sábado, 26 de março de 2011

Instante IX

Relógio Amolecido no Momento da Primeira Explosão, Salvador Dali, 1954



À margem do ofícios
Sonolentos
Vigia impassível
Onipotente ponteiro.

Devaneios flutuantes
Martelam teclas pungentes.

Dedos ociosos
Acariciam
Tediosa garatuja.

Esgares e ais ilustram
Submissa hora.

Ainda bem
Que hoje é sexta-feira!


sábado, 19 de março de 2011

Instante VIII

Sisifo, Ticiano


De montanha a grão de areia, em segundos...
- Vale a vida, a pena ser vivida?

Aquele, sofre para compreender
Aqueloutro diz que o trabalho enobrece
Já disseram várias vezes que a virtude é o meio
Conquanto, desde sempre, conhecer é poder comprá-lo.

Só desejo morrer, para poder dormir,
Diz Hamlet, um nobre convencional.
Mas num universo de fantasmas, traições e vazios
Pode-se confiar em alguém, de verdade?

Do suicídio, nem me falem os jovens
Com seus catálogos de guloseimas
E espirros dodecafônicos da última geração

Nesta nau de insensatos na qual vogamos
Neste ponto obscuro da galáxia
Encenamos um melodrama familiar
Familiar ao ponto de nos fazer esquecer
Que não faz nenhum sentido viver... ou morrer!

Eia, então...
Empurremos essa pedra colina acima,
Nós outros, os condenados,
Até que nos consuma a pergunta:
- Vale a vida, essa pena vivida?


domingo, 13 de março de 2011

Instante VII

O Velho Homem Triste, Van Gogh


Vou no rumo,
Dizia meu avô -
Analfabeto de letras
Que não lhe dissesse respeito.

Pra que cálculo,
Se adivinhas
Após o jantar
Era apenas diversão?

- O que é que é, é teu mas os outros usam mais?

Ia no rumo, meu avô
Quase sempre acertou.

No dia que pensou
Ter dado o pulo do gato
A vida, ingrata, o despejou.

Foi assim, meu avô,
O ingênuo ladino...
Ensinando-me a contar.


quinta-feira, 10 de março de 2011

Instante VI

nameitasyouwill.tumblr.com



O edifício de alamedas cintilantes
Esvoaça o pardal em panfletos monocórdios

A horta de alcalinos sussurros
Contempla a arma de artérias basculantes

Um pé mecânico dolente vagueia
A cidade arde, dança e fere: foi hoje

Ácida cópula palmilha no ar
A lâmina e um engastado gosto de baunilha.


sexta-feira, 4 de março de 2011

Instante V

atuleirus.weblog.com.pt


Morrerei um dia.

O tempo que esperei
Valeu, penso
Logo que parto.

Produto exclusivo do acaso
Numericamente inconcebível
Das conjunções, o imponderável
E no entanto, incerto, eis que vivo

Quantas jornadas
Indas e vindas tantas...?

E esta singularidade,
Entropia que me aguarda
No entanto...