Não largue teu emprego atual. Vá levando. Porém, invista alguns trocados num curso alternativo de psicologia transcendental. Lá, com certeza irás descobrir teu caminho, tua estrela guia, teu bliss. Quando descobrires, não esqueça de anotar. Será o primeiro passo para tornar-se um avatar. Comece divulgando discretamente tua descoberta, teu insaite, agora que percebeste teu lugar no Universo. Aguarde pacientemente contatos. Enquanto isto, escreva alguns poemas e crônicas e contos curtos e veja se consegues que algum jornal de relativa expressão os publique – jornal de bairro não vale! Se não, faça uma seleção dos teus melhores e publique-os em forma de livro às suas expensas, claro. Distribua os mil exemplares entre os amigos e amigos dos amigos. Conhecido também pode. A propaganda boca a boca funciona. Aguarde mais um pouco. Dê algumas aulas gratuitas para comunidades carentes. Fique fora dos partidos mas, nunca deixe de comparecer à algumas reuniões, festas e encontros onde possas, mais discretamente ainda, fazer propaganda das tuas ideias – que a esta altura já devem ter alcançado o patamar de veritas aceitable et inconteste causa. Submeta-se a um concurso público e passe. Verás como teus horizontes se ampliam. Agora podes pedir demissão do teu emprego atual. Imediatamente crie uma página na internet, pode ser um blog, comece por baixo, seja modesto. Faça alguns cursos onde se aborde o paradigma do novo homem inserido no contexto daquilo que ainda está por vir e as pessoas ainda não perceberam porque andam muito ocupadas com coisas que não têm a menor importância. Participe de algumas rede sociais. Aguarde mais um pouco. Consulte-se com um Mestre. Não importa muito de que área, vale qualquer. Escreva mais um livro, agora com temática ecológica. Faça algumas observações contundentes acerca do futuro do planeta numa iminente conjunção de Marte, Saturno e Plutão numa noite de lua cheia logo após uma tempestade de raios gama sobre o deserto do Saara. Procure um editor. Irás receber vários nãos mas, desistir nem pensar. Consiga um pistolão – já tens um certo cacife para ocupar um posto nalguma secretaria que se proponha defender alguma causa assaz poderosa e urgente e vá subindo, degrau a degrau na hierarquia, sem reclamar e aceitando tudo o que o seu Mestre mandar. Quando houver mudança de governo e o teu padrinho for defenestrado, escreva mais um livro - agora contando tuas experiências junto ao grupo político que, no momento, vê-se envolvido numa quebra de braço com o Tribunal de Contas e tu precisas ligeirinho deixar bem claro que estavas apenas cumprindo ordens superiores com a melhor das intenções. Não esqueça de manter a crença e a civilidade. Boa hora para fazer aquela tão sonhada viagem ao exterior. Saque aquela tua parte da herança que aquele parente distante, na última hora, decidiu doar a você - isto se você tiver um parente que, rico, lembre de ti. Senão saque toda aquela tua poupança acumulada durante os anos de vacas gordas e invista finalmente em algo que realmente faça a diferença no teu já volumoso curriculo. Não esqueça de, na volta, visitar e colocar algumas flores no túmulo do parente finado, caso a primeira hipótese tenha se concretizado. Se não, ingresse em - ou funde - uma ou duas Ong's na luta em pról de alguma coisa ou alguém. Com teus contatos anteriores será fácil conseguir algumas verbinhas de nada. Vá tocando. Continue suas consultas com o Mestre. Livrou-se do processo? Não esquenta, use a propaganda negativa a teu favor... agora já sabes como. Então chegou a hora de pensar em casar-se com alguém do seu nível e competência... Ou não, melhor seria teres alguns casos com mulheres fascinantes e bem posicionadas na sociedade de capital aberto. Aguarde mais um pouco. Continue colaborando com o Mestre. Agora podes dar o passo decisivo: contrate um especialista em design gráfico e mídia e bombe um ponto com. Material para mais um livro não te falta. Vá levando a vida e enquanto isto, quem sabe, com um pouco de sorte e bons novos contatos, consigas o teu primeiro cliente: alguém (talvez uma celebridade) a procura de um consultor que oriente na feitura de um livro de pensamentos edificantes ou talvez alguém que queira psicografar cartas do além e precise de um revisor-tradutor de línguas mortas. Claro que será um chato, mas com certeza um chato rico o suficiente para bancar alguns anos da tua jornada em busca do clique que finalmente te permita escrever alguma coisa realmente legal que tire do teu pé aquele bando de urubus e hienas que insistem em te caluniar como farsante, coisa que insistes em negar com todas as tuas forças. Rascunhe tua biografia e transforme em mini-série para televisão. Verás como será fácil vender a sinopse para uma rede louca para emplacar mais uns pontinhos no ibope, afinal és um controverso e sabes um pouquinho mais da conta. Agora podes romper com o Mestre e escrever um livro contando todos os podres dele. Aproveite para romper também com o teu padrinho que, num golpe do azar, teve as contas rejeitadas, foi processado, condenado e agora amarga um ostracismo miserável em Miami. Finalmente considere a aposentadoria. Não esqueça de comprar um sítio num lugar êrmo, de frente para o mar, ou para a serra (vai do gosto) e vá viver da pesca de peixinhos ornamentais ou da plantação de tomates, livre finalmente de todos nós que ficamos por aqui enchendo teu saco te cobrando virtudes que nunca passaram por tua cabeça mesmo porque chegaste a um ponto em que relativizas tudo e não estás nem aí. Escreva tua carta testamento onde possas empunhar tua metralhadora giratória e atacar com ferocidade nunca vista esta nossa vocação para o fracasso. Firme posição naquilo que consideras a pedra de toque da tua aventura: se tens um sonho, corra atrás! Ah, não esqueça de todo ano promover uma singela reunião familiar - irás precisar de toda ajuda possível para a realização do teu funeral. Afinal, morrer sozinho e esquecido é coisa de pobre.
sábado, 29 de maio de 2010
domingo, 23 de maio de 2010
Rito de Passagem
Não, não quero mais a lírica pueril, comedida, pão com manteiga, média café e leite. Cansei dessa temática auto exilada em labirintos habitados de equivocados fantasmas, da canção de alcova, do umbigo da amada em lençóis de nuvens esculpidas, do rococó da palavra, da superficialidade profunda, do espírito à vau, do par alma gêmea e nunca acertado por pura crueldade do destino, do embuste consentido e insensado por retórica passada, passadismo xinfrim, perfumado com melancolia pretérita e imperfeita... Cansei da saudade parnasiana, do arcadismo banal sem vivência das horas, de ficar à deriva no romantismo piegas de corações traspassados... Cansei dos eflúvios góticos - convite perpétuo ao suícidio moral - regadas a doses maciças de vodka com fanta, velas e sustos eletrizados de mágoa... Cansei dos enrustidos sonetos, das odes miolo de pote, dos chistes espirituosos e venais, das rimas e métricas engessadas na forma e sem qualquer conteúdo senão a consagração da forma... Cansei do gerúndio, dessa pegajosa corrente do aqui e agora que nos deixa sem rumo nesse círculo vicioso... Cansei do namorico no portão, pais vigiando na sala, beijo de bico, toque de mão, sexo pudico, luz apagada, extâses místicos e hecatombes ovacionais em nome de deuses mortíços e cansados... Cansei deste jogo de esconde esconde nos pomares carregados de ilusões desbotadas e insonsas, de corpos intangíveis, virtuais, avatares sem nexo, do chove não molha dos salões assépticos e etiquetados de cortes lacrimosas e esquálidas, redutos de intrigas e pragas... Cansei destas vaidades cheias de não me toques, da anorexia das meninas, da ambiquidade dos rapazes, do botox na cara, da alma lipoaspirada, da esmola abatida e da bondade safada... Cansei dessas idiossincráticas noves horas, de evitar ferir sucessitibilidades, de ser cordial, bom moço, polido, gentil, de defender a liberdade que é apenas a liberdade de outros me foderem... Cansei dessa paz, dessa paz de cemitérios, dos genocídios disfarçados, das limpezas étnicas, sexuais e culturais, da ameaça constante do fogo do inferno, da hipocrisia dos automóveis e do seu paradigma econômico industrial... Cansei do compadrio, do data venia, dos caros colegas, tapinhas nos ombros, da marmelada, do jeitinho, do deixa disso e da facada nas costas... Cansei da bunda da vizinha e dos esporros do marido diariamente castrado, dos diplomas emoldurados, do drama e do dilema sem fim e sem propósito destas fogueiras de almas, dos medalhões e suas teorias e decretos politicamente corretos, do faz de conta que os marqueteiros nos cartilham... Cansei do agasalho e do guarda-chuva ao menor sinal de garoa... Cansei do mesmo time, dos mesmo craques, das mesmas pedaladas e do mesmo zero a zero, de engolir sapo acreditando que era estrujão por não fazer a menor idéia do que seja caviar, das injustiças - por propositadamente nunca ter pensado sobre o que venha ser justiça - do cinismo que me assola quando penso que compadeço por desconhecer completamente o que verdadeiramente seja a verdade... Cansei dos quinze minutos de fama, de desejar aquilo que não é próprio, de fazer papel de bobo, cansei do pastelão, da torta na cara, e de sempre ouvir não...Cansei do atraso, da província, do tênis da moda, do celular blutuf, do manuseio do futuro em letras caixa alta neo-ionizadas de sentidos senso comumente mistificadas... Cansei dos meus dedos frágeis e caducos.
Quero inda agora o verbo no tempo perfeito, no mais que perfeito. Aceito um subjuntivo mas, um subjuntivo ávido de possibilidades, mesmo que quixotescas, mesmo que auroras de malucos beleza, contanto que sejam manhãs sorridentes de epifanicas luzes, mesmo que de fogos de artificios mas, que iluminem as contradições do mundo e exiba uma metafora plausível, próspera, próxima frase que evita a topada, que recria a vida, tal qual uma mycoplasma mycoides JVCI-syn, mesmo que seja... Quero todos os épicos esquecidos e lembrados e porvindouros para botar no chinelo todos os desvios e atalhos covardes e vis... Quero bruxas, gnomos, vinking e dragões mas bruxas, gnomos, vikings e dragões sintetizados em canais poéticos competentes... Quero uma tal mitologia que me oferte excelência não um arremedo de força, porque de força já estou até a tampa... Quero me mandar finalmente para o espaço sideral e me defrontar com as tais leis incertas, tão incertas quanto o novo amanhã pós humano e perecer com um imenso sorriso no rosto de pura satisfação por não ter dado ouvidos a este estranho que me habita como se fora senhor desse meu mundo.
domingo, 16 de maio de 2010
Conhece o Mário?
Diante da pergunta você conhece o mário quem nunca, na sua santa inocência, não respondeu: que mário? E teve sobre si as gargalhadas dos amigos que anteriormente haviam sido também encurralados e despidos.
Pois é. Frases inocentes como esta fazem a alegria geral, nos tiram da confortável segurança de acreditarmos sabermos tudo. Não sei de outros idiomas mas, na língua portuguesa, preciosidades tais causa a impressão de que adentramos a um mundo de revelações insuspeitados. Se não somos ágeis, corremos o risco de perder velhas amizades, por absoluta falta de esportividade. Tais frases, fazem do sujeito que as profere o centro das atenções, porque descontraí o ambiente sem apelações grosseiras. Revelam também um aspecto lúdico da alma, contribuindo certamente para nos fazer ficar alertas contra certas armadilhas do idioma, além de produzir a sensação de que, após passarmos por elas, ficamos um pouco mais espertos.
Diz-se que, durante a ditadura, um alto coturno da República durante um café da manhã, proferiu a seguinte pérola diante de um general cinco estrelas: “O senhor gosta de café de máquina ou acha que no coador é melhor”? Ninguém entendeu. Mas o garçom que servia o cafezinho quase mijou nas calças. Dizem que o general respondeu: “E o senhor, gosta de verdura”?
O dialogo continuou, para desespero dos presentes que, àquela altura, temiam um retrocesso nos rumos políticos da nação, visto o projeto de distensão e abertura já encontrar-se bastante avançado.
- O senhor gosta de laranja? Se eu der um saco, o senhor chupa?
- Quanto o senhor acha que eu peso... por cima?
- Sabe, sou ótimo cozinheiro. Se eu cozinho, todo mundo come!
- Outro dia fui cozinhar um ovo e saiu um pinto de dentro. Imagina se eu cozinho com o pinto dentro!
- Minha amiga Paula é muambeira. O que senhor quiser, Paula traz.
- Bonita camisa. Linho fio grosso?
- O senhor anda de carro ou só caminha?
- Jacaré no seco anda?
- Elefante no seco atola?
- Em caminho de paca, tatu caminha dentro?
- Cachorro de várzea late em terra firme?
- Um índio está sentado na floresta e outro no asfalto. Qual deles tem terra na bunda?
- A Coca-Cola, após a garrafa de dois litros, vai lançar o litraço de quatro.
O clima nublou. Uma dama interveio dizendo que aquela conversa estava ficando muito estranha, que não estava entendendo nada, se aquilo era um código particular... O general olhou a madame de cima em baixo e tascou: “A senhora topa almoçar comigo depois da uma”? O marido da socialaite, executivo de uma multinacional, não deixou por menos: “Vamos juntos, podemos rachar a conta. Mil meu, com mil teu...” Um político tomou a dianteira e emendou: “Preciso abastecer meu carro. Aqui na sua redondeza o ilustre tem posto atrás”? Um assessor, querendo mostrar competência, mandou: “Aquele negócio está de pé, estou aguardando apenas sua posição”. Ao que o empresário respondeu: “Que tal trabalhar na minha fábrica de camisetas? Você vende quatro, te dou uma”.
Sei que alguns não irão gostar desta irrelevante crônica... para estes, deixo aqui uma singela pergunta: Tem culpa eu?
Ah, da próxima vez que te perguntarem se conheces o Mário, verifique antes se é o irmão do Lochas.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Frases
“Foram os espíritos mais fortes e os mais maldosos que até agora promoveram os maiores progessos da humanidade; reacenderam sem cessar as paixões que adormeciam – toda sociedade organizada adormece as paixões – despertaram sem cessar o sentido de comparação, da contradições, o gosto pelo novo, pelo ousado, por aquilo que ainda não foi tentado; obrigaram os homens a contrapor a opinião a opinião, tipo ideal a tipo ideal”.
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, Livro I-4, Editora Escala
“Nos próximos 25 anos anos será preciso aumentar a produção de alimentos para saciar 90 milhões de novas bocas. Some a este desafio a tarefa de acabar com os 500 milhões de famintos existentes. Diante deste quadro, qual das três saídas você adotaria para alimentar a humanidade no século XXI: aumentar a área agrícola, aumentar a produtividade ou torcer para que uma guerra ou epidemia diminua a população do planeta”?
Fernando Reinach, A Longa Marcha dos Grilos Falantes, Como Alimentar a Humanidade no século XXI, Cia das Letras.
“O que não leio há muito tempo é poesia, curioso isso. Acho que poesia requer uma disponibilidade de alma que não tenho mais”.
Fernando Henrique Cardoso, Revista da Cultura, Abril 2010, página 19.
“Com a força do povo e a graça de Deus”.
Dilma Roussef, candidata à presidência do Brasil em 2010, encerrando discurso.
“Com a ajuda de Deus e a força do povo brasileiro”.
José Serra, candidato à presidência do Brasil em 2010, encerrando discurso.
“O frango que comemos está repleto de hormônios femininos, e é por isto que homens que comem estes frangos tem desvios em sua maneira de serem homens”.
Evo Morales, na Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra.
“Muitas mulheres mal vestidas corrompem os jovens, e o aumento das relações sexuais ilícitas faz crescer o número de terremotos”!
aiatolá Kazem Sedighi, imã das orações de sexta-feira em Teerã.
“A sociedade atual é pedófila. (…) Nós sabemos que o adolescente é espontaneamente homossexual”.
Dom Dadeus Grings, arcebispo de Porto Alegre, na 48a. Assembléia Geral da CNBB
“Jesus tinha muita compaixão, era um homem gay superinteligente”.
Elton John, à Revista Parade, fev.2010
“Porque abelhas não vão para o céu”?
Ronnie Williams, ator e comediante galês.
“Porque só pesquisas de opinião pública divulgam margem de erro? Porque os discursos dos políticos, comercial de televisão, sermão religioso não nos aparece com uma margem de erro anexa”?
Carl Sagan, O Mundo Assombrado pelos Demônios, pg. 47, Cia das Letras.
sábado, 1 de maio de 2010
Um Completo Banana
Quando minhas filhas resolvem tomar conta do único computador da casa, sai de perto. Invento que vou tirar um cochilo e fico de butuca, um olho aberto outro fechado, só assuntando o drama.
A mais velha gosta de jogos de vestir, maquiar, coisas de barbie e de outras bonecas parecidas... Coisas que redudam no seu gosto pelo estilismo, da moda, da novidade, do diferente e do inusitado. É comum perder horas diante do espelho escolhendo uma roupa apenas para ir até ali na esquina. Costuma misturar tudo que tiver pela frente: roxo com verde, amarelo com lilás, pantalona com top, calça “pula brejo” com sapato de salto alto, casaco pesado com sandália havaiana, gola rolê com mini saia, e vai por aí a fora. Saiu num dia de verão, calçada num mocasssim e meias de cores diferentes. Ousada ela é, não posso negar. Para não ficar mais sujo que chão de galinheiro, de vez em quando dou uma olhada e solto um “uhn uhn”, um “ahhhh” meio sem jeito... Faço de conta que estou me divertindo e fica o dito pelo não dito e assim ela continua suas experiências, testando todas as possibilidades que a sua mente de doze anos é capaz de engendrar. Um dia, quem sabe, ela consiga encontrar um estilo e aí seremos todos bombardeados por suas conclusões. Só fico preocupado quando ela se arreta e larga tudo prá lá e diz que não consegue fazer nada direito, que o site não oferece as opções que precisa ou que o seu guarda-roupa está muito pobre, que precisa comprar roupas novas e blá, blá, blá. Aí tenho que, sereno e severo, entrar em ação. Chego junto, dou outra olhada e faço um comentário agradável, na tentativa de sossegá-la, não posso permitir que ela fique tão chateada ao ponto de desistir de si mesma. Quando dá os cinco minutos, ela larga o computador e se aproxima querendo bater papo. Eu gosto e aguardo a deixa para ver se posso contribuir realmente com alguma coisa boa para o seu progresso.
É nessa hora que a mais nova aproveita e entra no Orkut, sua paixão. Tal qual nove entre dez brasileiros conectados. Digo que não sei o ela vê nesse tal de iaculti... Ela, séria, me corrige e insisto só para aperreá-la mas, ela não liga... Cuida de atualizar seus contatos, trocar mensagens, fotos e jogar com as amigas e amigos da escola e com os parentes distantes.
Preciso voltar no tempo para que vocês entendam como me senti naquela tarde quando a mais nova me mostrou pela primeira vez um joguinho chamado “colheita feliz”.
As duas cresceram estudando em escola pública. Quando chegaram à quinta série, a mais nova fez e aconteceu para mudar para uma escola melhor, ou seja, escola particular. Alegou tudo, que a comida era ruim, que havia muita violência, que outro dia um menino entrou armado na escola, que mexiam muito com ela, que estava insegura, que não aprendia nada, que se quisesse ser médica pediatra tinha que estudar em escola particular... Encurralado, disse que não dava, que não tinha dinheiro para tanto, que a escola quem faz é a gente, que livro é o que não falta, e tenho um bocado, que podia arranjar todos que ela me pedisse, que sempre estudei em escola pública, que estava ali para ajudá-la no que fosse preciso, nos trabalhos, nas pesquisas, que era uma pessoa que sabia de algumas coisas, que não era burro, que tinha discernimento e coisa e tal... Não teve jeito, queria porque queria ir para uma escola melhor, o que significava ir para uma escola particular. A mãe, preocupada, mexeu e remexeu até que conseguiu duas bolsas numa escola particular. Comprometeu-se a prestar alguns serviços e assim conseguimos levar a vida por um ano.
Foi aí que, naquela tarde, quando a mais nova assumiu a cadeira diante do computador, tomei conhecimento do interesse dela pelo joguinho. O jogo pode não ter sido descoberto durante sua estada na escola melhor mas certamente foi lá que ela pegou um tal gosto pela coisa ao ponto de levá-lo tão a sério.
Para quem não conhece o jogo, resume-se a você montar uma fazenda, plantar, criar animais e efetuar trocas e vendas visando aumentar seu capital, melhorar suas instalações e ampliar o seu negócio. Nada demais até aí, ajuda no desenvolvimento da iniciativa e incentiva o empreendedorismo. Mas o negocio começa a feder quando a prática comum permitida consta de nada mais nada menos do que roubar dos vizinhos. Isto mesmo: roubar! Você pode roubar no jogo. Você pode adquirir capital roubando dos outros. E nisto, minha filha mais nova encontrava verdadeiro prazer, sob a alegação de que “se todo mundo roubava, ela também devia roubar”, que esta era a única forma dela conseguir capital, queria comprar uma vaca e precisava de não sei quanto do dinheiro virtual circulante no jogo. E de nada adiantou o meu espanto, ela não estava nem aí para as minhas investidas contrárias àquilo que sempre considerei inapropriado desde os meus tempos de menino educado em escola pública.
O fato é que entre a violência e inépcia da escola pública e o ensino pretensamente melhor da escola particular, minha filha mais nova estava caminhando tal qual uma “maria vai com as outras”, reproduzindo a imortal Lei de Gerson: se dar bem a qualquer custo!
Naquele dia, fui dormir com a sensação de que, apesar de limpinho, corro o risco de me tornar um completo banana.
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