sábado, 25 de junho de 2011

O Sonho de Maria

Criança Morta, Portinari, 1944


O delito maior do homem, é ter nascido
Calderón de la Barca, A Vida é Sonho.


Maria era uma boa menina. Obediente, trabalhadora, afável, risonha e virtuosa. Possuía todas as qualidade de uma moça em idade de casar. Nascera numa família humilde. O pai, infelizmente, morreu quando ainda era pequena. Perdeu a mãe aos treze, a desafortunada. A partir daí passou a viver na companhia de uma prima, casada com um comerciante de muidezas, muito mais velha que ela. O casal acolheu-a como filha, a filha que nunca tiveram. Davam-se bem, levavam uma vida regular, uma ou outra ameaça mas, sem atropelos.

Contudo, Maria notava um silencioso mal estar naquela casa. Raras eram as conversas. Sempre ocupados, tinham apenas uns poucos instantes à noite para trocarem meia duzia de palavras sobre o que fazer ou não fazer e era só. Carinhos, para dizer a verdade, nenhum, não havia necessidade. Estavam ali por obrigação, ponto final. Uma ou outra vizinha se aproximava para trocar dois dedos de prosa, vez por outra. Nada de muita intimidade dado o comportamento esquivo da prima. Maria entendeu o porque desta reserva, numa tarde, quando a prima soltou que não aguentava mais as mulheres do povoado, sempre em busca de um jeito de atazaná-la por não ter conseguido ainda ter um filho. Mas o que podia fazer?, não tivera a sorte das irmãs, parindo um filho por ano, a encher o mundo de bocas e braços. Sabia que não era normal, não podia ser, alguma coisa estava errada com ela, sim senhora. Mas Deus era testemunha e, sendo deus quem era, um dia iria agraciá-la com a dádiva de ser mãe. Fé e empenho não lhe faltavam. Desde antes de Maria chegar, já cumpria a promessa de, duas vezes por ano, fazer a peregrinação, de mais de sessenta quilometros, a pé, até a Capela do Salvador para assistir missa durante uma semana e alimentar os pobres da região. Um dia, deus faria a graça, a graça de ter uma esperança de verdade, já que no atual estado o que lhe vinha era só desgosto por ter nascido e nascido mulher. Maria agarrou-se à prima e chorou e rezou e pediu a deus que olhasse por elas, que fosse generoso e que não as esquecesse naquele fim de mundo como se esquece de um traste velho, sem serventia, porque elas podiam ser fracas de posses mas seus espiritos ansiavam pelo que é justo e justiça era tudo o que não tinham.

No silêncio do seu cubículo, à noite, orava com fervor, ansiava uma graça e, sobretudo, livramento. Exasperava imaginar-se com o mesma sina da prima. Pedia que, se viesse a conceber, que fosse um filho homem. Um menino homem forte o bastante para mudar aquele estado de coisas. Para si desejava poucas coisas, apenas o suficiente, o necessário para manter-se viva. Mas pensava em todas as mulheres que conhecia, no seu medo, nas suas inseguranças, na sua dependência infindável em relação aos maridos, impedidas de pensarem por si mesmas, de aprenderem um ofício além o de gerar e parir filhos para que se tornassem maridos e dessem prosseguimento do mundo tal como vinha sendo desde sempre. Ah, como desejava um milagre! Porque era assim, meu deus? Sussurava Maria nos intervalos entre um pai nosso e três aves marias. Então Maria sonhava, sonhava com o seu próprio filho. Um filho diferente, diferente de todos os filhos que conhecia. Um filho que fosse inteligente o bastante para encontrar o meio, a forma de fazer as coisas mudarem para melhor. Porque ela o ensinaria a ser menos mandão, menos ensimesmado, mais amoroso com as coisas que merecem amor neste mundo. Sonhava com o filho, homem feito, a criar sua própria família, uma família de muitas mulheres, todas sabidas na arte da escrita, da leitura, mulheres capazes de escolherem seus próprios maridos não em função das posses mas da beleza dos seus sonhos e da força que possuíam para realizá-los, mulheres que pudessem andar pelas ruas com os olhos no horizonte e não voltados para o chão. Seu filho e suas filhas, suas netas, Maria sonhava. E acordava com um sorriso como se seu sonho já tivesse se tornado realidade: sua fé tornara-se confiança, confiança de que seu filho viria, tão certo como a luz deste sol que nos alumia.

Chegado o tempo de peregrinação, a prima e o marido partiram e Maria dedicou-se de corpo e alma a uma semana de jejum e rezas em benefício da prima. O casal retornou e passados alguns dias ouviu-se gritos de vivas e louvor por todo o vilarejo. A prima engravidara. Novos cuidados foram adotados para que os noves meses fossem completados dentro da mais estrita recomendação do padre e das vizinhas que agora acorriam diuturnamente com conselhos e cuidados. Era um novo tempo, anunciava o futuro pai, um tempo de alegria, de bençãos e muita fartura.

A boa nova ecoou fundo no frágil peito de Maria. Aquilo foi uma resposta às suas preces. Durante as noites seguintes, redobrou o seu fervor. Uma noite, sentiu-se elevar-se até os céus, seu corpo sustentado por uma luz dulcissima e lá no alto ouviu uma voz, quase um eco ressoando dentro do seu corpo, como se seu corpo fosse uma caverna escura e alguém lá de dentro sussurrasse seu nome. Quis abrir os olhos mas desistiu, não queria desfazer o sonho. E mais uma vez ouviu, aquela voz de veludo, vinda de todos os lados, de todos os cantos do mundo e ao mesmo tempo de todos os seus orificios, ordenar-lhe que mantivesse a pureza do corpo e da alma pois nas suas entranhas seria gerada uma dádiva, dádiva cujo nome explodiu em sons de uma ladainha entoada por um coro de mil anjos no turbilhão da sua mente... Arrebatada, desmaiou.

Quando o galo anunciou a aurora, ainda atordoada pela visão, procurou compreender o que lhe passara. Estava certa de que algo havia alterado seu destino. Correu até a prima e contou-lhe o sonho. Teve o cuidado de evitar contar tudo, omitiu o final, justamente aquele instante de terror que sentiu pouco antes de desmaiar. Não queria alarmar o estado interessante da prima que, interrompendo a tarefa, mirou no fundo dos pequenos olhos de Maria e mencionou que também tivera um sonho na noite anterior. Que vira, como a via agora, o filho que carregava no ventre conversar com o filho porvindouro de Maria e por mais que apurasse os sentidos não conseguira atinar sobre o que conversavam. Passado um tempo viu que o semblante dos meninos ficaram turvos e eles começaram a chorar, um choro longo e dolorido. Maria disse: pare! Era o bastante. Compreendeu o que a fez desmaiar e correu tomada de pensamentos em direção ao nada. Não, não, não! Daria à luz a uma inocência destinada a passar por tudo aquilo? Não tinha, não se daria aquele direito, por mais que seu desejo lhe ardesse.

Maria casou-se. Encontrou um moço bom, um moço que sabia conversar e encontrar prazer em ouvir suas histórias. Histórias que nunca mais parou de escrever assim que aprendeu a rabiscar as primeiras letras que o velho mascate lhe ensinara entre uma visita e outra. Histórias de um menino nascido por obra e graça do desejo, cuja missão no mundo era a de espalhar o amor por todos os cantos da terra. Histórias de uma passagem estreita no alto de uma montanha, onde só se passa um por vez e bem devagar. Histórias de um lugar onde homens e mulheres, transformados, vivem guardados da tristeza, do sofrimento, do temor e da morte. Histórias tão populares quanto as bruxinhas de pano que exibia como crias sua.


sábado, 18 de junho de 2011

Já vi isto em algum lugar!

A Dança, 1909, H. Matisse


Certas histórias, disse Campbell, parecem recorrentes no espírito humano, independentes de lugar, da época e das circunstâncias. Dawkins fala dos memes, unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro. Será que contamos uma única e mesma história, variando apenas os detalhes? Certa feita, um amigo mostrou-me um poema onde cantava a saga de um toureiro que acabou por descobrir ser ele próprio o touro. Alguns anos depois, casualmente, li um poema budista onde narra-se a história de um jovem que, em jornada de autoconhecimento, defronta-te com um touro que é... ele mesmo. A pergunta ficou-me: meu amigo nunca tendo lido o poema budista, como poderia ter chegado a mesma idéia?

O conto que vos apresento foi composto no começo de 2010 e só agora publicado. Alguns meses depois de tê-lo escrito, tive um choque ao lê-lo num blogue. Foi aí que me dei conta de que, se pensarmos bem, as ideias estão aí, são coletivas, pertencem à humanidade, é o nosso patrimônio comum. Qualquer que seja a teoria para explicar esta coincidência, seja ela psicanalítica ou religiosa, só nos coloca frente a este “repositório” que o velho Platão idealizou tão bem e Jung celebrizou em método. Pessoalmente penso que, ao invés de ideias originais existem, isto sim, modos originais de interpretação. Só assim posso explicar esta história que me surgiu sabe-se lá de onde.


Um dia um homem, desejoso de ausentar-se, disse ao filho: - Fica tu encarregado de cuidar dos meus negócios. Aja como sempre agi, para o teu bem.
O filho, um tanto atordoado, respondeu: - Vais partir assim, repentino? Quando voltas? Ficarei sozinho quanto tempo? Não sou como tu, preciso de companhia.
O pai pensou pensou e propôs: - Porque não te casas? Uma mulher é sempre boa companhia e poderá, com certeza, te ajudar.
E logo foi providenciado o casamento com uma jovem da região. Terminada a cerimonia, o pai chamou o filho para perto de si e falou: - Tens agora alguém com quem dividir tuas dúvidas. Sei que a tua esposa irá colaborar na administração dos negócios. Cuida apenas de mantê-la a par dos contratos para que nada fique sem a devida providência. Franqueie a ela todas as chaves da casa, a exceção de uma: a do meu quarto. Não permitas que ela entre lá em nenhuma hipótese. Esta ordem vale para ti também. Mantenha-o trancado até minha volta. Sê obediente, para o teu bem.
Feitas estas observações, despediu-se e partiu tranquilo.
Os dias, os meses e os anos passavam enquanto tudo era encaminhado, providenciado e despachado com presteza . Nada ficava fora do lugar. Os negócios do pai prosperavam. Era como se o próprio continuasse no comando. Incrível, comentavam os vizinhos, parceiros e clientes, que um filho seja tão obediente. E a esposa então? Sempre diligente, desprendida, interessada e justa. Uma união perfeita, uma família exemplar.
O que ninguém desconfiava era que entre quatro paredes aquele casal tão admirado sofria. Sofria pela ausência e sofria muito mais ainda pela restrição. O controle era mútuo. E severo. Ao ponto de dormirem sempre com um olho aberto. O medo da traição minava-lhes o espirito. Acima de tudo temiam serem cobertos pela vergonha, caso desobedecem a ordem. Mas dentro deles fervilhava certa magoa, certo rancor. Ora, se havia um porém era sinal de que não havia confiança e se não havia confiança não havia liberdade. Sentiam-se vigiados, controlados. Algumas explosões de impaciência fizeram-se notar.
Numa noite, em que todos descansavam a cabeça nos travesseiros, certos de terem sido justos na lida, a esposa não se conteve: - Qual o segredo do teu pai? O que ele mantém escondido naquele quarto? O esposo estremeceu: - Shh, não fales tão alto. As paredes podem ter ouvidos. Descanse, amanha temos muito o que fazer. A esposa, puxando as cobertas, acrescentou como vinha fazendo habitualmente nos últimos dias: - Não é justa esta restrição. O esposo virou para o lado e fingiu dormir. Os dois permaneceram naquele estado em que os pensamentos geram um turbilhão de imagens, todas reflexos, no fundo, da malícia que lhes nascera após tanto ruminarem sobre as verdadeiras intenções do patriarca.
Adormeceram quase no fim da madrugada e acordaram com o firme proposito de dar um basta naquele sofrimento. Nenhum comentou com o outro sua decisão. Deram um jeito de manterem-se fora da vista um do outro, cada um no seu canto, maquinando um jeito de invadir o quarto. Seria um momento sem partilha, haviam decidido.
Feita a última refeição do dia, o esposo inventou um passeio pelo jardim enquanto a cônjuge alegou forte dores de cabeça, razão suficiente para deitar-se mais cedo.
Era uma noite fria, nebulosa, vazia de ruídos, como se todas as coisas houvessem sido suprimidas do espaço e o tempo tivesse estagnado seu eterno fluir. Uma ou outra vela tremeluzia aqui e acolá fazendo dançar ilusões sombrias nas paredes e cortinas.
O esposo dera a volta na propriedade e, encontrando a escada devidamente escondida na base do muro lateral, cuidadosamente a posicionou à altura da janela do corredor superior e galgou os degraus sentindo a relutância das pernas que insistiam em tremer. Abriu silenciosamente a janela e espiou o interior. Sentindo-se um ladrão, experimentou uma sensação e deixou-se invadir por uma onda de satisfação. Estava senhor de si e gostava disto. Nada mais temia. Havia finalmente se conciliado com o verme que o habitava e roia. Sentiu-se íntegro. Caminhava agora com suas próprias pernas e nada o faria retroceder. A não ser... - Sim, senhor. Bela coisa pretendias. Era a esposa que emergia das sombras. - Depois de todos estes anos de dedicação é isto que mereço, ser excluída da verdade?
- Pretendias o mesmo ou não?
- Bem... aqui estamos e aí esta o quarto. Gira a chave!
O ar impregnado quase gritou quando viu-se libertado. Contudo, nem as dobradiças da porta nem as tábuas do assoalho rangeram. A escuridão silenciosa foi rompida pelo riscar de um fósforo. Um castiçal com três velas gastas jazia sobre uma cômoda. Tudo parecia em ordem, apenas uma camada de poeira recobria os móveis enquanto em alguns pontos das paredes o mofo exibia sua acinzentada assinatura. Um ardor acre invadiu-lhes as narinas. A esposa espirou. O esposo livrava-se de uma teia de aranha ao mesmo tempo em que pisoteava, sem querer, duas ou três baratas. O que estavam procurando? Era um quarto normal. Precisava de alguns reparos e uma boa faxina mas era tudo. O que esperavam? Algo bizarro, inacreditável, sobrenatural? - Veja aqui, em cima da escrivaninha. É um carta, endereçada a nós dois, gaguejou a esposa.
Não era uma carta, era um bilhete. Que foi lido praticamente num só folego, tão ávido de revelação estava o filho.
Se estão lendo esta carta é sinal de que ainda não voltei. E se ainda não voltei e porque não voltarei jamais. Desculpem-me tê-los feitos viver todos estes anos aprisionados à minha determinação. Mas era preciso, para o bem dos negócios. Agora que tiveram a coragem de desafiar-me temo que muito pouco possa sobrar do meu legado. Morrerei crucificado por esta dúvida. O fato é que a partir de hoje vocês estão por sua própria conta e risco. Boa sorte!”


sábado, 11 de junho de 2011

Jamais diga eu te amo

desautoria.blogspot.com


O cérebro de uma criança
automaticamente acreditará
no que lhe é dito,
mesmo quando o que lhe é dito...
é uma besteira.
E quando esta criança crescer
ela tenderá a passar
essa mesma besteira aos seus filhos

O Vírus da Fé, Richard Dawkins


Cicatrizes são troféus, disse ao encarar pela enésina vez o agressor e lembrou-se do caminhonheiro que morava na rua de baixo e duas vezes por mês estacionava seu FNM-D9.500 no terreno em frente à meágua onde, mal e porcamente, vivia guardada pela mãe que insistia em reprimí-la naquilo que, em seus pequenos seis anos, nem sonhava imaginar de e pra si, ainda. Embora já tivesse ouvido das amigas coisas horríveis que os adultos podem fazer uns aos outros, por gosto ou necessidade, pensava apenas em ganhar do papai noel aquela boneca de cabelo louro e cintilante, como os seus próprios. Do futuro, era o que esperava. Quanto ao resto, quando fosse a hora saberia o que fazer e isto não a preocupava nem um pouco nem mesmo naqueles momentos em que era injusta e severamente castigada por este ou aquele gesto interpretado como leviano ou obsceno pela macerada mãe madrasta. (…) A vida é assim mesmo: julgamos, culpamos e punimos os outros baseados nas nossas próprias escolhas, nem sempre louváveis, guiadas pela ignorância, imediatismo ou mesmo aceitação em ser o que se é por absoluta incompetência em arriscar-se ser de outra forma. (…) Assim, como poderia ganhar aquela boneca de papai noel se não fizesse o que lhe mandavam fazer? E o caminhonheiro foi bastante convincente. Pediu-lhe que fizesse bem feito, era necessário, pois papai noel só atende aos pedidos das meninas muito boazinhas. Ao serem flagrados pela mãe, tentou correr mas foi agarrada pelos cabelos e espancada sob alegação de que era uma sem vergonha, uma descarada, uma perdida, a única culpada por toda a desgraça do mundo, pois nascera mulher e mulher foi feita pra sofrer e fazer sofrer quem lhe caisse nos braços, para espalhar o inferno neste mundo de deus dará... Por isso não havia outra saída senão aceitar os cinco cabrais que o caminhonheiro lhe estendeu a título de indenização por perdas e danos. Naquele ano, papai noel não cumpriu com o seu papel mas o fez no ano seguinte quando suas pernas grossas e seus seios hirtos aceitaram os chamegos da professora primária, do guarda, do padeiro, do sacristão e de dois ou três doutores que às sexta feiras davam plantão naquele buraco encravado na Serra Dois Irmãos, pertinho de Viçosa. Daí reparou que para ganhar o que quer que fosse deveria que ser mais que boazinha, deveria tornar-se uma colecionadora de cicatrizes, afinal o que lhe pediram daí em diante passou-lhe a doer mais que o costumeiro, devido aos excessos de um e de outro ávido em sacrificar-lhe no altar dos imperativos humanos. (…) A civilização tem destas coisas, ao mesmo tempo em que nos tira do estado de selvageria nos capacita a requintar cada vez mais o animal que nos habita, dotando-nos de técnicas sofisticadas de submeter e ser submetido, de sofrer e de fazer o outro sofrer por nós. Não demorou muito a perceber que, ao invés dos aguardados presentes ia, isto sim, acumulando dores, dores, sempre mais dores, não só na pele, mas dentro, lá onde ninguém chega, lá onde só você sabe o quanto dói uma saudade, disse Jocélia certa de que fora agraciada com um poder maligno, porque não era uma questão de gostar ou de não gostar, era uma uma missão, sua missão, a sua parte naquele imenso latifúndio.

Vê esta aqui, e riscou com o indicador o traço que ia da sobrancelha esquerda até perto do lóbulo da orelha, esta ganhei quando tinha doze anos. Como deve ter percebido, o que quer que você pretenda fazer não há quem já não tenha feito antes. Não ocorre-me novidades, meu caro. Não há dor que eu não já não tenha sentido, não há dor que eu já não sinta de antemão toda a sua crueza. Portanto, sugiro que, se queres mesmo ver-me sofrer faça-o aqui no lado interno da coxa, onde poucos pensaram marcar e que, ultimamente, reservo para iniciantes. Consinto tudo, desde que seja rápido. Só não permitas que te odeie por teres sido impreciso. Porque em mim, só aqueles que traziam na alma a marca dos verdadeiros peritos puderam, por suas inventividades, galgar este acidente humano que me tornei. Preste bastante atenção na tua saliva, se salivares pouco durante o golpe, estanca, não foste feito para tais vôos. Agora, se babares ao me ver entregue aos teus caprichos, aproveita e jogue por terra o ultimo vestígio de pieguice que acaso ainda nutras dentro do teu peito. Já me deixei levar por muitos covardes, por mansos, por crédulos, por honestíssimos moralistas e até por donzelas e matronas invejosas da minha liberdade e da minha resignação, eu, sempre atraída por aqueles que machucam por machucar, que não aguardam qualquer recompensa que não a imediata satisfação e que, arrogantes, cospem sempre no prato que comem ao alardearem vitalidades como se fosse mérito próprio e não produto de outras dores.

Que foi, vais desistir sem ao menos tentar provar do meu sabor, sem ao menos saber se é acre, se é doce, se azedo? Travo, amigo, meu gosto é travo confesso, já que não foste feito para as coisas verdes. (…) Queres saber? Ganhei a minha boneca, vive comigo até hoje, cuido dela como cuido de mim mesma, banho-a, faço-lhe roupas novas, deixa-a à janela para apreciar a tarde, levo-a pra passear, conto-lhe histórias, falo do amanhã, de quando estiver crescida... falo dos garotos, das suas brincadeiras irresponsáveis, do primeiro beijo, do primeiro sutiã, da primeira menstruação, falo de todos os principes encantados dos quatro cantos deste mundo, ensaio com ela subidas ao altar, falo da primeira noite, das noites seguintes, dos filhos que virão, dos netos que virão e, sobretudo, da minha satisfação de vê-la sempre com aquele sorriso no rosto... ah, aquelas bochechas rosadinhas que gosto tanto de beijar e apertar! Desculpe, imperdoável minha tolice. (…) Agora por favor, afaste-se, devo prosseguir e se fores quem eu penso que és, escuta, te peço, nunca, jamais, jamais tornes a dizer eu te amo, porque, eu, tola, posso acreditar, e aí não terás outra escolha senão matar-me lenta e dolorosamente.



sábado, 4 de junho de 2011

A História do Homem que Seguia a Própria Sombra

Google Imagens



Um homem deixou de alimentar
a sombra que carregava. Alegou razões de economia.
Afinal para quê de sobejo levar algo que o duplicava?
Sem sombra, pensou
melhor carregaria o que nele carregava.
Equivocou-se. Definhou.
Descobriu, então, que a sombra o sustentava.

O Homem e Sua Sombra, Affonso Romano de Sant'Anna


O céu, limpo. Azul. Nenhuma nuvem. Nenhum pássaro. Azul e silêncio. Silêncio e pensamentos. Interrogações fervilhantes. Horizonte e nenhuma construção, nenhum acidente geográfico, nenhuma curva, nenhuma esquina, nada que lhe dissesse onde estava e o que fazia ali. Algo lhe queimava as costas. Virou-se. Sentiu uma estocada na retina, protegeu com as mãos os olhos assustados. Foi aí que viu as mãos, suas mãos... apêndices... mãos... viu os pés, as pernas, o ombro esquerdo... seus olhos não alcançaram as costas... percebeu o limite.

Agora que havia girado a cabeça reconhecera de onde emergira, um buraco escuro... e a escada. Veio-lhe o quarto. Um quarto? Seria aquele espaço um quarto? Lembrou-se das paredes e nenhuma abertura visível. Lembrou-se de ouvir algo ranger, sentir certa fricção. Lembrou-se de um espaço exíguo, apertado, um corredor? estreito, uma claridade e a enxurrada de ruídos passageiros oriundos de invisíveis e fugidias fontes. Quanto tempo ficara ali? Ou mais, como chegara ali? Quem o colocara lá? Quem era ele? O que ele era? Suspirou involuntário. Refez-se. Algo pulsou dentro de si, compassado. Levou a mão ao peito e contou um, dois... um, dois... série infinita, ocorreu-lhe: não há termo que alcançar.

Desistiu de sondar-se e ensaiou caminhar. Dois passos à esquerda, dois à direita, para frente, para trás... percebeu sofrego precária angústia. Desafogou-se: fechou a porta do alçapão. E viu a placa. A placa que nunca notaria, não fosse o instinto de fechar a porta do alçapão. Uma placa gasta, enferrujada (diria, acaso conhecesse os efeitos do tempo sobre o ferro), amassada, perfurada por projéteis, mas ainda assim possível verificar que, por cima da tinta verde fosco que a cobria, havia impresso, num tom avantajado de amarelo, alguns caracteres. Que?, pensou cândido.

Não entre em pânico! Repetiu tal qual um mantra. Encontrou disposição para colocar-se à prova. Correu. O horizonte fugia-lhe a cada passo. Não ocorreu-lhe perguntar-se aonde iria, havia algum lugar para chegar? Em direção contrária queimava-lhe as costas, aquilo. Queimava-lhe as costas, incansável, aquilo: não desiste? De queimar-lhe as costas, aquilo? E agora, à sua frente, uma área cinza, alongada, à frente. Quem és tu, olho que queima? Que fazes? Não tens sono, dormes nunca? Que há, para indicares meus passos? Mas aquilo que queimava-lhe as costas e que projetava aquela área escura à sua frente não respondia, não estava nem aí para o que pensasse, absorvia-o a tarefa de queimar-lhe as costas e projetar à sua frente uma zona escura e esguia.

A área escura à frente! Projeção da sua figura esguia. Cega como cego havia sido antes, no quarto, no fundo do buraco, tão escuro que nem dava pra imaginar que existia, se é que existia. Então tá! Seguiria a figura escura que ia à sua frente para onde aquilo que lhe queimava as costas os guiasse. Eram os únicos amigos que conhecia. Satisfeito por encontar companhia, as primeiras que assumia, desde que emergira daquilo que imaginara quarto, pôs a tagarelar certo de que havia encontrado finalmente dois amigos com os quais trocar ideias a respeito do porque das coisas, da vida e tudo o mais. E foi aí que chegou à difícil decisão de qual rumo tomar, se seguiria pra lá ou se seguiria pra cá, afinal diante de seus olhos e dos seus pés apresentou-se uma bifurcada e inesperada estrada.

Aconselhou-se com a área escura, nada; com aquilo que lhe queimava as costas, pior ainda. Falava com as paredes, sozinho, ermo... e agora, josé? O que hoje sabemos é que aquele passo, premido pelo ruidoso silêncio de fonte invisível oriundo, desencadeou uma sucessão de eventos incontroláveis. Primeiro sonhou, depois pensou que acordou, depois duvidou e considerou e calculou e estancou quando ocorreu-lhe saber que o que os olhos não enxergam o coração tende a acovardar-se e refugiar-se onde os olhos não alcançam, sempre temeroso, nutrido de medo e quiçá de desespero. Agarrou-se. Moldou-se. Vieram-lhe embates, combates, ganhos e perdas, choro, desilusão, depressão, volta por cima, maldições, execrações, maldito o dia em que emergira do buraco!, baixa autoestima, elevada autoestima... Mas como tudo não é para sempre, inventara prazeres, ocupações, encontrara a alma gêmea, erguera muros, fundara cidades, impérios, religiões, convivera com notáveis, incentivara a ciência, a indústria, o comércio e a arte, teve o seu nome associado as mais importantes descobertas da humanidade e um belo dia saiu pra passear com um descendente e, sem que ninguém soubesse donde, "uma luz o envolveu, o arrebatou, o fundiu, disse-lhe em tom grave e austero que dali em diante tudo seria diferente e que não se importasse mais com nada, que havia motivos muitos para obedecer, pois havia muitos senões e restrições que se faziam necessários dado a multiplicidade das coisas neste inominável caos que nunca cessa nem se aplaca, que a pena de obedecer para todo o sempre seria recompensada e foi por aí e quando pensou que não, dois cornos lhe nascera na fronte lívida e nas mãos símbolos foram impressos com fogo e graça para serem exibidos em muitas praças e que partisse, que fosse, que sacudisse o pó das vestes e se mandasse, que urgia, premente chegara o tempo e quando nada mais restasse que adentrasse a névoa que agora se lhe abria possibilidades de outras plagas..."

O descendente voltou com cara de quem tinha finalmente compreendido tudo a respeito das coisas, da vida e tudo o mais e, com os olhos esbugalhados de tanto enxergar e a língua seca de tanto balbuciar, escreveu um livro onde narra, com riqueza de detalhes, a história daquele que, durante a existência, só fez uma coisa na vida: alimentar a própria sombra. Vendeu horrores, foi traduzido em centenas de idiomas, permaneceu décadas e décadas na lista dos dez mais, tornou-se clássico lido e estudado, cânone em todas as academias e liceus mas, peca por um único defeito esta singela obra prima: não existe, em nenhuma de suas inumeráveis páginas, uma linha sequer sobre aquilo que queimara as costas do antecessor.