domingo, 28 de novembro de 2010

Agosto

Futebol é uma caixinha de surpresas. Não faço idéia de quem cunhou a frase mas bem poderia ser o Nelson Rodrigues, lenda que é. Também nem sei se a autoria importa. O capixaba Zatonio Lahud lembra que no Brasil não importa o fato mas a sua versão, citando não sei quem, certamente um mineiro, seu vizinho.  O negócio é que compreendi o sentido da frase após assistir a partida final do campeonato conquistense de 1962, entre o Beabá Futebol Clube e a Associação Atlética Imortais do Alto Maron. Na minha tenra meninice vi logo que não era dotado de talento para o nobre esporte bretão mas isto não me impedia, e até hoje não impede, de apreciar o balé que é este corre corre de vinte marmanjos e/ou marmanjas dentro de quatro linhas em disputa pela posse da uma esfera de couro. É uma dança mítica, de acesso democrático. Futebol é o único esporte do mundo onde até perna de pau tem vez.

Mas não é disto que quero falar. Quero falar do imponderável que reina absoluto durante os noventa minutos de uma partida. Por mais que se tenha regras claras e definidas, juízes, tribunais de alta alçada, técnicos, preparadores físicos, psicólogos, administradores e hoje em dia a presença maciça da imprensa televisiva, cobrindo com suas lentes, cada lance, cada detalhe, sempre é possível que o acaso faça sua entrada e confirme ululante o óbvio assinalado pelo Rodrigues. E é isto que todos esperamos, que ansiamos, ao nos dirigirmos a um estádio, a uma quadra, a um terreno baldio para presenciarmos o imprevisível fazer das suas, juntando circunstâncias e criando a magia do encanto efêmero do momento para depois, dependendo da memória dos participantes, eternizar um instante.

Foi o que aconteceu naquela tarde de calor abrasador que fazia tremular o chão de terra vermelha do recém inaugurado estádio Lomanto Júnior, que deveria chamar-se Lourival Cairo mas que, por força de uma intervenção do destino, cruelmente manejado, foi preterido em nome dos interesses pessoais, também conhecido como governabilidade.

Bocão era o técnico do Beabá e vinha para a partida com o impedimento de não poder abrir a matraca durante o jogo: teria que permanecer calado, sob pena de expulsão sumária das hostes futebolística do sudoeste da Bahia e quiça do Brasil. Não ganhara o apelido atoa. Daquela cloaca estávamos acostumados a ouvir imprecações do arco-da-velha, xingamentos em dialetos inconcebíveis, ordens e contra ordens montadas em gestos pra lá de censuráveis. Na época iniciara-se um esforço sobre humano, para atrair às arquibancadas coloridas plateia feminina daí Bocão ter que submeter-se aos ditames do mercado ávido por novos e fieis consumidores. A contra gosto, e bota contra gosta nisto, avisou que ficaria quieto, que ninguém saberia que ele estava em campo.

Bocão conseguiria cumprir a palavra? Um descendente de calabrês no comando de uma esquadra acostumada a trabalhar sob pressão, seria contido? Foram questões como estas que acabaram por lotar as vinte mil cadeiras que estavam sob investigação do ministério público, suspeitas de licitação fraudulenta, a causar embaraço à administração do prefeito Arlindo Matos, primo em segundo grau da mulher do governador. Mas isto não vem ao caso, não tem qualquer apelo literário, onde já se viu autos enfadonhos redigidos por escrivães sonolentos dar algum pano pra manga e se aventurarem a solapar a dinâmica de um conto?

Os primeiros vinte minutos foram de um cerca lourenço sensaborão, os times se estudando, bola pra lá, bola pra cá, sem qualquer movimento que merecesse uma ola por parte da atenta plateia de olhos e ouvidos grudados na figura raquítica que insistia em permanecer parado à beira do campo, ora a esquerda, ora à direita, ora de banda, ora de lado, ora com as mãos nos bolsos das calças, ora com a mão do queixo, ora coçando um olho, ora o saco, impassível qual estátua muda e paralítica, absolutamente impessoal, a nos impressionar com aquela pose zen se soubéssemos naquela época o que significa isto.

O time do Beabá, corria com os olhos voltados para o técnico e nós, atônitos, tentávamos entender porque Bocão não dizia um “a” quanto menos um “b”, calado estava, calado permanecia. A galera vaticinou: acabou, o Beabá já era. Se a alma do time estava impedida de se expressar, o que fariam Piolho, Sapeca, Mano Chefe, Dentada, Zoinho, Nego Toco, Bagre, Alvinho, Ciço, Caçapa e Zé dos Quibas diante de Indalécio, Ascânio, Ramos, Romero, Alexandre, Estevão, Moisés, Túlio, Capistrano, Barbosa e Assis, confiantes e animados pela voz de barítono do seu primeiro e único técnico, o inveterado professor de latim e boticário estimado, doutor Adalfredo Quaresma?

O Beabá murchou e a nós sentimos o baque. Os Imortais, sabedores do ponto fraco do adversário decidiram partir para cima. E não deu outra, aos quarenta e dois do primeiro tempo a rede balançou com um gol duvidoso do Barbosa mas ficou por isto mesmo porque o juiz, sem o recurso do moderno video teipe, não teve como conferir se houvera mesmo o impedimento alegado pelos amarelos e preto do glorioso Beabá.

O público contorceu-se impaciente, metade quis desistir e correr pra casa a tempo de ouvir mais um capítulo da radionovela Jerônimo, o Herói do Sertão, afinal estavam todos ali para confirmarem o mote que dá ensejo a esta narrativa e à vista de uma imensa frustração, regada a dezenas de roletes de cana, tinham para si que a tão aguardada surpresa não estava se avizinhando, conjugados todos os fatos e circunstâncias daquela insípida etapa inicial.

Mas, e tem sempre um mas, o Beabá voltou revigorado. Partiu para cima dos Imortais, com gana de predador, mantendo e sufocando o adversário em seu próprio campo até os quarenta do segundo tempo quando num lance arquitetado e nascido nos pés de pato do Piolho, a bola cruzou a pequena área e foi cair amaciada na canela do Zé dos Quibas que ajeitou a menina em dois toques, driblou o monumental Moisés e escorregou de trivela por entre as pernas de Romero direto para a canhota do Nego Toco que, azoretado, deu um bico volumoso na bola mandando-a no canto esquerdo de Indalécio. Foi um delírio. Parecia que a pátria tinha finalmente conquistado a liberdade, tamanha a alegria que tomou conta da massa. O único que permaneceu impassível foi Bocão, braços cruzados estava, braços cruzados ficou.

Mas o melhor estava sendo gestado nas entranhas do destino, naquelas profundezas fáusticas inacessíveis a nós, os comuns dos mortais, que só sabemos quando e como aconteceu após o fato consumado desfilar diante das nossas retinas qual uma onda encrespada de um mar de perplexidade e espanto a transbordar em nossos peitos infanto juvenis aquela alegria que, embora nos saibamos capazes, dizemos nunca estarmos preparados.

Aos quarenta e um da segunda etapa, bola saída pelos Imortais, quando pensávamos que o Beabá iria buscar a lógica, cavar o desempate e sagrar-se campeão naquele ano inesquecível, sentimos o queixo nos cair pelo peito ao constatarmos incrédulos que, num gesto de recusa, Bocão tomou o rumo dos vestiários, cabeça baixa, passos lerdos, a olhar cabisbaixo e tristonho, vez ou outra para a meta adversária. Não houve uma alma sequer no estádio que não voltasse seus dois olhos na direção daquele pequeno homem batendo em retirada. Ó Nélson, ele entregou os pontos! Ele desistiu, senhoras e senhores! Incapaz de ajudar seus pupilos através do uso da sua arma mais poderosa, a palavra, o que se viu foi um comandante, outrora intrépido, agora um derrotado, um frango mole, um fraco, um trapo, um farrapo humano. Sentimos que naquela hora a letra morimbunda da lei havia vencido o Homem. Nos demos conta que o futuro estava seriamente comprometido, o gélido caractere da lei matara o espírito arrojado da arte e que daí em diante ser criativo seria tarefa reservada aos revolucionários. Tenho para mim, a sensação de que a subversão desenhou-se evidente e iminente. Em todo caso, a perplexidade tolheu qualquer iniciativa individual.

O que vimos foi o Beabá recuando, recuando, até ficar completamente encurralado em seu próprio espaço, debatendo-se por entre os passes vorazes dos Imortais. A derrota humilhante era o desfecho esperado. Lágrimas ameaçaram brotar daqueles quarenta mil olhos, triste é ver alguém entregar o jogo. Porém, antes que a ameaça se concretizasse, viu-se um rompante, uma saída, digna das melhores crônicas. Pela ponta esquerda, o desengonçado Bagre, seguindo de perto por Piolho e Mano Chefe, três raios de sol por entre as nuvens escuras das tempestades; três silvos no emaranhado das matas; três trombetas de Jericó; três anjos vingadores; três luas cheias no esturricado chão da caatinga a anunciarem as chuvas de março e o pipocar das primícias; três blocos carnavalescos a descerem as ladeiras de Olinda ou Salvador a estufarem a autoestima dos nossos fiéis e esperançosos corações torcedores. Os Imortais, haviam sido atraídos para uma armadilha mortal, desculpem o trocadilho, mas foi o que vi, com estes olhos que a terra um dia há de comer, caíram feito uns patinhos bêbados e, na posse da descoberta do engodo, não encontraram alternativa senão aguardarem o apito final para abraçarem aquele mestre da arte do fingimento, capaz de dar a volta por cima fazendo uso da mais simples técnica da imorredoura arte da mímica, tão esquecida nos nossos dias. Foi o gol mais silencioso da história. 

O danado é que quando a gente saca uma tática, quando ela passa a ser conhecida de todos, perde a validade e o efeito. É, futebol é uma caixinha de surpresas mesmo, bendito Nélson!

domingo, 21 de novembro de 2010

Julho

Dorinha era moça bonita, jeitosa, falava e se vestia bem, cheirava que nem flor de laranjeira misturada com jasmim, alta, atlética, pele de veludo, cabeleira preciosa, dentes e unhas afiadamente cintilantes, covinhas num sorriso encantador mas, tinha um defeito: era desaforada, insolente.

José Wanderley era caxias, bem posto, relações excelentes, uma ruma de diplomas e fotos com personalidades na parede, citações em colunas sociais, trânsito livre, se não em todos, ao menos nos mais atapetados e limpinhos corredores e salões de portas escancaradas ao timbre do seu heráldico nome, estufava-se por compreender das armadilhas das aparências e dos meandros desta vida cheia de salamaleques e nove horas porém, arrastava um defeito: gostava de xumbregar.

Aplica-se aqui o ditado: juntou a fome com a vontade de comer. Dorinha queria mais, muito mais e Zé também, ah como queria, tremia de tanto querer. Conversa vai, conversa vem, ficaram íntimos, daquele tipo de intimidade que nem às paredes se confessa. Ele, a gozar daquele deleite, tratado a pão de ló, a ambrosia, a lambuzar-se naquele néctar qual menino que descobre todas as fantasias de um vasto e fecundo mundo de delícias. Ela, a dar corda e muito mais, pois desejava mais, via mais e queria além mas, o negócio, aquele aceite, que faz a alegria dos causídicos, notou, cuidava ele de, mineiramente, empurrar com a barriga um tantinho avantajada.

Quando é que vamos nos casar, Vavá?

Logo, Dorinha meu bem, logo. Deixa o tempo melhorar.

Mas tempo era coisa que Dorinha não tinha lá em muita conta. Começou a encontrá-lo à saída da repartição, no bar onde se reunia com os colegas para o repiaus, na igreja onde rezava o terço toda terça na companhia do devoto grupo do Sagrado e Trapassado Coração, até no cemitério ela apareceu, na primeira sexta do mês, onde ele ia, religiosamente, depositar flores no túmulo da estimada, saudosa e falecida esposa. E quando sentiu que era hora de lançar a carga da brigada ligeira, chegou em pleno expediente tonitroante muito afim de comida japonesa e de uma esticadinha ao chou do Vando, lá no Chinelão.

Wanderley pesou, mediu, isolou as variáveis, riscou e rabiscou umas equações, consultou gráficos, tabelas, planilhas, traçou uma curva de tendência logarítmica, fatorou os resultados e teve diante de si um quadro, se não dantesco, ao menos digno de qualquer filme catástrofe.

Foi bom? Foi. Mas chegou a hora do basta.

Euzinha descartada? Qual meia furada? Vandeco, fala sério, você acha que pode se divertir, comer do bom e do melhor, repetir o prato sem qualquer cerimônia e depois, assim na maior, chegar pra mim e dizer que não quer mais, que simplesmente acabou, que finito, caput? Olha, o meu tio, que o eterno o tenha em bom lugar, sempre dizia: melão é doce mas apodrece fácil.

É... meu professor de direito canônico gostava de repetir: rapadura é doce mas não é mole não.

Matá-la ali mesmo, diante de seleta audiência? Apertar-lhe a garganta, não!, simular acerto de contas, plantar provas, forjar ligações com traficantes, ou quem sabe afogá-la em banheira de hotel, eletrocutá-la com o secador de cabelos, talvez servir-lhe comida estragada, uma boa opção seria fazê-la beber o Tietê... Com uma boa banca, (e conhecia trozentas), poderia pegar uns quinze... cumpriria três em domicilio... Ah, a vida é bela!

E pode tirar desta sua cara sem vergonha este ar de quem maquina uma conspiração contra minha pessoa, sei muito bem me defender, viu! Está vendo estas unhas? Já abriram uma avenida na cara de um sujeito duas vezes maior que você, seo moço!

Dorinha, fale baixo, estamos em público, mulher!

Fala baixo é o cacete! Você me seduz com conversa mole e agora pede para que eu fale baixo? Pois sim, vou gritar a plenos pulmões para que a secretária, o oficibói, a moça do café, os porteiros, os faxineiros, os seguranças, teus pariceiros, o teu chefe, o chefe dele, o chefe do chefe de todos os chefes - raios que os partam todos; para que a cidade, o estado, o país, o mundo, o planeta, o universo e o fundo do fundo de todos os buracos negros desta e de todas as galáxias deste contínuo espaço-tempo saibam o pinto pequeno que é o senhor José Wanderley Mendonça de Albuquerque Figueiredo e Morais. Enjoou da fruta, neném? Agora vai ter que comer o caroço.

Acordo feito, bufunfa na bolsa, Dorinha saiu esbravejando que não se faz mais homens como antigamente.

Pior não foi o desembolso da grana, pior foi figurar no ranquin dos comédia dez mais da praça, concorrente seríssimo ao troféu “Pau de Galinheiro” distribuído anualmente aos bafejados pela sorte com a sublime e hereditária graça da imunoimpunidade.


domingo, 14 de novembro de 2010

Junho

Penélope era charmosa: o suficiente para um magote de cabra de peía, de olho na sua (dela) poupança, virem, com argumentos carregados de sofismas, assediar, em nome da governabilidade, o domínio da próspera ilha de Ítaca. Passados dez anos da partida de Odisseu para as terras troianas, princípes decidiram acampar em bloco na pequena ilha a exigirem de Penélope o aceite do boato como fato: que o marido estava finado e que era chegada a hora de abrir caminho para a escolha de um novo rei do pedaço.

Sim, porque sem o consentimento de Penélope (eles eram temerários mas não loucos) ninguém se deitaria naquela cama construída às custas de muitas horas labutadas com afinco, dedicação e malandra sabedoria de Odisseu – o marido sumido no oco do mundo, aquele que ficou anos longe do lar e da sua mulher, senão amada como cantam os poetas mais tarde expulsos da República do Platão, amada pela convivência e conjunção de propósitos, mesmo porque naquela época não se falava de amizade entre homem e mulher pois que isto era exclusividade masculina.

Forçado pelas circunstâncias, Odisseu não teve alternativa senão perguntar à mulher: Perseverarás? E ela, conhecedora da alma dele e principalmente da própria, não hesitou em dizer: pelo tempo que durar tua ausência! Como podem observar, estes dois andavam na contramão da história. Penélope sabia que o marido tinha um dever a cumprir na defesa do orgulho e da honra, virtudes que eram também suas, visto viver num tempo em que palavra dada era promessa cumprida e Odisseu, homem forjado no pacto entre iguais, compromisso que molda um modo e um estilo de vida, que define conduta, produz justiça e gera sabedoria eterna. Defender um irmão, um co-pactuado, era mais que uma simples reparação do mal infringido, era manter a palavra empenhada, afinal um homem sem palavra não alcançou ainda a condição humana.

Porisso os gregos partiram para o pau contra o povo de Ílion, menos pela traição daquela beldade chamada Helena, afinal sabiam que ela estava destinada desde tempos imemoriais a produzir as catrastrofes amorosas que produziu, formosa que era naquela sua beleza voluptuosa e desagregadora a que estamos sujeitos desde que a Natureza definiu o nosso modo de eternidade. Odisseu chegou ao ponto de indicar que ninguém a desposasse, pois quem a desposasse seria infernizado pelo tempo que durasse aquela beleza, acabando por tornar-se um paranóico insuportávelmente dominador. Porém, Menelau aceitou a demanda e disse que botaria ordem na casa. Às vezes alguns humanos pensam estar à altura dos desafios, fazem alto conceito de si mesmos, e quando se pensam que não, as circunstâncias os transformam em insetos. Pobres seres, em geral levam o mundo pro beleléu.

Assim, os gregos se viram na obrigação de buscar reparo à desonra sofrida pelo fraco Menelau e submeteram-se ao comando mais fraco ainda do seu irmão Agamemmon. Daí, Odisseu, pensando na sua charmosa Penélope, teve que exercitar todo o seu gênio, servir-se de expedientes por vezes discutíveis, sempre buscando evitar o pior, até o monumental desfecho com o conhecido cavalo de madeira, que só depõe contra os troianos, que a despeito de serem também honrosos e honrados no combate e na vida, pecavam por uma mais acentuada superstição e por terem por maldita a jovem princesa Cassandra pelo simples fato de só falar a verdade. E como, nos negócios e na guerra, o que conta mesmo é o gênio realista, os gregos venceram. Porém, Odisseu, devido esta emulação com os deuses (sim, os deuses não podiam permitir que um mortal se igualasse a eles, a despeito de opiniões contrárias, mesmo entre os deuses), pagou um preço muito alto para conseguir manter a sua determinação de voltar para os braços da sua perseverante Penélope.

Num tempo em que ainda não havia correio, jornais, televisão nem internet, Penélope resistiu ao assédios dos pretendentes às custas de uma singelo ardil e de uma castidade espiritual digna de nota, enquanto Odisseu lutava para retornar ao lar, livrando-se de mil armadilhas do destino, da fúria de Poséidon, dos encantos de lindas e sábias mulheres fatais, sem poderem trocar uma palavrinha sequer, um bilhetinho, alguma dica do passo seguinte, um pombo correio com uma mensagem cifrada reforçando os laços... nada, só confiando mesmo um na palavra do outro, é muito! E olha que naquele tempo o oficiante não vaticinava: até que a morte os separe! É o tal negócio: quanto mais leis, mais frouxos e permissivos os seres.


domingo, 7 de novembro de 2010

Maio

Eveline era mãe de dois meninos. Viúva e funcionária pública aposentada por invalidez, assou e comeu durante toda a sua amassada existência.

O mais velho, mais responsável, puxou mais a ela que ao pai, cuidou de cedo ir à luta e trouxe boas colheitas para dentro de casa. Eveline se ria, banguela que era, cerca de meia hora por semana.

O mais moço, meio rude, meio pop, pulou de galho em galho até que encontrou a filha do fazendeiro/promotor de justiça e não tardou: cuidou logo de embuchá-la.

Ai, meu deus, onde é que tu estavas, senhor!? Como é que, sendo onipresente e onisciente, não viste a burrada que o caçula fez? Nem para avisar no 4B, um telefonema pra vizinha bastava, carta anômina que fosse, mas que tivesse dado o ar da graça naquela fatídica noite, três de junho, 92. Pois é, avisada a tempo, Eveline teria partido qual onça para cima do querido safado, dado uns bons trompaços naquela cabeça dura... Ô menino metido a fazer o que não tem serventia, meu deus!

Mas Eveline, a costurar estava, costurando teria ficado não fosse a agulha, num ato de rebeldia construtiva, espetar-lhe o dedo. Não é dito que deus escreve certo por linhas tortas? Bem, foi isto que Eveline pensou naquela hora: aconteceu alguma coisa, aconteceu alguma coisa com o Bigú. E olhou para o relógio de parede, na esperança de que ainda fosse horas, na esperança que o tempo ainda não se tivesse esgotado.

Eveline só conseguiu respirar no dia seguinte quanto a polícia chegou querendo saber se era vero que dali partira o tipo encontrado no meio do canavial com o pênis enfiado na boca. Respirar é modo de dizer, Eveline devolveu ao ar todo o ar que tinha mantido represado nos pulmões durante toda aquela noite e quem sabe durante toda a história da raça em luta com as perdas irreparáveis e a estupidez humana.

Porque? Porque? Porque? Havia motivo? O cabaço daquela menina valia tanto? Porque, Seo Honório, porque? Foi causdiquê? Só porque era o meu menino, não foi? Mas ele cantava bem, o meu neguinho, seo Honório, era um menino afinado, tinha intimidade com as notas... O senhor matou o meu passarinho, seo Horório. E não contente com isto, o senhor mutilou, de modo vil, o meu bichinho. Me devolve o meu filho, seo Honório. Me devolve o meu filho que a tua menina engoliu. Fique com a tua honra, seo Honório, mas me devolve o que é meu de direito.

Seo Honório discursou no plenário, puxou dos alfarrábios sofismas calibrados, vetustas palavras abusadas, tudo para provar que sua filhinha havia sido seduzida, enganada, entorpecida e estuprada por um desqualificado sem eira nem beira que, não tendo mais o que fazer na vida, deixou-se matar só para não encarar a sua autoridade de pai, cidadão, servente de deus e da pátria. E em assim sendo, apelou para o inalienável direito (dele) de interromper voluntáriamente aquela gravidez.

Não, seo Honório, esta criança é minha. O senhor não vai matar o meu filho duas vezes, esbravejou Eveline no alto das suas tamancas no que foi contida pelo meretíssimo que exigia mais respeito com a corte.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Maria Quitéria vai à Guerra.

Domenico Failutti, 1890

Passei o resto do domingo em busca do que escrever, algo que expressasse minha alegria com a eleição de Dilma Vana, a primeira mulher eleita Presidente da República Federativa do Brasil. E fui longe, até a minha infância no Instituto de Educação Euclides Dantas, na garoenta Vitória da Conquista, no final dos anos 50, e me vi na sala de aula bebendo nos lábios das minhas professoras uma história que me fez largar os gibis de Mickey e Pato Donald e buscar nos livros da História melhor instrução e inspiração. Falo da primeira heróina cultuada na minha vida: Maria Quitéria, que juntamente com Soror Joana Angélica, a martirizada durante a defesa do Convento da Lapa, em Salvador, pelos soldados portugueses, transformou-se num símbolo da luta contra a tirania e a opressão e fez do povo baiano a vanguarda vitoriosa na luta pela Independência do Brasil (que só se completaria em em 2 de julho de 1823, data que até hoje é, para nós baianos, o verdadeiro dia de comemoração, embora nunca tenhamos deixado de comemorar também o 7 de setembro - têm razão os que falam que baiano é doido por festa). Foi daí que encontrei estes trechos romanceados do Bernardino José de Souza, em Ciclo do Carro de Bois no Brasil, citado por Hélio Pólvora, historiador e presidente da Fundação Cultural de Ilhéus. Ouçam esta pseudo voz e permitam que os ecos desta narrativa lhes cheguem à alma.

Eu gostaria de entrar nua no rio, caso estivesse no sítio do meu pai. Mas estou aqui entre homens, somos todos soldados, e o banho no Paraguaçu é forçado. Os portugueses de uma canhoneira bombardearam Cachoeira, então um bando de Periquitos, e entre eles eu e mais cinco ou seis mulheres, entramos no rio, de culote, bota e perneira, dólmen abotoado e baioneta calada. Queríamos que os agressores desembarcassem para o combate em água rasa da margem. E eles vieram, aos brados. Traziam armas brancas. Alguns as mordiam com os dentes. O encontro deu-se num banco de areia, com água pela cintura. Senti quando a água fria subiu pelas pernas, abraçou as coxas e espalhou-se pelas virilhas. Um toque frio, desagradável. Com o calor da luta, tornou-se morno. E houve um instante em que eu tinha água pelos seios. Senti que os mamilos se enrijeciam sob a túnica. Pensei outra vez no sítio, na rede em que costumava embalar-me. Ali tudo era cálido, os panos convidavam ao sono. Aqui, luta-se pela vida, pela nossa Cachoeira, pela Pátria. Mas uma voz secreta me sopra que também luto por mim. Estou guerreando, sim, para libertar Maria Quitéria de Jesus Medeiros da tirania paterna, dos sofridos afazeres domésticos, da vida insossa. Ah, eu combato, com água no nível dos peitos, pela libertação da Mulher, pela nova Mulher que haverá de surgir. Minha baioneta rasga o ventre de um português que não quer reconhecer a Independência do Brasil gritada, lá no Sul, pelo Imperador D. Pedro.”
...
“Nunca pensei em pisar num palácio. Quitéria, eu disse a mim mesma, foste criada para andar de pés nus e cabelos ao vento. Quitéria, és uma tabaroa. E no entanto, o que fizeram de mim? Ou melhor, o que a vida fez de mim? Nunca pensei que, ao pegar em armas, ao entrar naquela guerra do Recôncavo, eu acabaria aqui, hoje, nesta recepção palaciana. O Imperador vai entrar. É ele, é ele. Altaneiro no porte, com aquelas dragonas douradas, o dólmen justo salientando o peito, a barba negra. A gente conhece logo um Imperador pela barba e, também, pelo jeito direto e franco de olhar. Um olhar sem medo, olhar dentro dos olhos — olhar de quem tudo ousa, de quem sabe que tudo pode. Cavalheiro distinto, garboso e galante, o Imperador. Irritou-se com as exigências de seus compatriotas, reunidos num concelho chamado Cortes, e, a cavalo, soltou o grito. Foi fácil, aqui no Rio de Janeiro e em São Paulo, porque havia um José Bonifácio, havia outros antigos conspiradores em prol da Independência. Pois D. João VI não havia previsto, não havia aconselhado: “Pedro, algum dia o Brasil se separará de Portugal. Se assim for, põe a coroa sobre tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela”. Entra o Imperador no salão espelhante, cheio de cadeiras e canapés forrados de veludo verde e vermelho. Um luxo. Faianças, cristais, candelabros, pesados reposteiros. Deve ser bom viver aqui nestes luxos, mas prefiro os meus matos, os campos rasos da minha terra. Estou atordoada, com uma zoeira nos ouvidos, mal entendo o que diz em discurso o nosso comandante. Ouço palavras soltas: “heroína”, “mulher valente”, “amor à Pátria nascente”. Aguenta, Quitéria, eu digo aos botões da minha túnica. Tu não és soldado, mulher? Abro os olhos, o Imperador está diante de mim, curva-se e sorri. Tenho vontade de passar a mão naquela barba negra que parece seda. Mas a minha palma é calosa, com certeza o Imperador retrocederá, assustado — e me prendem. Fecho de novo os olhos. O Imperador me condecora, um sujeito de roupa espalhafatosa lê um papel em que me concedem um soldo para o resto dos meus dias. A Pátria agradece, mas, francamente, eu não pensava em recompensas. Os dedos do Imperador D. Pedro tocam-me a gola, roçam-me o busto. Ah, eu morro de vergonha. Quem diria que eu, Quitéria, donzela criada quase solta pelos campos, com os animais, seria alvo de tantos olhares neste palácio do Campo de São Cristóvão? As damas de saia arrastando no chão só faltam me comer com os olhos. Tenho o rosto em fogo, as orelhas ardem. Será que vou dar chilique em público?”
...
“O Imperador me põe a condecoração. Tremo toda. Ele entende o que se passa comigo e sorri.
- Parabéns. A senhora é uma heroína. A Pátria lhe será eterna devedora.
- Cumpri apenas meu dever de brasileira - consigo balbuciar em resposta.
O Imperador curva-se e vai retroceder. Faço-lhe um gesto. O homem poderoso se detém.
- Posso ser-lhe útil em algo mais, senhora?
- Quero pedir-lhe um obséquio, um grande obséquio...
- Queira dizer-m’o.
- Quero que o senhor peça perdão, por mim, ao meu velho pai.
- E por que motivo? - indaga o Imperador.
- Porque fui-lhe desobediente, fugi de casa para entrar na guerra - eu lhe digo, toda ruborizada.
O Imperador sorri de leve.
- Está perdoada. Farei o senhor seu pai sabedor do meu perdão.
O Imperador levanta a mão sobre a minha pessoa, em sinal de bênção”.