sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano Bom

Por onde começar?
Falo isto todo final de ano.

Neste ficarei calado
Olharei as nuvens se as vir
Espero que sejam apenas nuvens, não aquilo
Que, por distração, o cérebro simula.

Os primeiros minutos do ano
Não me encontrarão de branco
Não darei os três pulinhos
Não recitarei nenhum mantra
Não comerei sopa de lentilhas
Tampouco quero saber de romã...

Não farei nenhum pedido, 
Vou entrar o ano com o pé
Que me for de e por direito.

A única coisa que calado espero
É que ele já nos venha maduro
Nos trinques, sabedor de tudo.

Afinal, são milhares e milhares de predecessores,
Não é possível que não tenha aprendido alguma coisa
Para ser verdadeiramente um ano bom.


sábado, 25 de dezembro de 2010

Dezembro

Antigamente tudo era grande. As arvores batiam no oco do céu. Os seres humanos tinham dez metros de altura e as formigas eram do tamanho de elefantes. Tudo era tão grande que qualquer cidade era do tamanho do mundo. 

Um belo dia, sem que ninguém sabia donde, surgiu um dragão se achando o maior e melhor dentre todos os animais. Como o mequetrefe era versado nas artes mágicas e por demais enfezado, tratou logo de reduzir o tamanho das coisas. E tudo foi ficando pequenino, pequenino. O mundo inteiro passou a caber na palma de uma mão.

O rei perguntou pro ministro que perguntou pro conselho que licitou um consultor para responder o que fazer diante daquela situação. Após exaustivas pesquisas e pareceres técnicos muito bem fundamentados e chancelados pela vetusta e honorável Sociedade das Místicas Tradições Que A Gente Não Está Nem Um Pouco a Fim de Perder Nem a Pau, a resposta veio de bate pronto em três vias e com firma reconhecida: o encantamento só seria quebrado quando alguém jogasse uma gota de orvalho no furo que o “você sabe quem” ostentava no centro da cabeça, bem no meio dos cornos. O documento não ofereceu resposta, contudo, ao crucial: quem seria o valente, quem se habilitaria a levar adiante tão ingente tarefa?

O Cospe Fogo, que bem podia ter todos os defeitos menos o de possuir ouvidos de mercador, bradou do alto da sua onipotência: Comigo ninguém pode. Sou o maior do mundo. E por ser o maior, mando em tudo. É o seguinte: todo dia é dia do meu aniversário, todo mundo vai ter que me dar presentes. Vacas, cabras, queijos e muita goiabada. Vão amontoando tudinho ali naquele caminhão enquanto tiro um cochilo.

O rei borrou-se todo só de encarar a feiura do danado. Pior que a feiura era o bafo, parecia uma onça arrotando essência de gambá. Será que não existia no reino sujeito nenhum capaz, gritou o imperador, alguém tinha que fazer alguma coisa, antes que a vaca fosse pro brejo!

O Leviatã, irritado com aquele falatório, vociferou: Que que tá resmungando aí, ô rei tampinha orelhas de abano? Olha aqui, seu menino, esse papo todo acendeu mais ainda o meu desejo, estou com uma vontade danada de casar. Tragam-me a princesa Eulália. Nossa! Foi um ai meu jesus, minha virgem nossa senhora nos ajude que não acabava mais. Se não entregarem a princesa em casamento, quando acordar acabo com tudo. Não vai ficar um fio de cabelo para contar a história. Está me ouvindo, rei nanico cara de penico?

O pânico tomou conta do povo, uns subindo pro morro outros correndo pro mato, preces foram enviadas aos céus, aos santos padroeiros, aos principados e potestades, todas pedindo, com urgência, um cavaleiro destemido, com muito ânimo e disposição para tirá-los daquela sinuca de bico. Ofertaram todo o ouro, urânio e silício, que tinham acumulado na última gincana de caça ao tesouro real, para se verem livres daquela alma penada.

No meio daquela zoada, um menino remelento chamou a atenção para uma poeirinha que estava a se formar no horizonte e não demorou muito para que todos ouvissem um pocotó pocotó se achegando à praça principal. O que era aquilo, se interrogaram, que era aquilo que vinha assestado num alazão aloprado, sobejado de miçangas, a beliscar as cordas de um saltério medieval, a entoar morbidezas românticas sob a forma de um animado anapesto?

Ah, era só um menestrel das oropas que vinha recitando uma ladainha amorosa salvacionista sobre um homem e uma mulher que não se sabiam mais gordos e que, por obra e graça do destino, foram colocados frente a frente e se apaixonaram perdida e mutuamente. Numa cruzada lírica em prol da salvação humana vinha de percorrer o mundo, sonho este de infância. Sentiu que sua busca havia chegado a termo, que sua jornada acabara ao, apear do cavalo, dar de cara com a princesa Eulália, um brinco de moça, uma flor naquele pântano de lamúrias. Pronto, todos os sinos dobraram, todos as cotovias cantaram, anjinhos barrocos rimaram, amor à primeira vista, foi lindo! Ela piscou pra ele que piscou pra ela e, como era costume, o moço chegou de mansinho e, perguntou, entre palpitações, se poderia namorá-la todos os dias de sua existência transmudada. Todo mundo disse pode, galego, pode! E foram fazer uma boquinha, que estava na hora do lanche, enquanto os dois ficaram ali, na praça, rodeando o jardim. Conversa vai, conversa vem, a princesa tratou logo de colocar as coisas nos eixos. Sem mais delongas, contou-lhe tudo, colocou-o a par da situação sem noves foras, falou do pretendente monstruoso, do seu apetite insaciável, da sua voracidade e do atrabiliário senso de humor da coisa. Que se ele gostasse mesmo dela, se a amasse de verdade, deveria arcar com a responsabilidade de acabar com toda aquela lambança, que o povo não aguentava mais viver submetido a tanto vexame e que, o pai dela, o rei, daria tudo que ele pedisse, todo o ouro, cobre e prata que tinha dentro do palácio seria dele se con-se-gui-sse, entendeu?, se conseguisse libertar o reino de tamanha afronta . E mais: no fim daquele rebuliço todo os dois se casariam e seriam felizes para sempre. Mas aí surgiu um porém, lembrou sincero o trovador, ele era apenas um poeta, nunca tinha se metido em lides violentas, era da paz e do amor, coisa muito em voga nos reinos desenvolvidos, por sinal. Que reparasse bem, não é que ele fosse um covarde, um mucufa boiota não mas, não seria melhor chamar alguém do corpo de bombeiro ou da polícia montada, este pessoal tem muito mais treinamento, benzinho! Ademais, onde é que acharia uma gota de orvalho no meio daquele deserto? A princesa disse, meu deus, agora percebo tudo, como pude ser tão cega, você não me ama mais, aliás nunca me amou, foi tudo fingimento da tua parte, os homens são todos iguais, que decepção, entreguei meu coração como se entrega a alma e recebo em troca desfeita? Tem nada não, a vida é assim mesmo, repleta de desilusões, estou acostumada, agora vá, vá viver a sua vida com outro bem. Não, disse ele, eu te amo, Eulália, amo sim, amo tanto que já tenho dois versos prontos pra recitar na festa do nosso noivado, minha passarinha das arabias! Não, acabou, finito, caput, esquecesse o assunto, iria ficar pra titia, entraria prum convento bem longe e passaria o resto dos dias a chorar as mágoas e a calejar as mãos numa roça de macaxeira e feijão. Eita vida besta, qual o sentido disto tudo? Ninguém me ama, ninguém me quer! Aturdido, choramingou o bardo, mas como é que eu vou colocar a tal gota de orvalho no furo que o dragão tem na cabeça, meu docinho de coco? A princesa disse, é simples, possuo alguns contatos no meio artístico e com um pouco de criatividade, podemos transformá-lo numa muriçoca, coisa, aliás, muito parecida com a tua natureza de cantor. O povo caiu na gargalhada e aquilo só não virou comédia porque, lembrou o rei, havia um trabalho muito sério a ser feito e já que não tem tu vai tu mesmo.

Moral da história: Cuidado com o que desejas, podes ganhar uma alcunha.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Novembro

Sob impacto das marretas, veio abaixo a fachada do sobradinho nove da Vila Mosqueta. Construída pelo mestre pedreiro Francesco Mosca, às custas de muitos serões nas Indústrias Matarazzo, onde aportou, a pedido do próprio Conde Chiquinho, vindo de Nápoles, pouco antes da guerra. O velho Tchêco tinha admiração pelo mar e, especialmente, por navios. Determinado a construir as casas em formato de embarcação, sempre que podia, visitava demolições, ferros velhos, depósitos de materiais de construção a recolher raridades: pisos de madeira, vitrais de desenhos variados, banheiras vitorianas, mármores, ônix, granitos... e as distribuiu a bel prazer, movido por incansável imaginação, naquilo que foi o seu maior tributo à engenhosidade humana. Restaram toscas mas eram a expressão do seu fascínio, ele que se assemelhava a um argonauta de espírito. Quem visse uma delas, de fora, veria que o andar superior sofria um recuo em relação à linha da porta de entrada, criando a impressão de uma torre de comando. Mas o barato mesmo era o interior. Aproveitara os desníveis do terreno, cada comodo num patamar diferente. Da sala descia-se para o banheiro, subia-se para a cozinha e outra vez subia-se para um hall, à guisa de gabinete, sob imensa clarabóia, ao lado de uma escadinha que nos conduzia aos quartos de tetos rebaixados e inteiramente forrados por lambris de cerejeira, com boxes para colchão de casal num e dois de solteiros no outro. Os armários embutidos eram verdadeiras passagens secretas. A sensação que se tinha, ao percorrer aquelas mínimas distâncias, era de se penetrar num mundo mágico. Pensem num mundo de brinquedo e estarão bem próximos do sonho do Mosca. Dizia que as construira para uso dos descendentes, mas os filhos não gostavam nada daquelas habitações, quais casinhas de bonecas, e cuidaram de dar o fora. Só restou a caçula que brincou na de número um por toda uma vida. A vila fez enorme sucesso nos anos 70, 80, quando bandos de artistas disputavam, no tapa, o direito de morar num daqueles sobrados em busca de inspiração para obras primas que revolucionassem a cultura nacional. Espécie de homenagem tardia ao construtor que, finado, agradeceu. Giovana, sua menina, encarregou-se do legado a fazer questão, ela mesma, de escolher, como se escolhe um nobel, quem moraria na vila.

Julinho Takaoka não tinha lá muita coordenação motora devido uma entrevista relâmpago com agentes do Deops e consequente hospedagem forçada no presídio Tiradentes, por posse de livros proibidos, comoção de plateias, além de umas três ou quatro ligações de camaradagem e afeto com verborrágicos secundaristas do vetusto e assanhado Colégio de Aplicação. Após um intensivo programa de estudo da natureza humana e com uma disfunção muscular, decidiu que sua vingança seria metódica e artística. Juntou-se a um grupo de poetas e passou a disseminar haicais, sonetos, acrósticos, décimas, elegias, epigramas, acalantos, madrigais, odes e quadras pelos postes da cidade em intervenções rápidas e cercadas de estratégias e exaustivo planejamento. Uma vez por mês desfilavam por uma avenida, escolhida a dedo, ao som de uma veterana bandinha marcial carnavalesca, a declamarem uma lírica libertária, deveras pungente para os padrões provincianos da metrópole. Logo caiu nas graças da herdeira e não encontrou resistência à ideia de se instalar na nove. Plástico apessoado, poeta ilibado, trazia uma pequena fixação por peixes: lambaris, tilápias, bagres, garoupas, corvinas, badejos, dourados, trutas... Pintava-os, esculpia-os em gesso, pirografava-os, construía-os em madeira, metais, ferragens, com terra, areia, pedregulhos, misturava tudo em grandes aquarelas para ofertá-las ao deleite da septuagenária que os devorava com a alma a imaginar encomendados pelo pai direto do fundo dalgum oceano fabuloso, onde morava, agora que a lenda o havia substituído.

Mas o mar tem lá suas traições. O banco de coral que era a Vila Mosqueta, com sua fauna e flora variadíssima, repleta de modestas e exuberantes espécimes, ricas em animação e criatividade, viu-se ameaçada no dia em que Antonino Calatrava botou os olhos calejados no negócio de incorporações naquele arquipélago e esfregou as mãos... esfregou as mãos não, que faz dele um clichê, melhor direi: riu-se, ávido de possibilidades naquele mercado disputadíssimo. Giovana foi taxativa: disse não, que ali nada estava à venda, nem por todo o dinheiro do mundo, que ela estava vivendo seus últimos e felizes dias e que portanto, seo Antonino!, desse por encerrada aquela conversa, que nem com todo o ouro do mundo ele a faria acordar do sonho em que vivia mergulhada. Mas qual tubarão faminto que não cessa de nadar e sempre encontra um jeito de abocanhar sua presa, Calatrava soube, por uns e outros, que a velha não detinha a posse exclusiva daquele enclave, que ainda existia um irmão morando nas Perdizes, por sinal na pior, lá não muito bem das pernas, a assar e comer do carcomido negócio de armarinho e miudezas. Bastaria alguém acenar com a promessa de uma aposentadoria mais ou menos confortável que, o do meio, cederia sem pensar nem pestanejar. O empresário, inspirado pelo refrão do melancólico milagre, viu o espigão atingir o céu e hordas de casaizinhos, doentes por uma vaga no clube restrito da classe média, saltitarem à sua volta. Não demorou mexer dois ou três pauzinhos e, constatar exultante, que era só questão de tempo, a bucólica vila, mais dia menos dia, tornar-se-ia mais um dos inúmeros edifícios de apartamentos financiados pela Caixa. Nem precisou apelar para expedientes escusos, o tempo lhe pertencia, ou como costumava dizer: para aqueles que sabem o que querem o universo conspira a favor.

Giovana chamou Takaoka e narrou-lhe sua desdita: não tinha mais forças, seu irmão era um fraco, não puxara ao pai, era questão de tempo ver-se na obrigação de aceitar um acordo, o sonho havia terminado, lamentava não ter nascido homem para enfrentar Antonino. Avise a todos, o dia está próximo, não façam nada, principalmente não protestem! Que o velho Tchêco, onde quer que estivesse, estava mais que satisfeito, sua obra cumpriu uma finalidade. Takaoka ensaiou dizer não, que ia lutar, que ia conclamar as autoridades a tombarem o espaço como patrimônio cultural da cidade, que podia virar uma praça, um parque, um lugar onde namorados trocassem juras, crianças inventassem jogos, velhos encontrassem refúgio, que o trabalho do velho Mosca não poderia cair esquecido e coisa e tal, com aquela alma revolucionária que relutava em acreditar na inutilidade das ações humanas. Mas Giovana novamente disse não, que seu pai cometera um erro, um erro irreparável, nunca acreditara nos filhos, principalmente nela, mulher que era, nunca lhe dera atenção, ela que se sonhava artista, artista que nem ele, fora tratada como criança, sempre, como incapaz, que a deixou nas mãos dos irmãos, que nunca acreditou que ela fosse capaz de conduzir a própria vida, que compreendera finalmente que também ela falhara, a par de amá-lo com todas as suas forças, nunca o enfrentara, nunca dissera o que deveria ter sido dito, acatara suas decisões sem um repto e que agora era chegada a hora de também partir, de deixar pra lá, de seguir e não olhar mais para trás... Que não, não seria ela, um quase nada, a ficar no caminho do progresso... Que sabia, Calatrava tinha mais ambição que consciência, mais fome que tino, que cairia e arrastaria ao lodo os desejos dos ingênuos mas que no final tudo acabaria bem, na ultima hora o governo interviria, para não passar por padastro daria o ar da graça apenas para fazer-se notar como poder de por e dispor como bem entender... Esta parecia ser a lei do tempo, tempo do qual ela não mais fazia parte.

Quando a última parede foi derrubada, Takaoka tinha gasto uns cinco rolos de filme. Material para um livro de contos? Um longa, talvez. Não se sabe. Sabe-se que ele aceitou o convite de um primo distante e rico para editar uma revista de arte, cargo que lhe possibilitaria arcar com o aluguel do solitário e espaçoso apartamento para onde se mudara semanas depois daquela conversa com Giovana, agora devidamente alojada na casa de uma sobrinha que gentilmente cedera-lhe o quarto da empregada em troca de um reforço no orçamento mensal, enquanto não encontrasse outro lugar para onde ir.

O irrequieto Taka, ao lado de algumas telas onde treinara a arte dos mínimos traços, técnica sútil de ofertar simulada visão de eflúvios peixes em aquários invisíveis, viu, da pitangueira que adornava a extinta nove, tombar uma semente no chão estilhaçada. Cambaleante, levantou-se e a recolheu. Desajeitado, guardou-a na embalagem de um rolo fotográfico, ajeitou os quadros debaixo de cada braço e, tropeçando aqui e ali, ganhou o caminho da barulhenta e comprida rua quem sabe em busca de mares nunca antes navegados. 


domingo, 12 de dezembro de 2010

Outubro

Você já foi à Torre? Não? Então vá! Com esta fórmula os anciãos dão início ao ritual mágico de acesso à maturidade. É sabido que só os crentes, aqueles de verdadeira fé e devoção sincera, conseguem compreender as leis do céu e da terra. Para que floresçam, consigam constituir família e ganhem o pão de cada dia sem muito suor e/ou sangue derramados, fundamental é que, pelo menos uma vez na vida, cada jovem contemple e participe do mistério que é A Torre. Aqueles que recusam-se a empreender esta jornada, por deficiência, inépcia ou rebeldia (principalmente), condenados são a vagar de déu em déu, sem eira nem beira, pelas quebradas cavernosas do mundo, sem nunca terem usufruído da verdadeira felicidade.

Abdulah Ib Massud Al Hachid, não era míope mas, estava muito afim de enxergar adiante. Foi aí que lembrou-se das palavras do avô e ficou fissurado, beirado aos 50, numas de alcançar o reino das especulações sublimes e inefáveis, soterrado encontrava-se na sensaboria do cotidiano negócio de família de trazer e levar mercadorias, de um extremo a outro, às brenhas das planícies e planaltos alcançáveis por pés humanos, em troca de relativo conforto, pequenos prazeres e alguns trocados. E como era justa sua causa, numa bela tarde, decidiu que era chegado o momento de conhecer A Torre, certo de que nela encontraria todas as respostas às suas dúvidas e incertezas e, quem sabe, alguma ideia novinha em folha que, a bem da verdade, todo vivente tem direito e necessita para renovar o estoque de espertezas essenciais ao modesto bem viver. Deu uma passada d'olhos em alguns compêndios, consultou meia dúzia de sábios e sábias, examinou as entrelinhas e partiu com o coração repleto de esperanças.

A meio caminho pensou: se A Torre é tudo o que dizem não devo apresentar-me diante dela nestes trajes comezinhos. Preciso de digna indumentária. Envolveu-se num alvo lençol da cabeça aos pés e jurou, diante da pira que consumia aqueles costumes usuais e mundanos, mantê-lo limpo pelo tempo durasse a jornada e, talvez, além.

A um dia do seu objetivo, sentiu fome. E como não tinha tostão para bancar um repasto (Peraí, o sírio-libanês não tinha dinheiro? Tinha, respondo, mas para acentuar o caráter dramático da narrativa retiro qualquer vestígio de apego material que porventura possa existir na personagem), colheu algumas raízes, mastigou-as lenta e saborosamente enquanto seu organismo lhe repetia estridente que aquilo era uma loucura, que queria mesmo era uma suculenta feijoada e alguns goles de um bom e encorpado vinho do Porto (que mal havia nisto, ora bolas!). Imbuído de espírito altaneiro, sem exortações violentas nem práticas abjetas e repressivas dos desejos, conteve os arroubos da carne e engoliu secamente a massa a repetir em voz alta que a vontade de potência era o único e verdadeiro senhor e que o corpo, na qualidade de instância subalterna, devia conformar-se com o que a mente almeja e lucubra. Para confirmar definitivo quem mandava no pedaço, trinchou dois ou três gafanhotos que, desprovidos de alma, não arrotaram protestos contra aquela usurpação e partiu sem lenço nem documento ao encontro da luz.

Na manhã em que alcançou A Torre, estava um caco. Sacudiu a poeira, deu a volta por cima e encarou o monumento. Um falo extenso na direção do alto (dedo humano?), cercado de gente por todos os lados. Pedra sobre pedra, imponente, impávido, um colosso.

Parênteses: A Torre é habitada por um ruído intermitente que emana das suas pedras talhadas com uma precisão assustadora por mãos e ferramentas desconhecidas, num movimento de atrito incessante. Não se sabe qual matéria une, se é que une, aqueles blocos de tamanhos e formatos variados, encaixados uns aos outros sem padrão repetido. Uma colcha de retalhos, uma colagem, uma emaranhado de motivos justapostos desobedientes a qualquer simetria. Se fosse uma música, A Torre seria um arranjo de acordes independentes, intercalados sem qualquer relação aparente, sem qualquer nexo causal, sem nenhuma sequência que responda ou pergunte por e pela outra.

Ninguém até hoje ofereceu uma explicação plausível de modo aquele trem (desculpem-me o eufemismo) chegou até ali. Aliás esta é a primeira pergunta que todo neófito faz ao deparar-se com aquela enormidade. Quanto a isto existem versões, muitas, a gosto do freguês. Algumas palatáveis, outras verdadeiros exercícios de insanidade. Mas a maioria dá conta que só pode ter vindo do espaço exterior, dos confins do universo, talvez dalguma civilização com altíssimo grau de desenvoltura, infelizmente nem um pouco discernível por nós, minúsculos e efêmeros seres, habitantes desta rocha confinada num canto obscuro duma galáxia entre bilhões e bilhões de outras, nascidas e por nascer, ainda nos primeiros estágios da longa e infinita escala da evolução. Daí a infinidade de seitas, religiões, ciências, artes e ofícios que pululam em torno daquele construto que, conforme afirmam alguns, tem vida e vontade próprias, movendo-se a bel prazer, sempre a cerca de 10 centímetros do chão, nunca oscilando nem para a direita nem para esquerda, nem para a frente quanto mais para trás, extremos estes que parecem não afetá-la, o que só vem confirmar sua origem extraterrestre, visto que por aqui, neste vale de lágrimas, a característica básica seja o movimento espasmódico, pendular e oscilatório.

Esta aparente contradição é o mote inicial da serena contemplação. Digo aparente por conta de que, depois de um tempo deitado de papo pro ar (esta é a postura recomendada para se contemplar A Torre, sob pena de um torcicolo irreversível e incurável, daí o ditado: o uso do cachimbo entorta a boca!) chegamos à conclusão de que tudo é um imenso "ó". Compreende-se finalmente que l + l não é = a dois. Que, dependendo do ponto de vista, da abordagem metodológica que se utiliza, chega-se a resultados surpreendentes, inusitados até, quase sempre opostos e inconciliáveis entre si. Mas esta é a dialética da coisa, a magnificência d'A Torre: nunca oferecer-se completamente desnuda ao contemplante, mostrar-se sempre revestida de inúmeros atributos singulares e, se possível, originais. A Torre é A Torre mas, cada um é cada um, ou melhor, uma coisa é uma coisa e outra coisa é, seguramente, outra coisa (se é que me entendem) ou não.

Contemplar algo assim e encontrar uma única resposta não é tarefa para dois ou três dias. O que justifica a enormidade de gentes que habitam o entorno d'A Torre, cada um com o seu jeitinho de descolar algum para as despesas, seja através pequenos serviços, rápidos expedientes ou de grandes projetos multilaterais. Ao cabo de algum tempo, dada a propensa naturalidade com que os humanos decaem em direção ao conformismo (daí o ditado: em time que está ganhando não se mexe!), a maioria destas práticas transformam-se em atividades perenes e altamente lucrativas, gerando um ciclo vicioso ou virtuoso, a depender de quem está dentro ou fora do negócio. O fato é que A Torre atrai mais e mais gentes disposta a faturar algum, num fluxo e refluxo de atividades que fazem a alegria do mercado e o terror dos ecologistas. Estes, com toda razão, vociferam que o sentido original d'A Torre encontra-se definitivamente extinto e jamais recuperável nesta ou nas possíveis milhares de vida que ainda possamos ter pela frente, que A Torre (e aqui eles pisam no tomate) deveria ser tombada pelo patrimônio histórico e mantida longe das mãos asquerosas desta horda de predadores voluntários e involuntários. Assim, imersa em tantas e cruciais questões, sobrevive A Torre graças a um eficiente sistema de marquetingue muito bem administrado por uma seleta e secreta classe de zelosos heresiarcas, que fazem das tripas coração para impedir que esta ou aquela corrente venha a exercer predomínio sobre as demais, num gesto desesperado em prol a sobrevivência da espécie, de olho na colonização do quarto planeta do sistema solar por uma casta altamente selecionada de eugenistas dedicados e bactérias mutantes comandadas a distância. Modelo que vem sendo exportado, às vezes com o necessário uso da força mas não sem as imprescindíveis pompa e circunstância que cercam e abrilhantam este tipo de iniciativa, a todos os recantos visíveis e invisíveis deste vasto vasto mundo como prova inconteste da inventividade e do engenho humanos, como costuma repetir um dos sacerdotes encarregados de marcar a testa do peregrinos com as cinzas rituais que os alivia dos pecados passados e os fortalece para os futuros, ao cabo dos cinco dias de puro e indescritível êxtase.

De posse, não de uma mas, de muitas e inauditas conclusões, afora três ou quatro insaites bastante peculiares, Ib Hachid deu por encerrada sua iniciação e, como bom baiano, cabeça feita que era, parou na primeira banca de acarajé, agora com o olho interior devidamente focado nas coisas boas da vida e solicitou da volumosa senhora (autêntica representante das altas esferas da profícua e profunda espiritalidade), um abará entupido de vatapá e caruru, além duma generosa porção extra de camarão. Enquanto refestelava-se no meio fio que adornava a calçada da rua enladeirada, telefonou à sua neguinha, a escultural Jussara Mãos de Veludo, para ver como a bichinha estava lidando com aquele aperreio todo. Encontrou-a preocupadíssima, em vias de cometer alguma doidice, disse ela que não aguentava mais, que estava arriada, desconsolada com a ausência dele. Que negócio é esse de procurar essa tal de verdade interior em Salvador, Abdu?  Num gosta mais de mim não? Voz embargada, entre soluços sentidos, Juju confessou que desde a partida do homem da casa e turco predileto, chegou a considerar seriamente voltar ao antigo ofício de costureira déliveri, lavando e passando pra fora. Massud, com palavras assemelhadas à graças, homem novo que lhe nascera das entranhas agora revigoradas, tranquilizou-a e garantiu que havia mudado mas que continuava igual e entre hunhuns e hanhans quis saber se ela havia sentido a sua falta. Não! O que tu acha? Compreendeu, agora que era versado na linguagem invisível dos sentidos, que aquilo era dengo, que o que ela queria era cheiro, abraço apertado e chamego dobrado e disse Estou chegando! Que perfumasse a casa toda com essência com alecrim – Viu, minha pretinha?! - que já estava a caminho do lar, doce lar, de onde nunca, jamais, em tempo algum, deveria ter saído, sentenciou em uníssono seu ser agora finalmente encontrado. Hum!

Moral da história: Mais vale um abará no bucho que dois ou três grilos falantes.


domingo, 5 de dezembro de 2010

Setembro

O Conselheiro
Agora é contigo. Melhor botar o bloco na rua. Os acionistas estão em subindo pelas paredes.

A Esposa
Em plena reforma do apartamento? Com a Nininha pronta para casar? Vê lá onde vais nos levar!

O Filhão
É aí, velhão? Olha, aquele projeto foi encaminhado, só preciso que mexas os pauzinhos junto ao fomento governamental.

A Menina dos Olhos
Paiê, a madrinha está pensando em fazer a despedida de solteira em Vegas. Dá pra liberar a verba?

O Assessor
Chefe, o Agência só aprova nova solicitação se empenhares o patrimônio como garantia.

O Analista
A tendência não é nada favorável. A concorrência aproveitou a situação para lançar uma onda de boatos. As ações foram pras cucuias.

O Marqueteiro
Vamos ter que ser agressivos. Partir pro vale tudo.

O Contato no Governo
Sente só: o negócio vai ter que ser bem conversado. O pessoal tá contigo por aqui! Cuspir no prato que se come nunca foi uma boa política.

O Contador
É um pequeno macete mas precisa combinar com a auditoria.

O Comercial na TV
Astro: o carro para homens que pensam longe e vão!

O Amigo
Salva-se os dedos, ficam os anéis.

A Amante
Isto acontece, benzinho! Ah, dá pra aumentar o limite do meu cartão? Natal, fim de ano...

O Jornalista
Se você decidir falar alguma coisa, pode ser que o jornal fique do teu lado. Mas vai ter que ser muito convincente.

O Político
Quem? Nunca ouvi falar!

O Advogado
Vai com calma, amigo, vê lá onde vai amarrar o teu bode!

O Psiquiatra
Você sabe onde o calo aperta! É uma decisão pessoal. Minha missão é apenas facilitar.

A Manchete
Executivo pego com a mão na massa diz que a culpa é do mercado e pede reformulação das leis.

O Delegado
Situação econômico social não é atenuante, doutor!

O Padre
Vinte Pai Nosso e duzentas Aves Maria.

A Sogra
Sabe, eu fui contra mas o meu marido precisava selar um acordo com o grupo rival... entreguei a deus!

Noticiário das Sete
Neblina provoca engavetamento e causa três mortes e dezoito feridos na rodovia sul.

Boletim Meteorológico
Amanhã, tempo bom com leves pancadas de chuva ao cair da tarde. Mínima 12, máxima 30.

O Próprio
Dá um tempo, Benevides. Dá um tempo!