sábado, 29 de janeiro de 2011

Santo seria o dia não fosse a Poesia

Metabiotica - alexandreorion.com


Esta manhã todos os carros circularam
Apesar do grasnar insano das ambulâncias
Que rasgam as ruas em gemidos moribundos.

As manchetes dos insignes periódicos,
Armadas até os dentes contra o caos que impera,
Aguardam uma decisão da corte de plantão
Que salvaguarde a liberdade de crer
Que deva ser exclusivo o critério de verdade.

Rotineiro seria o dia não fosse a lotação
E a perspectiva do golpe sempre à mão.

Celulares emulam glamourosas estâncias
A preços baixos e generosas prestações
Porque falar quase é de graça, quase não presta
Porque falar afasta o tédio e isto importa:
Tédio é o que mais temem as almas histriônicas 
Às voltas com dispensáveis e duvidosos cuidados
E a eterna estática entre o público e o privado.

Corriqueiro seria o dia não fosse o céu nublado
E a perspectiva da loteria de prêmio acumulado.

Absortos vadios abarrotados de tralhas
Vão e vêm repousados de calçadas.
Baldadas rádios malandram patrulhas
De arengas sangrentas em rotas sumárias.
A ociosa piada repaginada em bloco
Peroliza as cáries dos emergentes dóricos.
Caminhos irrestritos escoltadas de senões
Vicejam astúcias legitimadas à bala.

Normal seria o dia não fosse a enchente
E a perspectiva dum chopinho decente.

Esta manhã não haverá surpresas
Passará como passam todas as manhãs:
A igreja publicará uma ou outra homilia
A assembleia premiará um nobre com outro bulevar
As antenas captarão a sinfonia das estrelas
Os astros rodopiarão em torno das esferas
Não teremos homens-bombas, tampouco heresia
Santo seria o dia não fosse essa estranha poesia.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Frèya

Paganpages.org

Tu, irmã, a mais linda e querida do Valhalla
Noiva dos Vanir, viris protetores da Terra,
Tu, Vana de muitos nomes, a de olhos verdes...

Abraça-me, senhora das Valquírias, e afaga
O amor e a beleza que venha eu cultivar em vida
Porque almejo ser recebido por ti e por Odin
Quando findarem todas as minhas batalhas.

Tu, falcão, que vê ao longe, guia minha jornada
Antecipa-me às armadilhas, ameaças e perigos
Finca, no meu chão, tua lança a cada passo
Para que meu caminho não sucumba ao banal.

Tu, filha do oceano e da montanha coroada de neve
Embeleza e enriquece todos os dias da minha existência.
Concede-me o alimento do espírito, ó provedora de sonhos
Para que minha miséria em modéstias se dissipem.

Tu, viúva de marido vivo, abandonada por Odur,
Que teve as lágrimas transformadas em ouro e âmbar
Dá-me persistência para prosseguir na busca
Da laranjeira que quietará minha acerba vontade.  


domingo, 23 de janeiro de 2011

Profissão Namorado

Blog Photo Lost


Quanto mais, Maíra
Antes que alucine
Nossa casa devassada?

Mudarei alguma coisa
Por este amor ingente?

Serei eu mesmo, Maíra
Ou outro que desconheço?

Te amarei com certeza
Novamente te amarei,
Pois sempre te quis amada.

E atalharei outros rumos
Desabarei de outras penedias
Talvez me afogue em mágoas
Talvez me revele pequeno
Talvez não esteja à altura
Do amor que sentes pleno

Mas, certo como esta luz
Que sobre os rastros faz sombra,
Te procurei e apaixonado me encontro
Por aí... No rio das águas latentes
Na montanha dos sonhos pendentes
No campo das esperanças persistentes...
Pois foi pra isto que vim, Maíra
Para ser de ti, um insistente namorado.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Homem que Comeu o Próprio Corpo – Final

Terceiro Espisódio

Homem – Ó avidez! Quanto mais como maior é a fome. Uma fome semelhante ao mar, que recebe todos os rios e no entanto não transborda. Ou qual fogo que consome todo combustível e mesmo assim continua ardendo.

Filha – Perdoe-me, pai. Mas seus bens diminuem rapidamente em face as incessantes exigências do teu apetite.

Homem – Miséria absoluta! Gastei tudo que possuía. Que fazer? Só tu me restou.

Filha – Por que me olhas assim?

Homem – Já não sou mais rico. Preciso de dinheiro... para comer.

Filha – Meu pai, não estás pensando...?

Homem – Um mercador pagaria umas boas moedas para tê-la junto a si.,

Filha – A que ponto chegou esta criatura. Vai vender a própria filha. Triste destino o meu. Merecia pai melhor.

Homem – Os pais cuidam dos filhos para que, chegada a hora, possam eles retribuir o investimento empenhado.

Flora e Fauna – Força Incontida! Ainda encontra tempo para produzir mais infortúnios. Repara na tua cegueira, humano! Admite tua fraqueza e terás insuflada nossa compaixão. Não há retorno. Erisíchton venderá a filha para que sirva de escrava ao primeiro que aparecer. Mas ela, inconformada, fugirá. Já a vemos, ofegante, dirigindo-se para cá.

Filha – Para onde? Meu novo senhor distraiu-se por instantes e consegui escapar. Mas temo que seja por pouco tempo. Ele é esperto e conseguirá me achar se eu não encontrar um esconderijo perfeito. Inexperiência! Por desconhecer a região vim parar nesta praia. Serei vista de qualquer parte. Não há pedras ou dunas que possam ocultar-me. Só este mar imenso e eu sem recursos para aventurar-me até terras mais seguras. Que digo? Não devo agir do mesmo modo paterno, imperfeito. Recorrerei à minha crença. Ó Poseidon Majestoso! Tu que foste protetor dos gregos na luta contra os troianos, vem em meu socorro. Mostra-me um modo de escapar ao meu perseguidor. Compadece desta alma violentada em sua dignidade. Ajuda-me, ó deus, não permitas que minha vida se estrague por completo.

Poseidon – Nada mais é preciso que digas. Injusto seria eu se não desse ouvidos à tua prece. Que Anfritite, a que governa comigo os elementos líquidos, dê nova forma a tua aparência para que não sejais reconhecida por ninguém.

Flora e Fauna – Ah, Compaixão Divina! Os inocentes não podem pagar pelos culpados. Equilibrado é o preceito que dispõe reconhecer igualmente o direito de cada um. Justa é a lei, que sendo única, sabe tratar os desiguais. Por que haveria a infâmia de um recair sobre os ombros dos demais? Mas escondemo-nos, irmã! O mesquinho negociante vem aí.

Mercador – Por Zeus! Já vasculhei cada pedaço deste terreno e nada da rebelde. É por meu investimento que devo continuar a busca. Não sou de levar prejuízo. Mas eis que vejo um moço. É bem possível que ele tenha visto a fujona, já parece estar ali a bastante tempo. Elá, pescador! Desculpe minha aproximação. Bem sei que, por tua atividade, necessitas estar concentrado mas, meu motivo é relevante. Acaso viste uma mocinha com ares desconfiado, passar apressada por aqui? Tinha ela os cabelos despenteados e estava pobremente vestida. Dize-me a verdade e tua sorte será boa, ou então, por Poseidon, nenhum peixe morderá tua isca.

Pescador – Divina Providência! Ele não me reconheceu. Devo agir como se outra pessoa fosse. Perdoa-me estrangeiro mas estava tão ocupado com o meu trabalho que nada vi. Possa eu jamais pescar outro peixe se acredito que esteve aqui, ainda há pouco, alguma mulher ou qualquer pessoa.

Mercador – Não tenho porque desconfiar do teu testemunho. Obrigado, meu rapaz! Devo agora continuar meu caminho admitindo que realmente minha escrava desapareceu e que a perdi para sempre.

Pescador – Potentoso Poseidon, minha eterna gratidão! Devo agora reassumir minha antiga forma e voltar para casa.

Flora e Fauna – Criança, que esperança ainda carregas neste teu coraçãozinho inocente? Amor filial! Por mais terrível que possa ter sido o passado, guardamos dele sempre uma imagem nostálgica, talvez a esperança de recuperar o afeto perdido. Mas já é chegado o fim. Nosso desastroso personagem chega finalmente ao limite da sua pena. Que tudo se consuma antes que ele vire herói por ter sofrido tanto.

Homem – Avassaladora Fome! Destruídos estão meus campos, meu gado e minhas economias. Bebi toda água dos meus reservatórios. Até as ervas daninhas misturei-as às migalhas e produzi sopa infecta para saciar meu apetite. Até as vestes comi e nada. Nada consegue aplacar esta ânsia. Não me resta mais nada senão meu próprio corpo. Calamidade! Fui inoculado alguma espécie de bactéria desconhecida. E por mais que dê tratos à bola não consigo decifrar o enigma. Fiz algo que jamais humano algum tenha praticado? Que importa isto agora quando sinto meu fim próximo. Que dura é esta carne! Devo cortá-la e cozinhá-la. Começarei por esta dispensável mão. É assim que acaba um homem, devorando-se a si mesmo.

Flora e Fauna – E foi assim. A fome obrigou Erisíchton a devorar seus próprios membros, destruindo o corpo para alimentar o mesmo corpo. Enfim, conseguiu libertar-se. Quisera os deuses que todos os humanos, partículas criadas para favorecer o equilíbrio universal, não se arvorassem em senhores. Poderosa Consistência! Vital tem sido tua paciência, preservando em nós a unidade de espírito para que tenhamos condições de escolher sensatamente. Em teu nome, vasta é a matéria e eterna seja a alma. Aceite estas libações para que a concórdia novamente de estabeleça entre todos os elementos da vida. Cantemos, dancemos, irmã! Hoje foi um bom dia. Quisera todos os humanos consagrem – e os deuses não intervirão – seus pais puros sentimentos na exaltação da Natureza. Cantemos, dancemos, irmã! Hoje foi um bom dia. Mas nem todos são iguais neste mundo de contrastes. Se um ora, outro blasfema. Se um cria, outro destrói. Não nos enganemos, irmã. Hoje foi um bom dia... Amanhã quem sabe?!


sábado, 15 de janeiro de 2011

O Homem que Comeu o Próprio Corpo – Parte 3

Segundo Espisódio

Oréade – Aqui estou na devastada Cítia. Neste árido e pedregoso campo pretendo encontrar a temível Fome. Eis que a vejo: cabelos hirsutos, olhos fundos, faces pálidas, lábios descarnados, boca coberta de poeira, pele distendida mostrando todos os ossos, arrancando a escassa erva com os dentes e garras. Assustadora visão! Terei de transmitir-lhe as ordens de Ceres à distância. Não me atrevo aproximar. Ó Desditosa! Ficais onde estás e ouça o que tenho a dizer. Apressa-te em ouvir o que a honrada Deméter quer que realizes. Há na abundante Tessália ignaro ser que necessita conhecer o poder da verdadeira justiça. Dirige-te até lá e envolva-o com tuas asas. Mal imenso praticou que teu abraço conduzirá suas entranhas ao mais completo inferno. Que ele jamais possa repetir semelhante agravo.

Fome – Por que me olhas com desprezo? Acaso acreditas que não sou digna?

Oréade – Não se trata de gostar. A criação deve ter tido razões para produzir também a feiúra.

Fome – Compreendo que por tua vontade, o mundo deveria conter apenas beleza?

Oréade – E porque não? Seria muito mais agradável.

Fome – Subjetividade juvenil! Não vês que existe o céu e a terra? O dentro e o fora? O alto e o baixo? Se eu não existisse por que os humanos trabalhariam? Eu sou a razão que move a existência. Sem mim o universo viveria na mais absoluta inação.

Oréade – Chega! Não disponho de tempo para discutir metafísica. Dize imediata se vais levar a termo as determinações.

Fome – Desde a muito vago por esta terra em rotinas absorvida. Desde tempo imemoriais espero uma missão que de fato corresponda à minha vocação. Voarei célere até onde esteja a criatura. Lá, penetrarei sem que a brisa perceba e realizarei o encargo que me solicita aquela que invejo e temo.

Oréade – Embora tenha me detido o menor tempo possível e mantido considerável distância, começo a sentir fome. Assim, depressa, devo regressar.

Flora e Fauna – Fuja, ó Linda! Não te deixes contaminar. Já ficaste por demais exposta a potentes fluídos. Concluíste a tarefa e nós te agradecemos. Enfrentaste com coragem o perigo. Mas agora vai para tua fecunda morada recuperar as forças.

Fome – Avisa tua deusa que presto este favor sem esperar recompensa senão o prazer de me mostrar inteira a quem assim me merece.

Flora e Fauna – Até aqui tudo se encaminha sem imprevisto. Erisíchton dorme. No rosto assassino o sorriso satisfeito. Parece tão inofensivo e puro. Vendo-o assim passa-nos que somos nós as feras. O mal só incita ao mal. E a cada instante novo sacrifício é exigido até que tudo se exaura. Mas pára! Devemos acompanhar a feiosa dar cumprimento à justiça.

Fome – Ah, Repulsiva Presa! Quão rígida é esta asquerosa consciência. Mas, por mais inquebrantável que seja este caráter, não será capaz de resistir à minha voraz ansiedade. Devo cumprir as ordens da cobiçável deusa, mesmo que não o faça por obediência. É preciso que ele saiba que não se despreza os deuses. Mas estanca subjetividade! Não vim aqui para tecer comentários acerca do direito mas dar prosseguimento àquilo que a reta conduta prescreve. Mesmo invadida por repugnante sentimento devo submeter-me a esta causa para que meu ato seja entendido como eficaz. Basta! Ele continua dormindo e em seus sonhos ansia por por alimentos movendo a mandíbula como se estivesse comendo. Agora devo apressar-me. Já executei minha missão. Devo deixar esta terra de fartura e voltar à minha costumeira desolação.

Flora e Fauna – Não há como fugir. A sentença está consumada. Ah, como foi horrível para os olhos assistirem medonho relacionamento. Mas não há desgraça que não seja produzida pela intolerância. Vai, Erisíchton, vai! Vai cumprir o teu destino. Podia ter sido melhor. Mas, fizeste tua escolha.

Homem – Sinto-me dominado por irresistível insaciedade orgânica. Uma cratera parece que se formou nas minhas vísceras. Arde fogo tórrido nos meus intestinos. Dói-me os músculos abdominais. Meus dentes rangem e minha saliva sobeja. Necessito ingerir sustento que provenha meu organismo de potência. Mas, que digo? Sou rico o suficiente para manter minha despensa fortalecida. Filha, depressa. Prepara as melhores iguarias de quaisquer espécie que seja produzida na terra, no ar e no mar. Estou sendo devorado pela fome.

Filha – Aqui tens o que já aprontei para teu desjejum.

Homem – Bendita sejas tu! Parece que adivinhaste minha miserável situação. Mais, preciso de mais.

Filha – Pai! Isto que preparei daria para o dia inteiro.

Homem – Não discuta. Preciso saciar este assombroso apetite. Vai, assa-me uma dúzia de tenras vitelas e todo peixe que encontrares no mercado.

Filha – Estranho hábito. Meu ganancioso pai ultrapassa seus limites.

Flora e Fauna – Longe de nós a perversidade e o sadismo. Mas a decadência apenas começou. E se bem conhecemos este homem, não partirá dele aceno que reverta esta situação. Já antevemos o caos para onde ele se encaminha. Não tem sido por falta de apelos e avisos, mas às vezes, o ser humano nem enxergando é capaz de acreditar. Mas deixemos por ora estas considerações. O tempo já deu muitas voltas. Erisíchton aí vem, por demais transtornado.

Continua...


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Homem que Comeu o Próprio Corpo – Parte 2

Primeiro Episódio

Homem – Quão grandiosa é a minha obra. Quão rico me torno, graças ao meu engenho e coragem. Glória à minha sabedoria que me estabeleceu aqui na Tessália, uma das regiões mais privilegiada da Terra. Mas, ó Fortuna! É imperioso cuidar de ampliar o pasto para que o gado se multiplique e eu continue obtendo lucros líquidos e certos. Céledro! Rápido, parasita, obedece ao teu senhor!

Servo – Aqui! Que posso fazer para tornar a vida do meu amo mais farta e confortável?

Homem – Dissimulado! Tua língua proclama fidelidade mas teu coração é traiçoeiro qual um verme das pedras.

Servo – Fantasias, meu senhor! Que pode inútil rato contra a grandeza da águia?

Homem – Bajulador! Cala e escuta: os pastos já não são suficientes para o rebanho. Preciso de mais espaço.

Servo – Nauseante Avareza! Patrão, avançamos o pasto cerca de dez mil pés explusando os Góridas para o lado leste não faz dois dias.

Homem – Isto é passado!

Servo – Mas não há mais para onde crescer. Adiante encontra-se o mar.

Homem – E aquele imenso bosque do lado sul?

Servo – Por Zeus, meu senhor! Naquele bosque há o vetusto carvalho consagrado à Ceres.

Homem – Frivolidade! Lá não reside à deusa. Vive ela no palácio olímpico regalando-se com ambrósia e néctar servidos por Hebe.

Servo – Sórdida Avidez! Não posso contrariar o amo mas, o bosque e o carvalho são protegidos pela ninga Dríade e eu não gostaria de ser perseguido pelos seguidores de Pã.

Homem – Superstição!

Servo – Tremo só de pensar no que esteja planejando.

Homem – Dou-te uma ordem, vai! Corta o carvalho ou cortarei tua cabeça.

Servo – Que situação! Na encruzilhada em que ele me coloca devo decidir por minha ou a fé.

Homem – Pouco me importa se aquela árvore é ou não amada pela deusa. Fosse ela própria uma deusa eu a abateria mesmo assim, porque se interpõe no meu caminho. Ousas desobedecer-me?

Servo – Não devo...

Homem – Covarde! Depois me entendo contigo. Vou eu mesmo cuidar de arrancá-la.

Servo – Ó Inconsequencia Humana! Um humano não pode ser tão estúpido!

Homem – Tens tua última chance.

Servo – Não, profanador! Não ouses continuar com esta insensatez!

Homem – Desafia-me? Toma a recompensa por tua piedade. Aquele que não pensa não merece ficar com a cabeça sobre os ombros. E quanto a tu, árvore, aprendi que só a razão move o progresso e muda a face do mundo.

Ninfa – Eu, Dríade, moro nesta árvore amada pelos deuses e, morrendo por tuas mãos, predigo que enorme castigo te aguarda.

Homem – Não acredito em fadas. Minha religião é o meu bem estar. De ti farei belos móveis, a lareira da minha casa terá lenha para muitas noites e o meu gado mais pastos para alimentar-se. Ó Ditosa Força! Divina é a potência humana.

Flora e Fauna – Ó Mágoa! A dor destroça a alma. Sombrio é o futuro. Acaba de ser morta nossa irmãzinha por sentença tirânica. Botemos luto, e recorramos àqueles que podem corrigir o curso de presente tão funesto. Ó Ceres! Ultrajado está o orgulho da floresta. Pedimos, pelas lágrimas que mancham nossas faces, que o culpado seja punido. Magnífica Deusa, que quando curvas a cabeça todas as espigas maduras para a colheita se inclinam, nós te convocamos! Vinde a nós e proclames o exemplo.

Ceres – Acendo ao vosso pedido, Ninfas Protetoras de tudo quando mais aprecio e estimo. Porém, devo alertar para a consequencia desta convocação pois, aos deuses, não se apela em vão.

Flora e Fauna – Ah, Madrinha! O que temos a dizer todos na Terra, em tristes ais, lamentam pesasoros. A grande árvore, o frondoso carvalho, útero e morada da exuberante Dríade, foi ceifado por golpes maledicentes de insidiosa criatura. Nossa irmãzinha jaz fria e estéril sobre o solo que sustenta o agressor. Queremos justiça para tal ignomínia. Que ele tenha sobre si todo ódio capaz de conduzir à loucura!

Ceres – Palavras de Parcas! Parai. Acaso vos ensinei desejam tamanho mal?

Flora e Fauna – Perdõe-nos, ó Divina! Mas assistimos tudo. Olhai! Estendei vossa vista para aquele corpo macio prostrado sobre o chão consagrado à vossa glória. Erisíchton, este é o nome, homem de monstruosa vontade, apesar dos apelos de quem bem conheceu o sofrimento e a humilhação, inexoralvelmente arrancou, com garras de górgona, o símbolo maior do teu poder sobre a Terra.

Ceres – Dríade abatida?! Indigno é quem provoca ato tão demente! Ó que ainda me encontro buscando consolo por desgraça passada e verifico que a alma humana, apesar de todos os benefícios que possamos, nós os deuses, ofertar, ainda é capaz de atos tão abjetos.

Flora e Fauna – Quem fez isto é inferior ao mais vil inseto!

Ceres – Se é assim como dizes, um verme foi quem provocou tal baixeza, basta que o pé heróico de Héracles pouse sobre a sua cabeça para que tudo se resolva.

Flora e Fauna – Não! É preciso mais. O Insígne Guerreiro o destruíria mas a latente vocação permaneceria como vírus contaminando até os mais puros de coração.

Ceres – Por encontrar-me desvalida, apenas uma vez castiguei os humanos. E descobri que eles não resistem a uma pena imortal.

Flora e Fauna – Não amacies teu coração, Ó Poderosa! Anuncie severa decisão para que tão logo possamos reconquistar a sanidade perdida.

Ceres – Que seja! Embora o faça com o coração consternado. Que venha Oréade, a ninfa das montanhas e grutas. Ela conduzirá o juízo inconteste da minha deliberação.

Flora e Fauna – Campos e vales, campinas e cerrados! Ouçam nosso chamado: envie até nós, da montanha querida, no dorso do vento, a casta Oréade. Que ela atenda e realize o que a nossa Deusa quer que se efetive.

Oréade – Não podia deixar de atender tão lancinante chamado. Amada Ceres! Que pretendes que eu faça? Ordene e estarei pronta para prestar a minha vassalagem.

Ceres – Amável Criança! Nobres são tuas palavras, mas não busco lisonjas. Nosso desejo é que se cumpra a virtude conforme atávico direito. Preciso que executes, sem parcialidades, a tarefa que te vou incumbir. Há na parte da longínqua e gelada Cítia, uma região estéril e triste, sem árvores e sem campos cultivados. Ali moram o Frio, o Medo, o Terror e a Fome. Vá àquela região e dize à última que tome posse das entranhas de Erisíchton. Que a abundância não a vença, nem o poder dos meus dons a afaste. E tu, destemida, não te assustes com o distância. Toma do meu carro, os dragões são obedientes. Levar-te-ão, através dos ares, em pouco tempo.

Oréade – Partirei imediatamente e atingirei o objetivo a que me destinas. Chegarei imaculada, ao Monte Cáucaso e levarei a efeito tua solicitação.

Ceres – Entenda-me, ó cândida! Chamei-te por não poder eu mesma aproximar-me da Fome. As vigilantes Parcas previram que nós duas jamais devamos nos encontrar.

Oréade – Assim está dito. De minha parte, estou disposta a fazer o que, na tua gloriosa ventura, não sois permitida executar.

Ceres – Muito te agradeço, preciosa! Agora, vai: faça a roda do destino cumprir mais esta etapa.

Oréade – Beijo-te as mãos, Zelosa Mãe! E num átimo de segundo estarei diante daquela que vai prosseguir o curso deste processo.

Flora e Fauna – Ó Sinceridade Afetuosa! Amamos quem amamos e fazemos o que acreditamos justo. Assim, o direito conduz, imparcialmente, cada ser à devida competência. Mas não se pode esperar mais. Levemos nossa irmã ao leito pleno. As festas fúnebres lhe daremos. Pois se alma evapora é preciso que lhe demos os meios para conquistar a permanência. Ó irmã! Não sei se grito ou suspiro. Espero apenas que a justiça triunfe.

Continua... 


domingo, 9 de janeiro de 2011

O Homem que Comeu o Próprio Corpo - Parte 1

Introdução

Toda e qualquer civilização é construída a partir de mitos fundadores. Todo povo tem o seu, que se desdobra em diversas narrativas que buscam dar sentido à existência. O mito é uma tentativa de explicação poética da vida, do mundo, da origem do ser humano e da sua missão e responsabilidade individual e coletiva, do ponto de vista moral, espiritual, psicológico, pedagógico e sociológico.

Particularmente aprecio os mitos gregos. Dentre estes, um especialmente, me chama a atenção por sua imediata relação com o nosso tempo. Trata-se da história de Erisíchton, um homem muito poderoso, proprietário de uma vasta extensão de terras. Na ânsia de ampliar seus negócios e obter mais lucros cortou um imenso carvalho dedicado à deusa. Como para cada ação advém uma reação, ela o castigou com uma insaciável fome, levando-o a gastar toda a sua fortuna na vã tentativa de saciar seu apetite voraz e, quando não possuía mais nada, passou a comer o próprio corpo. Este mito provavelmente nasceu quando os humanos passaram a cultivar os campos, quando deixaram de apenas usufruir da fartura natural para começar a produzir o seu próprio alimento. Quando passaram a ganhar o sustento com o suor do rosto, plantando para alimentar-se.

Na cultura judaica e posteriormente na cristã, isto foi encarado como uma condenação. Por ter comido da Arvore do Conhecimento do Bem e do Mal, o ser humano pecou e por isto foi expulso do Paraíso, tendo que trabalhar para viver. Daí, talvez, o trabalho ser tão pobremente recompensado entre nós – não há porque premiar o cumprimento de uma pena. Na mitologia grega, ao contrário, aquele ato de passagem foi uma dádiva. Contemplado pelos deuses com o conhecimento do trabalho de arar e semear o reluzente trigo, pode o ser humano, pela primeira vez, vir a fabricar alimento – o pão! A humanidade ganhara autonomia e poderia viver feliz para sempre não fosse o “manual de instruções” alertar para uma grave consequência: de posse do poder de interferir na Natureza, deveria, o ser humano, atuar com moderação e controle, sem egoísmos, sabiamente, para que não viesse a transformar a existência num irreparável flagelo.

Têm absoluta razão os que afirmam: modernos, foram os helenos! Em termos éticos pensaram em tudo. Por isso eram trágicos. Daí seu pensamento, penso, dever voltar a fazer parte deste nosso sofrível e desmemoriado cotidiano para que possamos, talvez, recuperar a sanidade perdida.

Intento, a partir de hoje, postar, em partes, na forma de diálogo, algo que escrevi a cerca de quinze anos atrás. Apesar de ser um libelo ingênuo e reducionista serve bem aos propósitos que nortearam sua composição: contar uma boa história, fazer uso de uma linguagem inusual, estabelecer ligação com o passado e servir à reflexão sobre o futuro que desejamos para a humanidade. Pode ter saído algo maniqueísta mas, não existe meio termo entre viver e sobreviver. Pode até existir perdão, justificativa ou desculpa para os atos que perpetramos contra a natureza mas certamente eles não invalidam as consequências. Faz-se urgente uma mudança de paradigmas. Que cada um os encontrem no recesso de suas próprias individualidades e no laborioso encontro no campo das experiências honestamente colocadas. Que os melhores sobrevivam!

Vamos à dramatização desta tragédia que atinge todas as idades.

Prólogo

Arauto – Não se assustem com o terrível enredo desta história. Ele apenas demonstra aquilo que a ambição desatinada pode gerar de infortúnios para toda a humanidade. Por se tratar de uma ação horrenda, o autor achou por bem iniciar com uma pequena celebração de louvor à Natureza, aqui representada por Ceres, deusa da agricultura, na esperança de que sejam semeadas graças sobre o desenrolar da cena e não caia sobre nossas cabeças a desgraça que irá se abater sobre o protagonista. Fiquem em paz e concentre-se.

Ofertório

Pai – Ó amada Deusa! Aqui estamos no bosque consagrado à tua glória para louvarmos a Bem Aventurança.

Mãe – Venerável foste tu, Grande Ceres, assistindo meu filho ainda pequeno. Com teus poderes magníficos conseguiste debelar o mal que lhe destruía a vida. Hoje, mais uma vez, entrego a ele, em respeito ao teu gesto inovador, este ramo de trigo para que fique gravado na lembrança das gerações teu feito maravilhoso.

Pai – Ó Dríade! Ninfa protetora dos bosques. Permitas que, em mais este ano de vigor e abundância, eu entalhe no tronco da tua árvore a marca da nossa agradecida presença.

Filho – Venerável Ceres, que a terra tornas fértil e os grãos nutritivos, exaltamos o dia em que nos presenteaste com a sabedoria do trabalho de arar e semear o reluzente trigo.

Mãe – Venturosa lembrança! Avivemos nossos pensamentos para que possamos recordar aquele dia em que, sentada ao pé desta árvore ancestral, a nossa benévola senhora chorava a perda da única filha, a bela, jovem e inocente Core.

Flora e Fauna – Afortunado dia! Colhiam eles amoras silvestres e gravetos para alimentar o fogo domésticos quando a surpreenderam desvalida e a convidaram para passar a noite na humilde casa em que habitavam. Arbitrário foi o destino que a trouxe a esta terra chamada Elêusis. Ardiloso foi Eros que, a mando de sua mãe Afrodite, acertou com a mais aguda e fiel seta o coração do monarca absoluto dos mortos, o potentoso Hades, fazendo-o apaixonar-se e raptar a donzela, encerrando-a para sempre no escuro Tártaro. Mas ela, diligente mãe, percorreu o mundo à procura da adorada filha. Antes, irada, lançou a culpa sobre a terra, provocando a mais severa desolação, por ainda desconhecer a causa daquele infortúnio. Vendo-a naquele estado muito insistiram até que ela consentiu em partilhar da cabana.

Filho – Lá eu jazia enfermo e ela, graciosa deusa, me beijou os lábios e me deu de beber caldo de aromáticas papoulas murmurando três vezes na minha boca palavras de encantamento. Deste modo minha saúde foi restituída por completo.

Mãe – Enquanto vida as Parcas me permitirem, pedirei perdão pela desconfiança que lancei sobre aquele augusta cabeça, frustando sua tentativa de deitar meu único filho às cinzas, pois não sabia que desejava apenas torná-lo imortal. Com infinita bondade nos disse que, apesar disto, ele cresceria grande e forte. E eis, Querida Ceres, a verdade da tua excelsa vontade.

Flora e Fauna – Não fosse Aretusa, a ninfa transformada em fonte, contar-lhe toda verdade e Zeus, pai dos deuses e dos homens, sábio e altivo nas suas decisões, ela ainda teria o peito inundado em lágrimas. A seu pedido, o Olímpico Jove enviou Hermes, o de pés ligeiros, e a diáfana primavera ao mundo subterrâneo pedirem a liberação de Core, caso ela ainda não houvesse comido dalgum fruto do mundo dos mortos. Porém, Moira, o destino implacável, achou por bem não permitir que ela fosse atendida integralmente. Tendo comido de uma romã ofertada pelo enamorado Pluto, Core ficou impedida de regressar ao seio materno. A desesperada mãe recorreu mais uma vez a Zeus que, sempre justo nos seus veredictos, consentiu que Core passasse a metade do ano com a mãe e a outra metade com o marido.

Filho – Ó Mãe Ancestral! Soubeste aceitar o acordo e esquecer a ira. Devolveste à terra teus férteis favores. E para completar a obra, voltaste para nos ofertar a divina graça. Resignada com o desfecho da aventura, tu me levaste num carro puxado por dragões alados a todos os países entregando à humanidade cereais valiosos e o conhecimento da agricultura.

Família – Ó Dríade! Tu que nasceste e moras neste magestoso carvalho, que de tão grande dá sozinho a impressão de ser uma floresta inteira, nós te homenageamos por protegeres o símbolo das nossas mais belas histórias.

Flora e Fauna – Doce Devoção! Nós nos alegramos e aceitamos estas singelas oferendas, prática comovente de amor à nossa Terra. Cantemos, dancemos, irmã! Hoje foi um bom dia. Quisera os homens consagrem – e os deuses não intervirão – seus mais puros sentimentos em singela exaltação. Cantemos, dancemos, irmã! Hoje foi um bom dia. Mas nem todos são iguais neste mundo de contrastes. Se um ora outro blasfema, se um cria outro destrói. Não nos enganemos, irmã! Hoje foi um bom dia, amanhã quem sabe?!

Continua...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Casinha Branca no Alto da Colina

Idílio, Tarcila do Amaral, 1929

Para fazer poesia, confesso
Devo estar bagunçado
Un animal dans la tête...
Pressões batendo à porta,
Beira do caos, desespero, asilo...
E os braços nus dessa pagã, minha outra.

Minha vida é habitual demais
Para ser lírica.
Minha vida é ordinária demais
Para ser poética.

Turista eterno nesse porto,
Penso a poesia
Qual uma casinha pequenina
Na colina em que me escondo.

A minha poesia, este castelo de cartas,
Não resiste ao peso da matéria
Insustentável, impermanente, instável
Contingente é a minha poesia.

Não tem dia, não tem hora,
Não tem lugar a minha poesia.
Erma, despovoada, silenciosa e só
Vive a minha poesia.

Por isso a visito vez em quando
Em momentos de maior necessidade:
Instantes de pobreza extrema,
De carência, nulidade
Principalmente de impotência
Diante da insídia e iniquidade.

E sendo breve esse hálito terno, calmo
Repudio o que deve ser repudiado
E afirmo o que deve ser afirmado.

E logo adeus... um beijo tênue
Me despede sóbrio...
Retorno ao mundo, o mesmo
Desacostumado de tudo.


sábado, 1 de janeiro de 2011

À Boa Mãe

worldtravel.bloguez.com

Céu e terra, natureza e espírito, esposa e marido, pai e filho, cidadão e governante...
Eu sou a Terra, o vasto ventre.

Nunca combato, completo.
Faço com que as coisas nasçam, dou-lhes forma.
Substância cada qual engendra de acordo com a natureza.
Eu sou a Terra, o vasto ventre.

Atuo no movimento, repouso na quietude.
Atuo no abrir, repouso no fechar.
Eu sou a Terra, o vasto ventre.

Ao me abrir, permito que entre luz.
Ao me fechar, abraço todas as coisas.
Eu sou a Terra, o vasto ventre.

Um humano buscava manter uma posição que não lhe correspondia.
Ao buscar dirigir em vez de servir, atraiu a ira do forte.
Feriu-se ambos numa luta antinatural.
É o que acontece quando a pretensão rivaliza com a autenticidade.
Empenhar-se em conseguir tudo por si mesmo conduz ao infortúnio.
Eu sou a Terra, o vasto ventre.

Devoção e flexibilidade não excluem a força.
Eu sou a Terra, o vasto ventre.

Imaginem um cavalo que percorre incansavelmente a vastidão dos campos.
Sou eu, a Terra, o vasto ventre.

Que a fama fique para os outros: não busco méritos mas frutos.
Eu sou a Terra, o vasto ventre.

Ampla e maciça, sustento todas as coisas, sem exceção, boas e más.
Nada é privado de sua natureza, embora alguns se arvorem em meus donos.
Eu sou a Terra, o vasto ventre.

Quem não quer ser assim: incansável e forte?
Auto evidente, sem artifícios,
Zeloso, congruente, verdadeiro,
Dedicado, flexível e correto?
Eu sou a Terra, o vasto ventre.