domingo, 31 de outubro de 2010

Abril

Vou por ali!
Eu não, vou por lá.
Eu fico aqui.
Esta família não existe.
A família sou eu, onde quer que eu vá.
Papai e Mamãe não pensariam assim.
Papai e Mamãe já eram, agora cada um é dono do seu próprio nariz.
Eles gostariam que permanecêssemos juntos.
Eu gosto do azul, você do vermelho e ele do verde... e aí, como é que ficamos?
Uma família arco iris!
Eu não sou gay, já disse.
O problema não é este.
E qual o problema?
A fortuna dos velhos.
Cada um leva sua parte.
Um terço para cada um.
Discordo, metade para mim porque cuidarei da memória, dos órfãos e das viúvas.
O cacete! É um terço ou nada feito.
Quero me garantir que vocês não repetirão a parábola.
O que faço com minha parte só a mim compete.
Sugiro uma arbitragem.
De quem?
Alguém de fora, isento.
Hum... sei não!
É pra pensar.

Era a deixa que precisava para adentrar em cena o Homem que Espoliava.


domingo, 24 de outubro de 2010

Março

Houve um tempo em que os reis andavam no meio do povo, estimulando as pessoas a viverem sem hostilidade e a conviverem em harmonia com a Natureza. Nessa época, as sombras não assediavam os humanos pois o governo era exercido com humildade e todo conhecimento estava voltado para tornar a vida menos atribulada. Os maus elementos não prosperavam, pois todos eram influenciados a mudar para melhor.

Conta-se que certa feita, o Duque de Yon, visitando sua província, deparou-se com um homem sentado na entrada da sua casa, coberto de trapos e chagas. Tudo em volta era ruína e desolação. Os campos tomados de ervas daninhas, o curral abandonado e o celeiro vazio. O campones estava só e chorava a miséria que se abatera sobre ele após ter contraído moléstia paralisante que já levara sua família ao túmulo.

O duque apeou do seu cavalo e convocou seu estado-maior para uma reunião de emergência, ali mesmo, na beira da estrada. Após rápidas considerações, ficou acertado que um destacamento cuidaria de recuperar tudo que fosse possível e providenciaria o que faltasse para o bom desempenho da fazenda. Ele próprio, o duque, iria cuidar das feridas do homem e dali não sairia enquanto não o visse gozando de boa saúde, apto para tocar os seus próprios negócios. Uma equipe foi formada para investigar a causa da moléstia, os meios para controlá-la e formas de erradicação, já que não era apenas aquele lugar que estava ameaçado mas toda a província e também os seus vizinhos, próximos e distantes, caso aquele mal se espalhasse. Mensageiros foram enviados aos quatro cantos do reino, para darem ciência do que acontecia naquele remoto ponto, conclamando a todos aqueles que, porventura, detivessem algum conhecimento que pudesse contribuir para a rápida solução do problema, para dirigirem-se imediatamente àquela localidade.

Algumas semanas depois, com a causa da doença descoberta, maneiras de prevení-la elucidadas, a fazenda plenamente recuperada, viu-se nos olhos do campones um brilho de saúde e confiança. Os muitos que acorreram, com seus préstimos e sabedoria, trouxeram também novas e urgentes necessidades, no que foram ouvidos e todas as providências diligenciadas.

Concluída aquela primeira etapa da sua viagem, o Duque de Yon, rendeu homenagens aos antepassados ao perceber que aquela forma de governo sem sede fixa havia sido uma boa escolha e continuou sua jornada em direção aos problemas e às suas aguardadas soluções.


domingo, 17 de outubro de 2010

Fevereiro

Alcides nunca castigou um filho.
Nunca precisou.
Nutriu, educou, instruiu os noves.
A sua venda de secos e molhados já mandara dois para a faculdade.
E não foi à custa de pesos falsificados, não!
Que Alcides, podem duvidar, nunca vendeu gato por lebre.
Nunca ninguém ouviu de Alcides uma só palavra desagradável, nunca ninguém presenciou um gesto seu que pudesse ser censurado.
E olha que ele se meteu em poucas e boas que não me autorizo contar.
Não era covarde, não.
Não enjeitava parada mas era justo.
Homem de palavra.
Ao que consta, frequentou a escola até o terceiro primário, teve logo que pegar no pesado depois que perdeu o pai.
Quando não tinha nada para dizer, sussurrava: tudo passa!
E ia abraçar a mulher que o acompanhou, sem culpa e sem reparos, durante toda a vida.

Alcides só tinha um porém, que não dá pra ser perfeito em tudo.
Gostava de caçar.
Caçava de tudo: veado, teiús, paca, tatu...
Fazia parte de um grupo fiel, uma confraria de caçadores, tinham estandarte e tudo.
Nas paredes da venda, ficavam expostas as armas, as cartucheiras, os gibões, os chapéus de couro... de vez em quando duas ou três emas enfeitavam o balcão como provas do sucesso.

Pois é, além da paixão pelo nobre esporte da caça, exibia também dotes de folião.
Nos quatro dias de Carnaval, juntava os filhos e os amigos para, munidos de latas velhas, batucarem pela cidade uma indecifrável marchinha: “Quebra, quebra, Quabiraba/Quero ver quebrar/ Quebra lá que eu quebro cá/ Quero ver quebrar”.

Não havia coreografia, não havia evoluções, não havia gingado, só aquele passo arrastado, xelepe, xelepe, xelepelepe.

O mais interresante é que faziam esta exibição vestidos a caráter, com todos os paramentos daquela instituição, uniformes, estandarte e algumas caças recentes pendurados pelos quartos.

Detalhe: por cima das indumentárias de guerreiros, peças e penduricalhos feminimos cedidas, meio a contragosto, pelas esposas, filhas, mães e irmãs.

Ay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás!


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Minha Colher no Angu II

Não vi até agora nenhum empresário dizer qualquer coisa de ruim do governo Lula. Não vi nenhum empresário derramar-se pela mídia apregoando que Dilma representa uma ameaça para o Brasil, muito pelo contrário... Paulo Scaf, presidente da Fiesp e candidato a governador de São Paulo pelo PSB, logo após a apuração do primeiro turno, não vacilou em declarar seu apoio ao projeto da continuidade do governo Lula. Porque é isto que a Dilma representa: a continuidade do processo de inclusão social que este país viu acontecer a despeito de, no passado, Mário Amato, sair de cutelo em punho, nos ameaçando com o caos, caso Lula vencesse a eleição.

Não vi os Ermínios de Morais, os Setúbals, os Odebrechts... não vi nem ouvi nenhum usineiro por aí declarando o voto no adversário, no antibrasil que insiste em esconder-se por trás de das mentiras e calúnias, propagadas a soldo por terceiros, posando de “bom moço”, defensor da moral e dos bons costumes, um adversário que teve o desplante de, quando governador nomear um engenheiro para a Dersa, a mais de 20 anos amigo pessoal do eleito senador por São Paulo, Aloyso Nunes, seu braço direito, para depois chegar em público e dizer que nunca ouviu falar na pessoa. Cadê a coerência? Coerência é o que vemos com o projeto iniciado com o governo Lula. A revolução que vemos acontecer está beneficiando a todos, viu, a todos, afinal um jogo só é bom quando todos saem ganhando. E todos saem ganhando quando há espetáculo, quando o jogo é limpo, quando os craques jogam o que sabem, jogam bonito e a galera vai ao delírio.

Quem está descontente com a atual política economica e social? Descontentes estão aqueles que, no passado, perseguiram, torturaram, assassinaram e hoje tremem nas bases ao verem que uma ex-guerrilheira comandará o país; decontentes estão aqueles que se locupletaram com os 20 anos de ditatura neste país e agora posam de democratas, na maior cara de pau; descontentes estão aqueles que sabem que a Polícia Federal está fortalecida, que foram mais de 1200 processos contra corruptos, sanguessugas e parasitas; descontestes estão os aiotolás, mulás e talebans do nosso lado cultural mesquinho, eunuco e trevoso; descontentes estão aqueles acostumados as carteiradas, ao “sabe com quem está falando”, aos que nas filas do aeroportos torcem os seus narizes plastificados para o povão que estão perdendo o medo de avião; descontentes estão aqueles acostumados a apostarem no desequilibrio economico que nos fazia desvalorizar nossa moeda a cada 30 dias, tudo para encher as burras do capital especulativo e do velhos defensores da tese de que o bolo precisa crescer para depois dividir.

Aqui pra eles! Este tempo acabou, meus caros. E não haverá revanche, sabiam? Porque sobretudo ninguém, ninguém amiguinhos, sairá pisoteando as leis como vocês fizeram em 64, cambada de mequetrefes, abutres do fígado alheio!

O país chegou a um consenso a respeito do fortalecimento do mercado interno. E como se faz isto? Com a inclusão daqueles que a 500 anos estiveram alijados do processo. Foi um passo gigante, um passo que foi dado e tornou-se vitorioso, porque todo mundo viu que é possível sair do atraso e alavancar o futuro com uma nação unida, com uma democracia fortalecida, com uma perspectiva de futuro.

Acusam o PT de ter aparelhado o Estado Brasileiro! Balela, conversa pra boi dormir. Pergunto: e antes, o estado estava estava aparelhado por quem e para quem? Não havia aparelhamento, é? Ou vocês acham que o governo Lula devia nomear os mesmos cupinchas vossos? A massa de homens e mulheres que foram forjados na luta pela liberdade e pela justiça neste país deveria ficar fora do governo? A troco, cambada de sacripantas? Mentes que aprenderam que governo bom é governo para todos, deveriam estar fora do poder? Só porque vocês querem!

Os caras são tão desarvergonhados, que usando de táticas conhecidissímas cooptaram pela mídia o voto verde. Marina agora está pintada de azul. Só porque eles querem! Pensam que a acreana vai deixar barato. Não conhecem a história do Acre, nunca ouviram falar de Plácido de Castro, subestimam a alma seringueira.

Mas a vida continua, vai continuar meus amigos. E vai continuar com o terceiro ato da peça que esperamos 500 anos para começar a escrever e agora está no palco e em longa temporada. É Dilma, para o Brasil seguir mudando, avançando, rumo ao país dos nossos sonhos e não dos nossos pesadelos.

Àqueles que não concordam, não apoiam estas teses, respeito e peço encarecidamente que respeitem a minha dignidade, a dignidade da minha mãe que mesmo preferindo o Serra (algumas mulheres ainda não confiam umas nas outras, corroborando o que um velho amigo dizia: “mulheres são incapazes de amizade, no máximo que conseguem entre si é cumplicidade, será?), ficou estarrecida com a quantidade de e-mail's que recebi propagando que a candidata Dilma é isto, aquilo, aquilo outro e muito mais, uma enxurrada de infâmias só comparável a uma execração e apredejamento público.

Olhem, se vocês são tão coerentes assim, sigam de fato o vosso líder que, canhestramente, apregoa: cabeça erguida e CORAÇÃO LEVE! Lembrem-se, não se faz política com rancor, afinal política é a arte das possibilidades e não dos dogmas. Porque dogmas todos nós já vimos o que produziram ao longo da história e ainda hoje devasta metade do mundo, mantendo dividida a nossa humanidade.

Portanto, viva a Vida! Viva a Mulher! Viva a Sensibilidade Poética! O Sonho não acabou, não acaba e não acabará jamais enquanto houver uma indignidade sobre a face da nossa querida, única e amável Terra.


domingo, 10 de outubro de 2010

Lua Nova Iracema Mulher

Lua nova rompante e estes instantes de ti
Em manhãs de primavera, meus dias serão sol
Minha alegria tic tac nas horas, minha aurora, crepúsculo
Meu momento de paz é assim, porque

Gosto de gostar de ti, minha flor, meu jardim
Meu céu, meu mar, meu tudo enfim

E quanto as minhas faltas, minhas perversas omissões
Essa danada arrogância, medo mesquinho em teoria e prática
Ness'água meu veneno, a terra que pisoteio e que rasga meu suado arado
Não seja em diante assim, porque

Gosto de gostar de ti minha flor, meu jardim
Meu céu, meu mar, meu tudo enfim

Tu, árvore frondosa, frutos que colherei, lábios que beijarei
Mel que sorvo e sorverei, castelos que pensarei
Caminho que andarei, batalhas que travarei
E a paz que construirei, porque

Gosto de gostar de ti, minha flor, meu jardim
Meu céu, meu mar, meu tudo enfim

E se um dia pensares em me deixar, não
Nunca porque findou, mas para que sobreviva
O amor que me jurou, pois gosto de gostar de ti
Assim, minha flor, meu jardim
Meu céu, meu verde mar, meu tudo

Pois enfim um dia inundaste meu peito de saudade
E me fizeste querer o querer que assim me dedicaste
E quando um dia alcançar a liberdade de buscar o pouso da tua sacada
É que todas as minhas angústias terão sido dissipadas
E eu, encontrado o graal serei herói, um verdadeiro poeta
A cantarolar no teu ouvido: cheguei amada
Minha Fréya, minha fada, deusa do meu viver
Aqui me tens para o que der e vier.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Janeiro

Os preparativos para o final de semana foram conduzidos nos mínimos detalhes. Todos participaram ativamente e com bastante entusiasmo, embora:
Aninha estivesse em tratamento quimioterápico;
Jorginho, cheio de dívidas;
Amelinha sem nenhuma ideia de como arranjar dinheiro para pagar a faculdade mil quilometros distante de casa;
Genoveva, desempregada a um ano, para não ficar fora daquela que poderia ser a sua oportunidade de dar uma folga à gastrite, não teve outra saída senão pedir novamente dinheiro para o pai;
Carlos e Selma que vinham a tempos trocando olhares e frases cifradas, vigiados de perto pelo Aluisio (que, todo mundo sabia, puxava um bonde por ela e era muito esquentado), não deixaram por menos e marcaram presença, mesmo correndo o risco de serem pivôs de algum barraco;
Macedo que só pensava em política, iria fazer seu proselitismo de praxe longe do Sergão que fazia de tudo para desacreditar as eloquentes preleções do vizinho;
Zizinho, munido de um terço e um patuá devidamente acomodados na carteira, aproveitou uma horinha, na sexta, para cumprir duas promessas, uma para São Judas Tadeu e outra para Nossa Senhora do Remédios – não se sabe bem a graça, ou as graças, que ele tenha alcançado;
Casimiro que só dormia com a luz acesa, concordou em dormir na varanda para não incomodar ninguém no apartamento do avô da Micaela que, desde o dia primeiro, encontrava-se em Peruíbe à espera dos amigos e conhecidos;
Ciço que tomava todas e mais algumas, abasteceu-se como pode, tudo muito bem mocosado para não atrair para si a ira da Felícia que estava contando os dias para chutá-lo de uma vez por todas da sua evangélica vidinha;
Adalberto era meio paranóico, relutou no ínicio mas, acabou por concordar em maneirar um pouco a sua monumental imaginação;
Carmela era feia de dar dó mas, naquele vestidinho estampado com margaridas e chapinha no cabelo tinha tudo para fazer esquecer aquela inferioridade aos olhos de Gustavo, viciado em televisão e que gastava uma nota preta com tratamento de pele na esperança de acabar de vez com a acne que lhe roía as faces;
Santos, com aquela vozinha de alvinho, era metido a machão, vendedor de consórcios, seguros e planos de previdência e odiava futebol;
Toinho, policial, nunca andava desarmado, nem quando ia ao banheiro, venerava o Palmeiras;
E, por fim, Marisa não fez nenhuma objeção à presença da ciumenta Rosália, segunda mulher do Augusto (seu atual) e seus dois meninos endiabrados.

Vamos, digam: vocês imaginaram farofaria, fanfarronices discussões, palavrões, brigas, baixarias... quem sabe uma tragédia? Pois é, sinto decepcioná-los. Tudo transcorreu na mais perfeita harmonia. Não houve um ato sequer de egoísmo, de ignorância, de grosseria, de malquerença, de dissabor... Incrível o nível de suavidade, gentileza, carinho e cuidado com que cada um tratou o outro. Janeiro tem destas coisas: a gente quer sempre começar com o pé direito.