sábado, 31 de julho de 2010

Poema Inacabado


Cena Esticada - Maurício Nunes - 2010



Passei anos
A escrever um poema.

Talvez passe outro tanto
Para ver se tenho-o pronto

Sempre o mesmo é o poema
Apesar dos vários cantos

E é sempre novo o poema
Mesmo velho eterno esboço


terça-feira, 27 de julho de 2010

As Folhas de Cedro

Foto: Fernando Stankuns (Marina Flores e Hélio Cícero)

Uma moça tenta entender porque seu pai foi embora. Um homem, no meio da floresta, tenta concretizar um sonho de grandeza. A moça, examina os motivos que levaram o pai a desistir da família e abraçar uma quimera - insanidade, covardia, perda de identidade, purgação de pecados?

Amazônia, anos 70: a Transamazonica (episódio da nossa história recente ainda por ser decifrado) é o sonho de integração do país concebida pelos militares. Um sonho de grandeza para satisfazer vaidades. Interesses escusos destinaram a obra ao fracasso. Porque alguém continuaria acreditando na sua validade, sacrificando todo o seu passado?

Este é o enredo de As Folhas de Cedro (encenado pela Companhia Arnesto Nos Convidou, no Sesc Vila Mariana, São Paulo, até o dia 22 de agosto), espetáculo do premiado dramaturgo Samir Yazbek, que traz aos palcos sua origem libanesa de modo a sondar o passado na procura de respostas para o sentido da vida: quem somos, de onde viemos, o que fazemos aqui e para onde vamos.

Nesta jornada de autoconhecimento, Samir nos coloca na fronteira dos tempos - passado e futuro, memória e imaginação, onde adentramos o terreno dos arquetipos para encararmos nossas próprias escolhas, levando em conta as parcialidades cotidianas mas, tendo por princípio que, sejam quais forem as consequências, somos sempre donos e senhores do nosso próprio destino.

Entender o herói que nos habita é fortalecer a alma para a grande aventura da vida, teria dito Joseph Campbell.

Somos uma nação de migrantes e imigrantes. Uns mais cantados que outros. Uns mais à vista que outros. Da contribuição árabe à civilização brasileira sabemos muito pouco. Obras de folego, nos brindaram Milton Hatoum, amazonense de Manaus, com o seu Dois Irmãos, e Radan Nassar, paulista de Pindorama, com a sua Lavoura Arcaica.

A nós, tão acostumados em estereótipos (todo árabe é turco, todo turco mascate, todo português padeiro, todo italiano massa, todo baiano facada, todo caipira viola, todo preto macumba, todo roqueiro drogado, todo samba batucada) ao assistirmos a peça, somos surpreendidos por um libanes em conflito com a tradição e que insiste em ser apenas humano, firmemente decidido a trilhar os dificeis caminhos da autoconstituição, transformando este ato de liberdade num legado.

A despeito da participação, como atrizes na peça, da minha filha, minha neta e de uma colega de turna nos meus dois anos de curso na EAD (a quem não via a mais de 30 anos), não permitam que este breve comentário invalidem a importância da peça, antes pelo contrário, considerem o fato de que um reencontro pode nos ajudar a perceber que somos todos parte de uma única e mesma jornada e que mágoas são perguntas que ainda não encontraram respostas.


sábado, 24 de julho de 2010

Mary Pepper, Minha Pequena

Miro... vamos chamá-lo assim? Valdomiro não, é feio. Miro. Reservado sem ser obscuro, simpático, familiar um tanto vagamente, tipo: de onde mesmo conheço este cara? E aposentado agora. Sessenta e oito anos. Um metro e oitenta e tantos de magreza a lá James Stuart, lembram do James Stuart?, aquele gringo afiado nas leis que ficou com fama de ter matado o vilão e tornou-se senador à custa da ajudinha que John Wayne ofereceu na forma de um tiro bem dado no fascínora asqueroso do Lee Marvin e que veio a sofrer vertigem junto na hora de salvar a Kim Novak? Pois é, Miro. Sujeito que a gente olhava assim e pensava, pô, esse cara sofreu tanta humilhação, levou tanta porrada mas se deu bem no final. Taí, este cara é um mocinho, me dá teu autografo. Ai me sóri, ai donti ispiqui portuguize, tchau e benção, sai de fininho, o passo lerdo, meio gingado, os olhos apertados, satisfeito com aquela efêmera glória, deixando para trás um queixo caído, uma dúvida e o coração palpitando, o que seria: epifania, revelação? Será isto que a gente procura, nestas nossas vidinhas sempre iguaizinhas, rotineiras, tediosas, será devido a isto que a gente faz das tripas coração para não acreditar que vai ser sempre assim, sem novidade, sem aventura e até morrer por conta disto por não aguentarmos a expectativa do e aí e agora, que vamos fazer?, essas coisas que ficam remoendo por dentro quando a vida chega ao esse tal ponto de irreversível perplexidade? E então, para onde agora? Ali já fui, lá também... seguir a rua principal, continuar seguindo a rua principal desta cidade onde a pessoas nunca se encontram, estão sempre fração de segundos defasados uns dos outros, embora sejam sempre as mesmas pessoas e mesma a vida dura, curtida, ressecada de quem ralou para chegar aos sessenta e oito, funileiro e artífice da forja, moldador de calhas e portões e panelas e bacias e que pensara apenas em pragmáticamente sustentar seis filhos, duas mulheres, uma ou outra bebedeira, que ninguém é de ferro e o corpo pede carinho em vez de marteladas a maior parte do tempo e agora, o que tinha: tempo, só tempo? Filhos crescidos... e as mulheres? Deixa pra lá: estão bem e a saudade mata, não quer morrer ainda, não pensa nisto, não quer pensar nisto, agora que tem todo o tempo para si e nenhuma preocupação a não ser organizar o dia e buscar aquele pequeno prazer, prazer pequenino, insignificante, diferente de todos os prazeres que buscara anteriormente porque, pensou Miro, sozinho no apartamento, sem ninguém para lhe solicitar o que quer que fosse, e ele disse, bom, agora é comigo, agora é só para mim, sem se sentir nem um pouco egoísta por encontrar-se diante da ilha desconhecida, qual velho cauboi solitário da sua velha infância passando agora diante de seus olhos azuis e cintilantes, ainda cintilantes, enquanto imaginava cartas para Mary Pepper, ah Mary Pepper, sua gringazinha morena, redondinha como uma joaninha... Mary Pepper, que um dia conhecera e nunca mais vira... Mary Pepper, Mary Pepper... lembra a novela no rádio que ouvíamos juntos? Jerônimo, O Herói do Sertão? Eu era o Jerônimo e tu a Aninha, lembra? Quantos anos tínhamos? Isto não importa Mary mais. Se tivesse seguido contigo estaria agora lembrando daquela noite de chuva, eu com a cabeça no teu colo e tu fazendo espirais com os fios dos meus cabelos?, lá onde o vento faz a curva, lá que não existe mais, lá onde tu estás Mary Pepper... Mary Pepper, minha pequena, se fosse um pioneiro Miro diria. Que desproposito. Qual proposito tem um cauboi a não ser viver em busca de proposito e acabar deixando tudo para trás. Miro, penso, mastigava isto enquanto andava pela rua principal a perambular os olhos pelas vitrines na esperança de encontrar algo pequeno, ínfimo, algo nunca notado antes, que só ele veria porque seus olhos azuis protegidos pelas pálpebras apertadas continuavam buscando sem saber bem o que seria mas não desistia e olhava enquanto passeava as vitrines, nesta ou naquela rua, shopping até ia, vez ou outra viajara para outra cidade para buscar outras ruas com outras vitrines, pensou em dar a volta ao mundo, por cidades do mundo, não todas, era impossível, impraticável, mas algumas e talvez quem sabe encontrasse aquilo que sem pestanejar saberia quando visse, aquele algo que seria como o sorriso daquela pequena que um dia feito chuva passou e deixou um cheiro bom de terra molhada na vida de gente, assim, um perfume de flores de algum jardim suspenso em plena primavera qual aquele em que se sentira naquela noite em que ficaram ali no silêncio naquela casa no fim da rua, ouvindo aquela novela, ligados no rádio e no outro, aquilo fora alguma coisa... Ah, Mary Pepper, não era isto que eu queria te dizer mas, vá lá, fica o dito pelo não dito e pronto, fiquei confuso, embaraçado e isto não é legal, afinal nós nunca resolvemos, esquecemos de perguntar, a gente nem lembrou de dizer isto um ao outro porque talvez não tivesse a menor importância, que importância tinha isto naquele tempo, naquela hora, hein? Bem, eu tenho que terminar, você sabe, colocar um ponto final, essas coisas, você sabe mas, eu só queria ficar ali, um pouco mais, ali, mudos, sentados, você e eu, Mary Pepper, minha pequena joaninha mas olha, não vá ficar vermelha nem faça aquela carinha que o gesto me amolece você sabe mas, preciso, tenho que perguntar, mesmo depois de todo este tempo, tenho que perguntar, me conta Mary Pepper: de quem gostavas mais, do John ou do James?


terça-feira, 20 de julho de 2010

De Dentro Para Fora

Meu avô sabia fazer de um limão vários litros de limonada. Desde cedo, solto na pirambeira, barriga inchada frieira, mercanciava pipoca, puxa-puxa e cocadas. Aprendeu na porrada sem nunca ter frequentado um banco de escola. Casou, teve filhos, montou freguesia. Com uma tropa de burros vagava pelo sertão comerciando cordel, agulha, misse, fazendas, rendas, bordados e tudo o mais que fosse passível de troca por notas de mil réis ou moedas de tostões. Dizia aos descendentes: quatro operações bê a bá assinar o nome e basta, a exibir uma cartilha ensebada dos novecentos e lá vão pedradas. No batente da porta principal de entrada na casa, uma bimba de boi trançada fazia às vezes de chibata. Apregoava que educação vem de berço e que para se ser doutor não se precisa de livros e que leitura demais enlouquece, amofina, dessem uma boa olhada no misael, aquele xodó da mãe dele, pobre coitada, aquele da mufa queimada de tanto chafurdar em alfarrábios tomos e compêndios o local exato do encalhe da velha arca do noé, vê se isso é lá ocupação de homem, o que passou, passou, quero lá saber do sexos dos anjos, se adão comeu maça ou romã, se o dia do juízo final é depois de amanhã, se do chumbo se faz ouro, se gavião dá dentada, vê lá se eu não pegue no pesado vai ter comida abrigo alpergatas para todo mundo nesta casa, aqui não, izabel, aqui a necessidade manda e utilidade obedece.

Contava depois das seis que conhecera um galego oriundo de angola que por aqui aportara na maior cara lisa e uma coragem arretada, a mão direita na frente, a esquerda logo atrás e que dormiu durante um bom par de noites em cima de engradados de cerveja tendo um saco de aniagem por coberta, aos sábados lavava e secava as únicas calça e camisa num velho fogão de lenha enquanto tomava banho de caneca nos fundos da mêágua que servia de depósito e dormitório pros empregados da loja de carregação do seo nequinha, agora vai lá ver, é dono de engenho lanifício curtume e padaria, tirou a família do buraco, tem mansão, conta no banco, marinete, dúzias de boi no cercado e cinco advogados para administrar-lhe o legado. Quem se importa que o digam ladrão, e daí se tem dois pesos e uma medida, só vai pra frente quem sabe onde o calo lhe dói mais, oportunidade é o que não falta nesse mundo de donos gerentes e capatazes e encerrava o sermão com velha frase desbotada: tenham tento e tomem tino, cobra que não anda por acaso engole sapo?

Adorava um almanaque o meu avô, sabia até de marés lá nas brenhas do sertão, pra que, perguntava o povo, ele dizia sei não, vai que o sertão um dia vire mar e o mar acabe sertão, além do que preciso saber das cotações, das efemérides e das festas dos barões, fatos que apontam exaustivos cuidados no ramo das necessidades nessa terra de caolhos, sorte a minha trazer os dois olhos muito bem arregalados. Filosofo, meu avô e prático e cético: essas lambanças de academia é pura conversa de padre e todos conhecem a fama dos que rezam ladainhas. Duas pragas neste mundo assolado de porteiras, padre e professor, chupins do esforço alheio às custas de filigranas e lições de brocados, tudo coisa de mulher, que profissão de cabra macho é produzir e vender.

O velho gostava de arengar na praça: o que vale mais, experiência ou educação? O pau que nasce torto não tem jeito morre torto, mais vale um salário na mão que cinco canudo enrolado e não lhe abalava a ausência dos esses, não conhecia plural, viveu no singular estado de que tudo sabia daquilo que só a ele competia. Quando minha vó morreu, a família evaporou e meu avô tal qual o Paulo Honório deitado num jirau, embatucou no porque a gente nasce, cresce, vive e um dia, sem que nem pra que, simplesmente morre.

Tudo isto para dizer que, ao ler num blog de literatura o seguinte achado “estar preparado não é ter diploma, todos sabemos de um personagem que não tinha diploma e chegou a presidente da república”, foi o mote pra eu fazer uma visitinha ao meu avô e acabei por pensar que a grande coisa que tu, meu estimado Lula, agora feito ícone do self made manismo, poderia fazer para entrar definitivamente pra história como um verdadeiro benfeitor e líder inconteste da nação brasileira, seria prestares vestibular numa faculdade pública de engenharia mecânica, cumprir os créditos com louvor e mostrar com todas as letras que caco velho sempre pode dar um bom caldo e que nem só de celular, aipode, bluray e televisão de plasma vive o homem. Talvez assim possas fazer pela educação o que fizeste pelo econômico porque, contigo aprendi: as verdadeiras mudanças são aquelas que acontecem de dentro para fora.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Lembrança


Ficamos assim:
Felicito-os, meus companheiros de julho
Meus gentis companheiros de julho
Ricardo Novais, Zatonio Lahud, Marcia Luz...

Por nossos encontros e desencontros
Por nossas semelhanças
Por nossas interrogações
Por nossos anseios
Por nossas palavras
Por nossos silêncios
Por nós...

E por vós
Por todos os que nos vierem
Por todos os que nos lembrarem
Por todos os que nos restarem
Por todos os que nos faltarem
Nesse meio de todo ano


sábado, 17 de julho de 2010

O Trabalho e os Dias

Éramos fortes, poderosos e belos mas, o duro ferro destruiu nossa morada e desenhou opaca a menina dos nossos olhos.

Recolhidos à ilha dos nossos corpos, vimo-nos diante das lembranças dos nossos altivos antepassados.

Afrouxados por instantes os nervos tensos, reverentes ouvimos saudosos suas histórias acordarem nossos debilitados propósitos.

A barbaria havia vencido mas não havia derrotado os eventos, as sagas, as lendas e as canções que fizeram a glória do nosso passado.

A vingança tecemos em versos. O ímpeto grosseiro dos nossos algozes cedera à excelência das nossas vozes.

Liras, alaúdes e guitarras choram agora nossas mágoas, cultivamos na dança a cadência graciosa dos nossos corações cheios de dores.

Incerta e obscura é a linha do futuro. Nossos olhos não enxergam distante, ó limite tão humano!

Perigos e ameaças persistem mais adiante sim, tais quais os manifestos que sofremos.

Por isso decidimos que não há porque temer os fantasmas da nossa ensandecida ignorância.

Tememos o aço que nos expõe as entranhas, tememos a rudeza que infama o brio.

Tememos ficar entregues à paixão e ao arbítrio, sermos governados pelo irracional capricho.

Tememos a cegueira da omissão e do esquecimento nós, os devotos intransitivos da musa imparcial.

Filhos, cantem o esforço dos vossos pais. Pais, afastem os tormentos dos vossos mortos e exaltem, humanizem a vida com trabalho e justiça.

Libertos das fadigas, misérias e angústias, inauguremos, irmãos, essa pátria indispensável e contemplemos radiantes a posteridade renascida.


quarta-feira, 14 de julho de 2010

Disritmia

Se entre a fala e o gesto
Sobra espaço, que faço
Entorto a vida ou pari passu

Boca, refreia tua língua
Frívola

Mão, segura o teu braço
Voraz

O inferno brutal do instante
Incendeia a vontade

Cega a frágil chama
Que vela envolta de caos

- Brilha, brilha, estrelinha

sábado, 10 de julho de 2010

Quando chego

ela diz que escrevo bem que gostaria de saber escrever mas que não consegue o melhor digo é sincronizar os pensamentos com os movimentos dos dedos no teclado como se tocasse música sem premeditar planejar só começar aos poucos algo surge espero isto que quero quando permito escapar dos martelos na cabeça escrever virou obrigação melhor para mim para você mais próximos nós vamos indo como quem anda assim em queda livre nas nuvens não é assim a vida

não tem segredo eu não disse mas ela insiste que gosta ela me obriga não posso evitar ela gosta e não pergunta mas eu penso no amanhã continuar será que ainda vai gostar importa se gosta ou não gosta considero melhor continuar e deixar e abraçar o elogio que ela me fez logo que entrei na sala e senti que ela queria que eu contasse algo que animasse o dia pois estava com o rosto tenso e me pareceu que algo a pressionava mas isto é normal vivemos sob pressão o tempo todo temos que ser melhores criativos é assim hoje em dia todos querem bem e direito matar um leão com gosto de vitória é isto todo dia espetáculo coisas interessantes estilo todo dia

a porca torce o rabo porque não é todo dia que a gente está assim disposto inteligente engraçado assertivo porque tem dia que a gente quer que o mundo inteiro dê um tempo e ninguém pergunte e aí como vai como tem passado qual é a nova qual é a boa a nova a boa a boa está se vestindo logo logo vai aparecer ali por aquela porta toda sorriso e alegria contagiando nossos corações e mentes porque é assim que vivemos sempre à espera daquela atualizada legal porque vivemos cercados amarrados atados tarefas obrigações

compromissos afazeres que nos levam a acreditar que é só isto que só existe isto que a vida é um eterno não tenho tempo preciso fazer fazer fazer quando é mesmo que vou conseguir partir conhecer a mim mesmo o que é que me satisfaz de verdade mas que coisa você já partiu há muito tempo só não se deu conta que partiu e de repente os meios as ferramentas que se tem não te dão respostas e aí vais ter que apelar porque será tudo ou nada e não vai haver meio termo ou vai ou racha e se não prestar atenção vai passar como passam as nuvens e você não sentiu o que te atingiu tão sem tempo estava

não é sempre de repente é sempre bum quando menos a gente espera bum porque assim é que é bom assim é que é legal se a gente trouxesse tudo na ponta do lápis tá louco e a surpresa e o encanto do instante daquele instante que surpreende daquele acaso que pega a gente no fio da meada é bum lá vem ela a gente se encontra prazer um prazer singular um prazer que só ela dá porque é nisto que ela consiste e não adianta é você com você mesmo é você com teu jeito dando um jeito de se surpreender de se olhar de outro jeito de outro modo porque ficar neste negócio de não tenho tempo e fazer fazer fazer repetir o mesmo fazer o mesmo procedimento a mesma atitude o mesmo bom dia o mesmo como vai o mesmo até amanhã e nesse meio tempo só lambança firula é só insatisfação porque a gente está vendo mas não está olhando e pensa que não lá vem aquela hora

preciso de sossego para escrever alguma coisa e manter a admiração que ela tem por mim porque penso que ela gosta mesmo do que escrevo porque ela sorri quando diz isto vejo brilho nela e isto me agrada me eleva e fico devedor preciso aumentar o crédito mas tem limite devo pensar no orçamento um orçamento criativo todo mundo tem um orçamento todo mundo tem um deve e todo mundo tem haver e tem que ter equilíbrio nesta equação

senão o bicho pega e se vacila a casa cai como já caiu várias vezes e agora que o equilíbrio foi restaurado com a providencial ajuda dela porque sem ela eu estaria em papos de aranha mas agora estou em equilibrio graças a ela esta alegria não é isto que todo mundo quer no final das contas alegria e com alegria quem sabe o espetáculo seja possível porque afinal de contas não basta ganhar é preciso ganhar com alegria

desculpa por fazer você ler esta cascata sem qualquer pontuação é trejeito modo de fazer você prestar atenção em outro jeito de dizer coisas e alegrar o dia porque não vou com pressão pressão sabe por acreditar que está tudo pronto e o que resta mesmo é a gente se tornar professor de melancolia como se já não bastasse todos os professores de melancolia por aí a fora isto não não quero preste atenção um teco de atenção preciso que preste atenção neste movimento de cair

um dia e olhei tudo estranho e não compreendi nada e não encontrei respostas e cai das nuvens e não quero mais chegar a não ser aqui mesmo próximo e tão estranho para sentir que você me é familiar naquilo que estranho familiar veio bem a calhar antes de continuar caindo no fundo no fundo este mergulho é meu rodopio minha queda livre na direção do teu elogio pois cuida quem conquista um abraço e finda esta música adeus tchau e obrigado


terça-feira, 6 de julho de 2010

Esses Gregos... Primeiro nos deram a Democracia, agora Kanellos


Se o vissemos passar por nós em plena avenida, não daríamos a mínima bola. Talvez nos chamasse atenção a sua cor de canela e a coleira azul que portava ao pescoço. Mas ficaríamos nisso, mesmo porque estaríamos com pressa para saldar algum compromisso, por exemplo, e não íriamos perder o nosso tempo prestando atenção num vira-lata qualquer, dos quais as ruas estão cheias e o que faz a prefeitura que não dá um jeito nisso? E seguiríamos certos de que alguém sempre vai tomar uma providência afinal pagamos impostos para que?

Nasceu macho e de rua. Em 2004, por conta da realização dos Jogos Olímpicos de Atenas, como vários da sua laia, foi capturado, vacinado, castrado, etiquetado com uma coleira azul e devolvido à rua, que era o seu lugar de fato e de direito.

Kanellos tinha tudo para ser um cão a mais, desses que acordam todo dia e vai para onde sua vontade o leve e a fome o conduza, sempre na esperança de um dia encontrar o osso dos seus sonhos.

Mas quis o destino que fosse encontrar-se no campus da Universidade de Atenas. Aceito nas reuniões dos estudantes, teve logo completa sua formação revolucionária. Combatente intrépido, cultivou o saudável hábito de ir às ruas realizar a seu latido de protesto por causas dignas de serem protestadas sem temer o gás, o jato d'água e as balas da força policial.

Engajado até o rabo na luta pelo direito dos povos tomar satisfação dos desmandos e falcatruas de maus políticos, Kanellos se viu alçado a condição de vanguarda canina da revolução permanente. Largou de vez a viralatagem e tornou-se um indivíduo, um verdadeiro cão indivíduo, o mais indivíduo que já tive notícia nestes meus lassos e acanhados anos de vida.

Indivíduo no bom sentido - porque tenho na memória a declaração de um certo ocupante de cargo público que nos repreendia dizendo que cachorro também é gente, só para justificar gastos com cabeleireiro para sua cadelinha de estimação à custa do nosso suado dinheirinho. Penso num indivíduo, tipo indivíduo cidadão, que sabe onde o calo aperta e de que lado ficar e contra quem latir quando o referido geme e grita.

Sim, porque há espécies de indivíduos que mesmo com a pedra no sapato excatembando o pé, não se dá o luxo de ao menos seguir a máxima que ordena queixar-se ao bispo. Não, preferem aguentar de bico calado, sorrindo e acenando pra mamãe, como se vivessem um eterno roletrando televisivo. Esta casta, quando muito, engrossa estatísticas a favor da tradição e da propriedade e do direito de alguns ao privilégio. Muitos são chamados mas poucos os escolhidos e o bom cabrito não berra, já dizia a mulher do malandro.

O mais incrível disto tudo é que Kanellos faleceu em 2008 porém, em 2010, durante os protestos contra o arrocho fiscal decretado pelo MCE ao povo grego, a sua memória se fez presente na figura de outro cão cor de canela que atende pelo nome de Louknikos, o continuador da luta deste personagem digno de um momumento em qualquer praça pública.

Que o mito de Kanellos sobreviva e nossos netinhos possam ouvir, nos futuros bancos escolares que, no Olimpo, junto com Zeus e companhia, figura um da espécie canina arretado pra dedéu.

Evoé, Kanellos!


sexta-feira, 2 de julho de 2010

Velha Fonte

Velha fonte, Maíra,
Cadê teus varões, amada?

Cercada de ilhas ralas,
Leito frouxo de carícias
– Realismo extenuante...
É este o resultado do teu pragmatismo,
Um relés beijo de moeda?

Onde os templos, guerreiros, armas, jornadas,
Ó presença incauta de soldados?

E essa dor povoada de embustes
Contínuos parasitas de histórias
Novos ricos em catedrais fabulosas
Caótico melodrama somatizado de pragas

Oh, Maíra, ervas não te bebem mais
Filtros não te alucinam
Chutaram tuas artes em teimosos carnavais

Diremos algum dia a palavra mágica
Que drible o lodo que ruína tuas veias?

Todas as palavras travaram, Maíra
Restou esta síntaxe, o eco destas frases
Retórica pueril, vazia de nome
O nome que não tens mais