina dos olhos do cinema nacional, celeiro de craques, em mais uma de suas investidas em pról da nossa tão almejada conquista do Oscar, alvísseras! Vamos chegar mais perto, talvez possa aparecer, de relance, na cena, pensei com meus rotos botões, já que estavam indo na mesma direção que eu, ou seja, ao ponto do busão.

Mas o negócio ganhou ares de assombro quando, apressado, alcançei o outro lado da calçada. A placa das costas do homem grisalho, com cara de profeta, com semblante de anjo anunciador do apocalipse, arauto do acerto final de contas com o criador, exibia o distíco mais sacripanta da paróquia que este devotado seguidor alguma vez botou os olhos, e olha que já vi dizeres exibidos em camisetas capazes de arrepiar até cabelo do sovaco, mais este passou da conta alcançando o grau supremo de senvergonhice, safadeza, escrotidão e mequetrife: Compre um Ford.

Amado, responda-me do alto da vossa plácida e discricionária sapiência, se o fim está próximo, por que cargas d'água eu me entregaria à bestagem de comprar um carro?

Perdemos o rumo, Sereníssimo! Rogo que nos ajude, com a vossa iluminada, ponderada e multifacetada cultura. Hábil sois em trafegar nos obscuros meandros misteriosos e insondáveis da natureza humana. Venha em nosso socorro, eu imploro, antes que mui e deveramente seja tarde demais.

Insône, perturbado e à míngua, aceito a vossa benção.

Assinado
Laurindo, pré candidato a diácono.


quinta-feira, 4 de março de 2010

Fazendo Pesquisa

- Ligue para cada um dessa listagem e peça três ou quatro endereços de clientes que tenham adquirido o produto nos últimos três meses.

Evangélico, batizado, jurado e sacramentado.

- Mas isso... os vendedores não vão entregar o “ouro”, ainda mais para a concorrência!

Uma multinacional fabricante de PABX's queria investigar os processos comerciais dos competidores.

- Inventa uma desculpa! Diz que estamos querendo comprar o equipamento e, como tivemos problemas no passado, queremos fazer algumas consultas sobre o processo de comercialização e instalação.

- Rapaz, sei não...

- Na guerra e no amor, vale tudo, meu caro.

- Sabe... li certa vez: “Ó meu bom Pai, livrai-me do convívio maligno com a mentira e todas as formas de mistificação”.

- É, mentir é coisa do diabo. Porém, se você conhece a Bíblia, vai encontar no Eclesiastes: “Não sejas demasiadamente justo nem demasiadamente sábio, porque te destruirias a ti mesmo”. É pagar ou largar. Precisamos de uns trezentos nomes. Para cada um que resulte em informações relevantes para o nosso cliente você ganha cenzinho.

Pragmático, o meu religioso, não? Tal qual o casuísto jeitoso e esperto que fuça, fuça e sempre acaba encontrando uma brecha jurídica que favoreça sua causa, tudo em nome da perservação da banca.

No dia seguinte, arregaçei as mangas e botei a mão na massa, afinal a perspectiva da grana era boa porém, avec une puce à l'oreille, não me largava aquela sensação de que estava abeirando-me do cinismo, o fim justificando os meios ou vice versa ou versa e vice, sei lá... Resultado: o negócio gorou porque ninguém consegue enganar a todos por tanto tempo. Uma empresa pesquisada decidiu mandar um consultor fazer-nos uma visita. A moça se apresentou com uma proposta debaixo do braço e pronta para ser ouvida. Ninguém teve coragem para recebê-la. Jogaram para cima de mim, claro, afinal eu que estava na linha de frente, que fora quem realizara o contato e coisa e tal e que, provisória e momentâneamente, encontrava-me promovido a gerente sei-lá-das-quantas e que tratasse de dar um jeito rapidinho naquele inesperado inconveniente. Acomodaram a moça na sala de reuniões, com cafézinho, água, chá e bolachinhas e avisaram que eu, o doutor fulano, estava vindo. Entrei na sala com ares de quem anda com a cabeça a mil. Enquanto passava os olhos pelos prospectos e examinava as especificações com o maior cuidado e interesse possíveis, tive a atender dois telefonemas dos meus colegas tirando sarro com a minha cara de sério, exigente e atarefado laranja. Após dez minutos de presepada, recostei-me fanfarronamente na poltrona e cuidei de despachar a vendedora com um pragmático, curto, gosso e sonoro “Vou ser sincero com a senhora, sua proposta é muito boa e vantajosa mas, sinto muito... se tivesse aparecido aqui um dia antes... Acabei de aprovar a proposta da empresa X. Mas deixa comigo o teu material que qualquer coisa a gente liga... Passar bem e obrigado”.

O que a gente não faz por alguns trocados! Justiça, verdade, quem se importa? O importante é seguir um manual onde seja possível encontrar justificativa para tudo e que, principalmente, nunca te deixe a mercê da consciência. Esta sim, dificil de ser enganada. Depois, é só elevar aos mãos aos céus e clamar: Ó Senhor, perdoa, preciso sobreviver!

Que viva o finado Machado e a sua insuperável Teoria do Medalhão, verdadeira obra prima, prenunciadora sagaz da onda cretino-arrogante-e-pia que nos assola.


segunda-feira, 1 de março de 2010

Paulo Renault

Conheci Paulo Renault, nos anos 80. Zanzávamos pelos labirintos da cultura alagoana e, logo tornei-me um dos seus muitos amigos. Sabia da música popular brasileira como poucos, tocava um violão celerado acompanhado por aquele vozeirão de quem tinha certeza dos sentimentos que esmiuçava em versos, canções e discursos que funcionavam como verdadeiras alavancas a nos alçar além das mesmices cotidianas. Se fosse caricaturá-lo, o faria próximo do tipo Hagar, o Terrível. Corajoso, forte, irônico, sagaz, com seu cutelo sempre preparado para derrubar muralhas mas, acima de tudo, um cara família. Amava verdadeiramente a mulher que o escolheu e idolatrava os dois filhos como um pai zeloso que era. Foi para mim um herói, eu o admirava como a um irmão mais velho (embora fosse mais novo que eu). Arguto e sensato sabia domar as paixões sem ser um careta, ao mesmo tempo em que não nos permitia acomodações, sempre resoluto a buscar formas e maneiras que nos permitisse ser diferentes sem deixarmos de ser iguais. Tinha lá suas esquisitices como qualquer mortal, mas nele tudo soava singular. Viajamos juntos por praticamente todo o Estado das Alagoas com a idéia fixa de, juntamente com o Juarez Gomes de Barros, criarmos um Museu da Cana. Paulo Renault era assim, grande - nem sempre exequível - mas apaixonado e apaixonante. No final dos anos 90, produziu o espetáculo Maceió Cidade Aberta e convidou, a mim para declamar alguns dos seus poemas e, ao Chico Elpídio para dar o tom musical da obra. Morreu no começo deste século. Ao beco onde íamos tomar umas e nos fartar com a feijoada da Zefa, deram-lhe seu nome. Em 2004, póstumanente, foi publicado o seu primeiro e único livro de poesias com ilustrações do arquiteto Mario Aloisio e a primorosa edição da Editora Catavento da incansável professora Leda Maria. A revitalização da alma da cidade, tão sonhada por Renault, começa por ali, pela rua que leva o seu nome, com seus velhos trilhos, seus casebres, os velhos armazéns e as mil histórias contadas por este arauto dos “amores encontrados e bem nascidos”. Partilho com vocês um pouco da minha saudade através de um dos seus mais belos poemas, chamado justamente de Cidade Aberta e que dá título ao livro.

"A cidade estava mergulhada no pó e estilhaçada.
A cidade coube em minhas mãos,
Tomei-a e soprei-a, tirei a fuligem que a cobria.
Depois, juntei os pedaços e emendei-a.

A cidade esteve em minhas mãos
E agora está em meu corpo,
Porque agora ela está pintada
E eu canto a canção dos amores encontrados e bem nascidos.

E não importa que a cidade tenha
Demorado quase ao ponto de atrasar o poema,
Porque outras cidades do mundo também demoraram a chegar
E outras chegarão ainda mais tarde do que esta pequena e antes perdida.

Não importa quanto tempo levemos para encontrá-la.
O que importa é que a temos e ela coube em minhas mãos
E está no meu corpo, porque agora ela está pintada
E eu canto a canção dos amores encontrados e bem nascidos.

E não a quero chorando em meu ombro porque há desespero,
Longe disso! A quero como amante, como cúmplice,
Companheira de viagem. A quero insurrecta,
Dentro do engenho incrustado no platô da restinga.

Juntos, poderemos cometer os maiores e mais absurdos crimes:
Plantar flores, fazer canções, poemas, dramas, dançar
Ao som de carros e aviões, ou empastelar as ruas com tintas de fumaça,
Pedaços de moeda e palavras de gratidão.

Porque ela coube em minhas mãos
E está em meu corpo
Porque agora está pintada
E eu canto a canção dos amores encantados e bem nascidos".