Viera de tão longe. Deixara para trás, tudo. Só a roupa do corpo. Vontade de recomeçar. Cidade pequena. Casinhas esparsas. Muito, por fazer.
Quando viu a floresta, chorou. Nascera. Trabalhara, trabalhara... um dia casou. Mas a floresta era o seu único amor. Conhecera cada palma da mata, cada árvore, cada ninho de pássaro, cada toca de tatu... a onça aprendera a respeitá-lo, deitou certa feita lá no fundo do quintal. Quando amanheceu, olharam-se e trocaram duas ou três palavras inaudíveis.
Quando as motosserras chegaram ele estava no eito. Correra desembestado. Gritara, esbravejara, esmurrara e levara um tiro... no peito! A mulher desertara. Dissera medo, medo de morrer matada, que não, não aquela vida.
Embrenhado na mata, o sangue pingando, a vida sumindo... caira ao pé de uma jaqueira, ali ficara... os dias cobriram-no de folhas úmidas e os besouros passeavam sua carne enquanto os saguis e as borboletas velavam o movimento tênue da sua respiração.
Vivera, impressionante!, vivera. Tomou para si... a floresta. Percorrera salões, auditórios, redações... quando pensara que não, conseguira. Agora tinha, por decreto, a seu cuidado, um parque por nome, todinho para olhar... e cuidar. Vencera. Viera de tão longe e vencera. Chegara com nada, agora tinha tudo.
Um dia, Dríade chegou e com ela aprenderia histórias. Que nunca soubera. E como se o encontro já houvera sido narrado, deram-se as mãos e passearam pelos caminhos sinuosos da mata, nús, risonhos, fortes, como deve ser em qualquer reinvenção do paraíso.