domingo, 25 de abril de 2010

Coisas da Vida, 2010 dC.

- A lâmpada não está acendendo.
- Você apertou o botão para baixo?
- Claro, eu fiz assim... ó!
- Deixa eu tentar... É não está acendendo.
- Dá uma batidinha.
- Pode ser mal contato, não é?
- Lá em casa é sempre assim.
- Não funciona.
- Bate mais forte!
- Já bati.
- Lá em casa vive acontecendo isto. Não sei o que acontece!
(ENTRA UM TERCEIRO)
- Porque vocês estão no escuro?
- A lâmpada não está acendendo.
- Tentaram trocar?
- Morro de medo de choque.
- Tenho trauma de eletricidade.
(ELE TROCA A LÂMPADA)
- É isso! (SAI. TEMPO)
- Hum, sujeito exibido este!
- Não vou com a cara dele!
- Metido!
- Quem ele pensa que é?
- Espera aí que meu celular está tocando!


domingo, 18 de abril de 2010

Quando Nietzsche Aportou no Brasil

Durante sua estada em terra brasilis, ainda esboçando o seu livro A Genealogia da Moral, o eminente filosófo encontrou muitos subsídios para compor o paragrafo 10, do Segundo Tratado que, na tradução do Antonio Carlos Braga, apresenta-se como uma jóia do entendimento humano.

A constatação que fica é: dado que o senhor Nietzsche observou este aspecto distintivo do caráter do povo brasileiro, encontra-se explicado o porque de tantos indivíduos encontrarem-se fora das grades, impunes, faceiros e faqueiros.

Honremos o filosofo, que nos atribuiu grandeza ímpar, lendo o paragrafo:

Com o aumento de seu poder, uma comunidade não dá mais tanta importância às transgressões do indivíduo, porque já não parecem perigosas, nem subversivas; o malfeitor não é mais “proscrito” e expulso, a cólera geral não está mais autorizada a tomar medidas contra ele de maneira tão desenfreada como antes, pelo contrário, o grupo todo defende e protege cuidadosamente o transgressor contra essa cólera, especialmente contra aquela das partes imediatamente lesadas.

A decisão de aplacar a cólera dos prejudicados, de circunscrever o caso para evitar distúrbios, de procurar soluções equivalentes para hamonizar tudo e principalmente de considerar toda a infração como expiável e de isolar portanto o delinquente de seu delito, esses são os traços que caracterizam o ulterior desenvolvimento do direito penal.

À medida, pois, que aumentam numa comunidade o poder e a consciência individual, o direito penal não cessa de se suavizar; pelo contrário, ao manifestar-se uma fraqueza ou um grande perigo, reaparecem a seguir as formas mais rigorosas de repressão.

O credor se tornou sempre mais humano, à medida que foi enriquecendo; sua riqueza, em outros termos, se mede pelo número de prejuízo que pode suportar. Não é impossível imaginar para uma sociedade uma consciência de seu poder, de modo que se permite o luxo de deixar impunes os que lhe trazem prejuízo, “Que me importam a mim esses parasitas? Que vivam e prosperem; sou forte o bastante para não me aquietar por causa deles...

A justiça que começou por dizer: “Tudo pode ser pago e deve ser pago” é a mesma que, por fim, se mostra indulgente e não cobra as dívidas de quem não pode pagar - termina como todas as coisas boas do mundo, suprimindo-se a si mesmo. Essa autodestruição da justiça é chamada graça e é privilégio dos mais poderosos, melhor, daqueles que estão além da justiça”.


domingo, 11 de abril de 2010

História Sem Nome

Viera de tão longe. Deixara para trás, tudo. Só a roupa do corpo. Vontade de recomeçar. Cidade pequena. Casinhas esparsas. Muito, por fazer.

Quando viu a floresta, chorou. Nascera. Trabalhara, trabalhara... um dia casou. Mas a floresta era o seu único amor. Conhecera cada palma da mata, cada árvore, cada ninho de pássaro, cada toca de tatu... a onça aprendera a respeitá-lo, deitou certa feita lá no fundo do quintal. Quando amanheceu, olharam-se e trocaram duas ou três palavras inaudíveis.

Quando as motosserras chegaram ele estava no eito. Correra desembestado. Gritara, esbravejara, esmurrara e levara um tiro... no peito! A mulher desertara. Dissera medo, medo de morrer matada, que não, não aquela vida.

Embrenhado na mata, o sangue pingando, a vida sumindo... caira ao pé de uma jaqueira, ali ficara... os dias cobriram-no de folhas úmidas e os besouros passeavam sua carne enquanto os saguis e as borboletas velavam o movimento tênue da sua respiração.

Vivera, impressionante!, vivera. Tomou para si... a floresta. Percorrera salões, auditórios, redações... quando pensara que não, conseguira. Agora tinha, por decreto, a seu cuidado, um parque por nome, todinho para olhar... e cuidar. Vencera. Viera de tão longe e vencera. Chegara com nada, agora tinha tudo.

Um dia, Dríade chegou e com ela aprenderia histórias. Que nunca soubera. E como se o encontro já houvera sido narrado, deram-se as mãos e passearam pelos caminhos sinuosos da mata, nús, risonhos, fortes, como deve ser em qualquer reinvenção do paraíso.


quarta-feira, 7 de abril de 2010

Escatologia

a figura
estilhaçada

a morte
controlada

a vida
programada

o desejo
mediado

o futuro...
passado!

e o ser
que?

  • Nome!?
  • Técnico Sintetizador, nível 2A, classe expertise, 100% de eficiência politicamente correta.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Encontro

Haviam combinado se encontrarem num começo da terceira semana do mês de junho de um certo ano num certo restaurante que mantinha mesas na calçada diante de uma certa praça onde reinava, solene e agregadora, uma certa fonte na qual havia um certo garoto bronzeo e travesso a urinar alegre e perenemente sob o olhar pudico de uma certa ninfa de cabelos longos e seios fartos.

Em seu entorno, era animado o movimento de pessoas que acorriam àquela certa cidade naquela estação para simplesmente curtirem o clima paradoxalmente ameno em pleno inverno e peregrinarem por suas poucas ruas de pedras apreciando o colorido das casas e as taças de vinho oferecidas nas janelas por rainhas e princesas, desta e de outras safras, vestidas a caráter e ornadas de exuberantes grinaldas de múltiplas flores como que já a saudarem a primavera aguardada para dali a alguns meses.

Era um repentino e singular despertar do longo sono hibernal da estação, dois ou três dias apenas, dando a impressão de que a natureza antecipava o futuro de modo a se pudesse experimentar as delícias provindouras.

Ele estaria de calças e camiseta pretas, tênis branco, diante de uma taça de vinho tinto. No lado oposto, um livro aberto numa determinada página onde se leria, debaixo de uma margarida, o seguinte verso do poema Meu Amor da Florbela Espanca

“De ti somente um nome sei, amor.
É pouco, é muito pouco e é bastante
Para que esta paixão doida e constante
Dia após dia cresça com vigor”.

Ela viria num vestido branco com pequenas margaridas estampadas e um cravo vermelho na mão esquerda enquando a direita protegeria o chapéu das investidas brincalhonas da brisa que esvoaçava uma quaresmeira a proteger quem esperaria.

Chegaria... Ele se levantaria, seguraria levemente seus braços e beijaria sua face esquerda com os lábios úmidos e rubros e daria a volta para posicionar a cadeira de encontro ao seu corpo pequeno e esguio. Ela colocaria o cravo ao lado esquerdo da taça e tiraria o chapéu depositando-o ao lado direito do livro que não leria não antes de beijar as alvas pétalas da silente e dócil flor.

Repousaria os olhos então sobre as linhas do poema e ele veria suas pupilas percorrerem cada palavra e aguardaria que seus olhos se levantassem com um sorriso tímido de encontro aos seus ardentes e ergueria a taça e sorveria um gole como se bebesse dalgum filtro mágico que lhe investiria do poder de paralisar o tempo e transmutar o espaço.

Não trocariam palavras, não haveria porque ou do que falarem, tudo já houvera sido dito em todos estes anos, longe um do outro, mediados por circuitos integrados e fibras óticas.

Os olhos dele acariciariam cada parte do corpo dela e os olhos dela devolveriam improvisados arpejos e acordes de uma sinfonia de gestos invisíveis que em certos instantes culminariam em árias inauditas e inaudíveis povoadas de arrepios e suspiros.

Passaria a tarde tão apressada e na languidez das nuvens tingidas de escarlate e roséas os seus cúmulos de fogo a saudarem a noite com seu séquito enluarado de estrelas, os dois se levantariam e de mãos dadas dirigir-se-iam à esquina mais próxima e desapareceriam em gozo.

Não haveria cameras, não haveria claquete, não haveria flash's, não haveria comentários na mídia, nenhuma nota seria publicada no dia seguinte em nenhuma pagina de nenhum jornal, nenhuma coluna social os incensaria, nenhuma televisão os convidaria para um talk show, nenhum pintor imortalizaria em marmore aquele momento, nenhum poeta lembraria de dedicar uma estrofe ou verso que fosse, nenhum brinde se ergueria em nenhuma confraria, nenhuma vizinha fofocaria, nenhum transeunte siquer notaria...

Contudo, para eles, aquela seria a grande, a antológica cena do cinema de autores que haveria de ser as suas vidas.