sábado, 30 de abril de 2011

A Tradição Relativa II

www.centrostudilaruna.it


A Contenda dos Dois Touros

Após um ano de casado, Ailill de Leimster perguntou à esposa: “Mulher, é verdade o que diz o provérbio: a mulher de um bom homem é boa?” Ela respondeu: “Sim, mas que importância tem isto?” Ele retrucou: “Porque você é uma mulher melhor hoje do que quando a desposei”. Ela disse: “Eu era boa mesmo antes de ter-lhe visto”.

Curioso então”, comentou ele, “que jamais tenhamos ouvido qualquer coisa do tipo, mas apenas que você depositava confiança em seus ardis femininos, enquanto os inimigos nas fronteiras do teu reino pilhavam livremente seu butim e sua presa”.

Eu não era como você pensa”, disse ela, “mas morava com meu pai Eochaid, que teve seis filhas. A mais nobre e adorada de nós todas era eu. Pois com respeito à generosidade, eu era a melhor; e com respeito à batalha, luta e combate, também eu era a melhor. Eu tinha diante de mim e à minha volta duas vezes mil e quinhentos mercenários reais, todos filhos de capitães. Com dez homens para cada um e, para cada um desses oito homens; para cada um desses, sete; para cada um desses, seis; para cada um desses seis, cinco; para cada um desses cinco, quatro; para um desses quatro, três; para cada um desses três, dois; e para cada um desses dois, um. Esses todos estavam ao meu serviço; eis porque meu pai deu-me uma de suas províncias da Irlanda. Ou seja, esta de Cruachan, onde estamos agora. Por isto sou conhecida pelo título de Meave de Cruachan”.

Em seguida”, disse ao marido, “veio uma representação do rei de Leimster, Finn Mac Rosa Rua, pedir por mim. Outra de Cairpre Niafer Mac Rosa, rei de Tara. Uma do rei de Ulidia, Conachar Mac Fachtna. E ainda outra de Eochu Beg. Mas eu os rejeitei. Pois eu era a que requeria um dote raro, como nenhuma mulher jamais havia exigido de nenhum homem de Erin: que meu marido fosse um homem sem um mínimo de mesquinharia, sem ciúmes e sem medo. Se o meu marido fosse mesquinho, não daria certo, pois eu o sobrepujaria em liberalidade. Se fosse temeroso, também não daria certo, pois eu sozinha seria vitoriosa nas batalhas, disputas e rixas. Se fosse ciumento, tampouco daria certo, pois jamais fiquei sem um homem à sombra de outro. E eu consegui, na verdade, exatamente um marido assim: você, Ailill Mac Rosa Rua de Leinster. Pois você não é mesquinho, nem ciumento e nem covarde. Além dos mais, eu lhe dei presentes de casamento de grande valor, tal como convém a uma mulher; tecido para o vestuário de doze homens; um carro de combate no valor de três vezes sete jovens escravas; a largura do seu rosto em ouro vermelho, e bronze branco do peso do seu antebraço esquerdo. De maneira que se alguém o depreciasse, mutilasse ou enganasse, não haveria garantia ou compensação por sua honra aviltada, a não ser o que é meu; pois você vive nas barras da saia de uma mulher”.

Sinto-me ofendido”, disse Ailill e apelou para uma contagem comparativa das propriedade. E diante da vista dos dois desfilaram primeiramente suas canecas e cântaros, recipientes de ferro, vasos, tinas e barris de cervejeiros; anéis e braceletes, vários broches ornamentais, anéis para o polegar e vestuários de cor carmesim, azul, negro e verde, amarelo, xadrez, multicolor e listrado. Em seguida, seus numerosos rebanhos de ovelhas foram trazidos das pastagens, pradarias e campos abertos, descobrindo-se serem iguais em número; fez-se o mesmo com os cavalos e também com as varas de porcos. Entretanto, quando os animais desfilavam, foi percebido que, apesar de serem iguais em número, havia entre os do rei um certo touro chamado O-de-Chifres-Brancos, que tinha sido um bezerro entre as vacas de Meave mas que, não desejando ser governado por uma mulher, tinha fugido e tomado seu lugar entre o rebanho do rei. Seu equivalente em tamanho e majestade não havia entre os principais touros do rebanho dela. Quando ficou evidente a desigualdade, a rainha sentiu como se todo o seu rebanho não tivesse valor algum.

A rainha Meave perguntou a seu arauto, Mac Roth, se havia em qualquer província da Irlanda um touro de valor equivalente ao de O-de-Chifres-Brancos. “Conheço um duas vezes melhor e mais excelente”, respondeu, “do rebanho de Daire Mac Fachtna, em Cooley, que é conhecido como O-Marrom-de-Cooley”.

Vá”, ordenou então Meave, “e peça a Daire que me empreste o touro por um ano. No final desse ano o pagamento pelo empréstimo será feito com o próprio touro e mais cinquenta novilhas. Se alguém naquela região pensar mal por ele emprestar aquela coisa extraordinária, bem, então que Daire venha com seu touro e eu lhe concederei uma propriedade do tamanho igual ao de sua terra, além de uma carruagem com o valor de três vezes sete jovens escravas. E ele terá, além do mais, a amizade de minhas próprias coxas”.

  

sábado, 23 de abril de 2011

A Tradição Relativa




Les  Demoiselles  d'Avignon,  Pablo Picasso, 1907

A Força do Muyrakytã

No sopé da Montanha Amarela, lugar lugar frio e úmido, nasceu Ykamiaba, filha da Lua e do Sol. Crescera ouvindo, dos ventos, histórias de uma Terra Calorosa nos confins do Leste. Encantada, um dia decidiu alcançá-la e partiu acompanhada por várias de suas irmãs. 

Depois de atravessarem oceanos, campos e desertos, chegaram finalmente a uma floresta de um verde estonteante, de um verde tão verde que tiveram que ficar dias e dias de olhos fechados. Isto lhes deu oportunidade de se acostumarem com aquela profusão de sons e ruídos que, de tão estranhos, provocavam uma mistura de curiosidade e temor. Aos poucos, aquela emoção nova foi transformando-se em reverência e cumplicidade. Quando finalmente abriram os olhos, perceberam que estavam completamente nuas, livres das pesadas vestimentas e, não se espantaram com o fato de ser aquela a primeira vez que viram seus corpos.

Para não se sentirem desprotegidas, invocaram Coaraci, a virgem da manhã, a mãe do dia, que lhes ensinou o modo de fazer um adorno para o pescoço, o muyrakytã, cujo poder as manteriam vivas, livres das moléstias e dos predadores. Para que se sentissem em casa, ensinou-lhes também como fazer a paxiúba, uma flauta mágica. Tocada em dias de festas, animava a contação de histórias e as declamações dos feitos da jornada passada, presente e futura.

Um dia, enquanto Ykamiaba banhava-se nas águas claras do rio e uma de suas irmãs soprava na paxiúba o canto melodioso e longo do wirapu'ru, um homem, que não conhecia mulher e vagava por aquelas bandas a procura de tapi'i, invejou-lhes os instrumentos sagrados e os roubou. Ao tentarem recuperar os presentes que a floresta lhes dera, iniciou-se uma guerra entre os homens e as mulheres. Luta sangrenta e funesta. As que sobreviveram, decepcionadas, retiraram-se para outras regiões, formando aldeias nas quais só poderiam residir mulheres, agora denominadas as Ykamiabas, cunhãs-irmãs, aquelas que deixaram o convívio direto com o gênero masculino.

Foi no Amazonas, às margens do rio Nhamundá, perto de um lago de águas azuis, num lugar chamado de “O Monte Escondido dos Homens”, que as Ykamiabas construíram suas casas.

Temidas, ousadas, livres, aptas e ágeis, as guerreiras, embora vivessem isoladas, mantinham contato com algumas tribos vizinhas: os Apotó, Pariqui, Tagari, Aruak e Guacará. Ajudavam-se mutuamente em tempos de conflitos e invasão, mantendo relações cordiais, estabelecendo trocas de objetos ou de favores.

Purificavam o corpo e o espírito nas águas azuis do Lago Yacy-Uaruá. Do fundo do rio, retiravam o ouro verde, o barro do qual confeccionavam os seus muyrakytãs, tornado um símbolo da liberdade.

Em momentos de festa, escolhiam seus parceiros para que fossem fecundadas. Os Guaracá por serem elegantes, bonitos e respeitosos eram os preferidos para visitarem as guerreiras após o ritual sagrado, quando acontecia o momento mágico da vida das Ykamiabas: o encontro com seus amantes.

Só após a confecção do muyrakytã, elas adquiriam o direito de deitar com os guerreiros que escolhessem. A escolha era definida pela oferta de um muyrakytã ao pretendido. Depois dessa preliminar, perfumavam-se, adornavam-se e deixavam a natureza agir.

Ao darem à luz, se fosse uma menina, esta permaneceria com a mãe e se tornaria também uma Ykamiaba. Se fosse um menino, a mãe esperaria o desmame e, no ano seguinte, este era devolvido à tribo do pai.

Um caraíba viajando pelo grande rio Amazonas, após ter descoberto ouro, pedras preciosas e muitas outras riquezas raras em poder da floresta virgem, ao aproximar-se da margem viu-se cercado por um bando de mulheres fortes e bonitas que dispararam uma nuvem escura de flechas que cobriu o sol. O explorador deu meia volta e foi contar tudo ao rei de Portugal. O monarca, cheio de luxúria e ganância, mandou uma expedição bem preparada, decidida a tomar posse, em seu nome, daqueles tesouros.

As Ykamiabas conclamaram guerreiros de diversas tribos, que acederam ao pedido de ajuda. E a guerra, desta vez, foi muito mais longa e severa. As cunhãs-irmãs, obrigadas ao convívio diuturno com os homens, viram encolher lentamente aquele sonho de liberdade.

Quando a guerra terminou, as Ykamiabas haviam sido dizimadas e dissipadas. Das poucas que restaram, a maioria, cansada, decidiu acompanhar os guerreiros que sobraram na qualidade de esposas. Porém, algumas, herdeiras do sonho, da força e confiantes no poder da magia do talismã de ouro verde, embrenharam de vez na floresta para nunca mais serem vistas. 

Dizem as mais velhas que foi Jurupari, o Coaraci Raia, filho do sol, com sua mágica invejosa quem retirou o poder das mulheres. Falam que, em noite de lua cheia, quando os homens se reúnem para celebrarem aquela vitória, é possível ouvir o som longínquo de saudosas pixiúbas: são as Ykamiabas, agora transformadas em sereias, às margens do Lago Yacy-Uaruá, buscando despertar, do sono dos tempos, os elegantes Guaracás para que, amorosos, recebam a força mágica do muyrakytã. 


sábado, 16 de abril de 2011

Capricho

Laerte


S.m.: 
1. Vontade súbita e infundada; 
2. Apego obstinado a um desejo;
3. Empenho em levar a cabo uma coisa sem razão ou motivo que obrigue;
4.Teimosia, calundu, birra, manha.

A polícia do prefeito,
Na proporção dez para um,
Dispersa, com violência,
O protesto de alguns estudantes
Que reclamam (com razão)
Do aumento abusivo das passagens.

Na outra ponta, na televisão, rostos calejados
Testemunham o impacto, em forma de chuva:
Presente da ira divina nestas férias de verão.

Enquanto isto, ele, o prefeito, busca, incensado pela mídia
Uma sobrevida política, um ressurgir dos mortos
Sob propósito de contribuir para o avanço da democracia
Nesta nação assolada por caprichos poderosos.

Que há com as grandes causas
Que ultimamente têm escolhidos
Pequenos homens para encetá-las?

Um velho amigo, que morreu de tédio,
Resmungava, ao ser perguntado como ia,
Que andava que nem bosta n'água:
- Água é o que não falta, dizia
E de merda estamos até a tampa!

Então, porque, diacho, insistimos?
Talvez por birra, quem sabe marra
Talvez porque o único sentido que exista
Seja não haver sentido algum
E no fundo, no fundo – retirem as crianças da sala!
Talvez o que importe mesmo, seja o estilo das braçadas.  




sábado, 9 de abril de 2011

Ontem na Paulista

diacrianos.blogspot.com



Estranho!
Esta perplexidade que me assola
Não é novata mas, desconcerta.

Ouvi relatos de mães que choraram horas a fio
Apenas por pensarem no futuro dos filhos.

Ontem, parado numa esquina da Paulista
Prestei atenção nos rostos dos transeuntes.
Estranho que, pela primeira vez, tenha me sentido em casa.
Não que eles estivessem a comungar comigo aquela mesma emoção.
Emoção que não sei definir – sinto-me estranho, entendem?
Mas pelo fato de que senti, ali, naquele pedaço de mundo,
O quanto somos humanos, mortais e frágeis.

Pela primeira vez senti-me igual no desconforto
Igual a todos aqueles que passaram naquela esquina erma.
Não pensei na humanidade, na massa imensa de seres
Que povoam este pedaço de rocha imerso na imensidão do espaço
Pensei apenas nos que meus olhos naquele instante seguiam.
Todos, humanos, mortais e frágeis, nós, tão empenhados no dia a dia.

Nada se interpunha entre nós.
Nada nos impedia de aguardarmos o sinal
Nada nos impedia de atravessarmos a faixa de pedestres.
Nada nos impedia de realizarmos nossos negócios e afazeres.
Nada nos impedia de colocarmos o mundo em funcionamento
A garantir o dia seguinte, a hora seguinte, o minuto seguinte.
A garantir que seguiremos todos, sempre, em frente.

Seguir em frente e não olhar pros lados:
Não ver o abismo, ignorar o escuro fosso,
Sermos tão superficiais quanto possível.
Afinal necessitamos de luz, mesmo que explosiva seja
E fugimos das trevas embora as trevas nos persigam
E o abismo continue a um passo, a nos tornar iguais.

Amanhã, alguém providenciará uma placa de alerta
Alguém começará a construção de mais uma barreira.
Novo interdito ganhará a majestade de lei
Haverá certamente quem proponha aterramos o abismo,
Quiça desmatarmos a floresta escura e iluminarmos a noite atômica com mil sóis 
Mas o abismo de nós mesmos, este do qual fugimos
Persistirá em ceifar os melhores instantes das nossas vidas. 


sábado, 2 de abril de 2011

Instante X



Tonturas, Iman Maleki, 1998



Colho as idades e os versos todos saudade
Nascidos dessas tardes assim em quase outono...
O ar em minhas mãos e um sábado carnaval.

Ah, vinho, fumo e bálsamo, Janaína, minha estrela nadir,
Tua pele e a tua anima toda em mim, querubim.
Ah, que longa espera, Mirabela, este ocaso em mim...

Abalos sísmicos me açulem, já invento um jardim.
Saúdo as horas e os pequenos instantes que vivi.