domingo, 27 de fevereiro de 2011

Os Terroristas

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Era um professor duro, exigente e implacável. As provas eram feitas sem aviso prévio. Todos os trabalhos valiam nota e eram corrigidos segundo os critérios mais rigorosos. Resultado: no fim do ano quase todos os alunos estavam à beira da reprovação.

As notas que ele anotava cuidadosamente no livro de chamada era as mais baixas possíveis. O que fazer? Reuniam-se todos os dias no bar em frente ao colégio, para discutir a situação, mas nada lhes ocorria. Até que um deles teve uma ideia brilhante. O livro de chamada. A solução estava ali:tinham de se apossar do livro de chamada e mudar as notas. Um 0 poderia se transformar em 8. Um 1 poderia virar 7 (ou 10, dependendo do grau de ambição).

O problema era pegar o livro, que o professor não largava nunca, nem mesmo para ir ao banheiro. Recorreram, pois, a catástrofe. Um dos alunos telefonou do orelhão em frente ao colégio, avisando que havia um principio de incêndio na casa do professor. Avisado, o pobre homem saiu correndo da sala de aula, deixando sobre a mesa o famigerado livro de presenças.

Acreditareis se eu disser que ninguém tocou no livro? Ninguém tocou no livro. Os rapazes se olhavam, mas nenhum deles tomou a iniciativa de mudar as notas.

Às vezes a consciência pesa mais que a ameaça da reprovação.

Moacyr Scliar (1937-2011)

PS: Meu muito obrigado, doutor, pela Introdução à Prática Amorosa!


Instante IV

1000filmesparaassistir.blogspot.com


Não tenho mortos para enterrar nem túmulos para enfeitar...

Um dia, voarei através das nuvens, atravessarei o mar e,
Sereno em muitas brisas, não cederei à vertigem das fronteiras.

Serei bem vindo em tantos braços, bafejado em quantos dons
Dedos diligentes e suaves balsamarão minhas asas com unguentos virginais.

Longe, verei o dia e a noite recriarem suas órbitas
E, em uníssono, estrelas polifônicas cantarão auroras em concertos augurais.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Instante III

Cantante Melancolico, Joan Miró



No sussurro do vento
Lateja a melodia

Quiça pequeno gesto
Suste toda agonia

Na folha, o acaso expande
A letra que acaricia

Oh, que hora tão tardia
Fraqueja lágrima, liberta o que seria.  


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Instante II

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Desnudos sentidos me despertam
Uma canção abismada de oriente.

Surpreso, busco retê-la malogrado
Tola mágica que afixe o silêncio
Numa cantiga abusada de mistério

Sombras bruxuleiam e me captam
Rumos arrancam-me em alentos
Cedo à cata de algo que me some

Cerram-me os olhos, rotos de ver,
Rotineiros olhos que me ramam
No sussurro desse oceano brando

Brilhos e clarões ingentes e castos
Nomes sóis pulsantes de pronúncias
Sintaxe pura, auroras revivescidas

Convocadas no eco desta chama
Cavo é o que resta da história
Um fonema em forma de paisagem.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Instante I

Lines and Wines, Fábio Pinheiro


Na caverna permito que me toquem as imagens,
Brilham ecoadas em paredes soterradas de relâmpagos.

Cúpulas, de claves ogivais,
Entoam notas mudas de um concerto.
Pontuam o traço pausas em espectro.

Um ângulo soçobra retocado
No enlevo altissonante de uma curva.
Ondas reticentes respiram inexatas.

Sentenças acridoces exalam desta rocha.
Acordes perfuram o hálito aveludado deste céu.
O ruído, incauto e suspeito, ilude, frusta
Desintegra o sentido figurado da paisagem.

Um corpo resvala na sirene,
Vozes amplificam a espera,
Rasga o sol uma ária inaudita
Deslocada por completo do contexto.

Ó minúsculo mundo de lonjuras:
A calçada é um campo de opostos!
O asfalto, uma via de mão única.

Na sala, dormitam sonhos aguardados
E nenhuma vocação para o mercado.  


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Epílogo

Fotograma de Animaçao, Ricardo Quaresma e Maria Freire



Todos os céus me sobrepõem.
Todos os abismos me aguardam,
Lancinantes.

Roço a vida com a ponta dos dedos.
Acaricio a íris tênue da alegria
E penso balbuciar um poema taumaturgo.

Cativo, rendi-me ao logro.
Incapaz de perceber o blefe,
Vago no tempo que me resta.

Quando a janela transbordar
Uma imagem opaca ficará:
Eis que ali pousou um vaso, incerto
Da planta que um dia habitou.

E a rua, refeita
Dos caminhos crassos,
Em versos breves
Numa ode farta,
Quem sabe sobre
Um refrão esquivo
Que abafe o ruído
Do jarro partido.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Perspectiva


Detalhe de imagem em palavraangelical.blogspot.com

À minha frente, a rua.

Entre a rua e eu
Existe uma janela
Partida.

Eu abri e parti:
Uma banda à direita
Outra à esquerda.

A janela é um todo
Partido.
Fui eu quem partiu.

As duas metades
A inventar direções...

Antes de chegar à rua
Parto a janela.

Antes de chegar à janela
Parto os olhos.

Antes de chegar aos olhos
Parto o pensamento
De encontro à janela

Na perspectiva oblíqua
Da rua que parte dela.  


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Silêncio

Musa do Silêncio, Giorgio Chirico, 1913


Flores elétricas de petróleo, suspiram outono.
O ar luminoso e a fumaça mecânica do cigarro:
Passado e o futuro - pura estática -
Fuligem de peregrinos sonhos.

Tanto a perder...
Nada a perder além destas águas inundas:
Pinheiro, Tietê... tão pútridos,
Tão insistentes no uso banal da liberdade -
Ó veias detonadas pela ignomínia dos cínicos.

Quem quer saber, ó massa de olhares oblíquos, das estrelas infindas
Madrinhas de destinos pífios, ó intimidades cortesãs?
Tudo é tão vasto William, e a matéria minúscula.

Ah, simplesmente imitar os grandes: Jorge, Fernando, Andrade...
Apropriar ideias, fundi-las num chip e incrustar no córtex.
Sofrer solidão povoada de sonhos e lamentos ancestrais.

Repartir cada migalha de lágrima com vocês
Ser tudo e não ser nada, acordar menor ainda,
Tão ínfimo e irresponsável como se não houvesse seguinte.
Escrever e não corrigir quisera, ó meu espírito tomado de assombro!

Que haja desencontro nesta avenida possuída de ícones
(Santidades adornadas de tributos em saletas virtuais)
Que hoje quero beijo grátis em feiras de duvidosas tecnologias!

Que sabemos, ó comuns, dos olhares suicidas,
Dos que se movem nessa noite de orgias evangélicas?
Que onda transpassará as almas no além instante?

Deixai-me, ó pensamentos:
Devo caminhar ornado de palavras e temores,
Pétalas que lanço à passagem para afugentar multidões.

Cansado de sinas e empurrões alço voo ao abandono,
Sítio imensurável, território inacessível a todas as promessas
Fabricadas em depósitos clandestinos de cimento e cal.

Real apenas uma velha ponte, construída de nuvens abstratas,
Incartograficamente situada na fronteira do esquecido,
Onde nada é alcançado, elogiado ou execrado,
Onde não existe revolução, invenção ou revelação,
Ó meus dedos habitados de ferrugem e sal.

A ponte e um nome por companhia apenas,
Reunião de fonemas ausentes de teoria,
Lugar onde finalmente me terei
Longe da tristeza pragmática dos concretos
Do assédio de deuses vociferantes, céticos de calçadas...
Lá, Maíra vale e vela esse meu sono expiante de agonias.

Ah, Maíra, teus lábios entoam histórias e canções absurdas,
Faz-me rir teu sorriso desbotado, transcendentemente incrédulo,
Só assim tolero teu irrefreável discurso e inutilmente varrermos o pátio
Enquanto gargalhamos das mungangas dos acrobatas
E o dia vai e volta, a dor é perene e não sabemos...

Ó sentinelas, vigias impassíveis que olhais estes passos,
Respondei sem escárnio se perguntados onde (que nojo, não digais).
Não precipitai os olhos em conclusões
Nem reparai nos meus sapatos fubecas
Tampouco neste meu jeito antigo, ginasiano de dizer...
Vede que nos tangem catapultas de abismos?