sábado, 27 de agosto de 2011

A Pedra de Tropeço


O Louco, Tarot de Marselha


Porque aí, à beira?, questiona o viajante, ávido de ares. Trazemos os pés cansados, nós os sem tempo, responde o coro dos enraizados, dos que crescem como arbustos, de cujos gravetos são feitas as cercas que os encurrala e só enxergam a vastidão do espaço - vazio à sua volta.

Não há para onde ir, aqui ficamos no aconchego dos nossos lares. Distrai-nos os jogos que herdamos. Aqui quedamos industriosos, nós os que tememos a falta, a carência e a necessidade, zelosos da nossa segurança, inocentes do acaso, nós os previdentes. Para afugentar o desconhecido, erguemos totens nas sete entradas da nossa cidadela. Sete demônios nos protegem, com seus olhos de fogo, suas línguas viperinas e seus gestos de desprezo e ameaça. Apenas aquilo que é familiar nos conforta. Entre nós, apenas o conhecido prospera. Mas diga lá, ó viajante, donde vens, de quem sois filho, a qual família deves obediência, que trazes nesta bolsa à tiracolo e para onde vais?

Nasci longínquo, caminho por andar. Meus sonhos e meus ais cabem todos nesta bolsa. Mostrai. Compreenderiam? És modesto ou somos parvos? (Percorreu o viajante uma fração de partir). Há muito abolimos o desejo e o egoísmo, monstros singulares. Não existe entre nós tais desvios. Se trazes novidades, esquece, toda novidade é natimorta. Para nós nada permanece que não seja hábito. Cultivamos a verdade inquestionável de que tudo é efêmero e negociável. Nos tratamos por irmãos, pois conhecemos de cada um a origem e nos satisfaz chegar até o avô. Assim vivemos com o nosso deus e seu mandamento sagrado.

E entre eles havia um homem que era tido o melhor, o mais sábio e o mais bondoso. E todas as noites sentavam para ouvir de seus lábios balbucios e vislumbres recheados de engasgos, qual mariposas em torno da luz pálida dos candeeiros. E o velho homem, embora nutrisse dúvidas e carregasse em seu coração oceanos de tédio, tinha sido destinado a decorar-lhes o espírito com alguma arte.

Oh, minhas crianças, começava, meus frágeis recém-nascidos! Para vós apenas o peito da vossa mãe e os jogos com que vos alegrais! Vinde e brincai, pois não há porque nossos pés exaustos se ponham a caminho. Sabeis: lá fora habita o sofrimento, fadigas dolorosas e vaidades inumeráveis. Para onde quer que olhemos eis a boca escancarada do descaminho e as presas afiadas da perdição. Cuidai das vossas almas, velai por vossa diversão e a diversão dos seus, pois tudo o mais vos será dado. Perseverem nesta obediência inevitável, meus amados!

Não vos importeis senão com o vosso cotidiano, um dia de cada vez. Que é o amanhã senão cálculo, esfinge que nos devora com enigmas? Não sofrais com o que não vos foi dado conhecer, pois aquilo que não conhecerdes não vos será cobrado. Não questioneis, portanto, para que não tenhais que provar, pois a prova onera o provador. Não desejais aquilo que não vos foi destinado. Cada um morre sua própria morte, para glória eterna dos que nos antecederam. Só a proximidade nos importa. Só aquilo que podemos degustar com os nossos sentidos, conta para o dia que nos basta. Porque haveríamos de desejar o impossível, nós os possíveis, nós os somente?

Deixai vir a mim os ladrões e os parasitas. Eles são o fermento da terra. Deixai que se esgueirem nas sombras pois assim vigiam e controlam as trevas, por nós. Não vos incomodeis com os parasitas, eles enaltecem a nossa pujança e fertilidade. Mas a nenhum facilitais a entrada. Recaia sobre eles toda desconfiança, para que, por sua astúcia e malícia, alcancem o mérito da nossa indulgência. Porque só o homem de mérito prospera. Só o homem de mérito pode um dia alcançar a glória de figurar entre os ancestrais veneráveis. Sejais dignos desse merecimento, ó meus filhinhos!

Nada deixai à mostra, a não ser a vossa sabedoria e beleza. Que entre vós o feio não prospere. Tudo que destoar de vós, tudo que não vos for semelhante, seja doravante e para sempre considerado feio, meus sorridentes filhinhos! Contenham a vossa voluptuosidade, que o vosso tesouro permaneça guardado para o dia da grande glória, para o dia em que haverdes de entrar no reino celeste dos ancestrais. Não vos encheis de palavras, sejais comedidos no vosso conhecimento porque a nós basta o útil e o necessário para um dia de labuta. Crede nisto e dormirão tranquilos.

Deixai vir a mim também os perversos, pois eles terão a sua parte. Que seria do rebanho se o predador não encontrasse a presa? Cresceria desordenado e entregue a caprichos. Para tudo há um limite e um proposito, lembrai. Deus não escreve certo por linhas tortas! Deixai vir a mim os sórdidos porque deles é a sujeira e a imundice do mundo. Imundice e sujeira que repudiamos, nós os puros, os alvos e imaculados. Pois é digno deles esse trabalho: chafurdarem-se no pântano, entre maléficas e terríveis emanações, covil de numerosos e desconhecidos vermes. Deixai vir a mim os cínicos e hipócritas, deixai que ostentem as vestes do bom comportamento e da boa conduta e não vos peçais provas da sua fé, pois melhor um oportunista conhecido que um desconhecido sincero, vigiai!

Minhas crianças, é preciso que mantenhais a pedra do tropeço que vos impeça serem arrastados à lama e ao lodo. Sois fracos, nascerdes fracos e morrereis mais fracos ainda, contudo vossa força é retirada da certeza de que muitos gravetos formam um feixe. Experimentem partir um feixe, ó incautos! Não temais, filhos meus, que assim como trago esta imensa barba branca de incontáveis fios, cada um liame que me liga a vós, gravo minhas palavras em tábuas de ouro para que não ocorra sucumbirem ao abismo do esquecimento e do escárnio. Agora ides dormir tranquilos e saciados, que velarei, fiel e materno, o vosso sono. Passai a taramela em vossas portas e lacrais vossas janelas com o ferrolho da vossa fé inquebrantável. Que assim seja para todo o sempre!

E antes que dissessem amém o viajante já retornara à sua caminhada, sob a luz enigmática da lua.


sábado, 20 de agosto de 2011

Orô Finou


pratagy.net


Coruja rasgou seda por cima do telhado. Vai-te, agourenta!

Oraldina, guardiã do Sagrado Coração, caiu doente de repente. Diminuta, 52 anos, seis filhos. O que é, o que é, não houve diagnóstico, nenhuma resposta. Caiu doente e possessa, assim: do dia pra noite. Passou a gritar, gritar incongruências, indizíveis. Quinze dias gritando, os vizinhos arrepiados com aquela coisa sem coisa. Que sucesso era aquele? Oraldina não fazia sentido, só gritava, gritos de horror, labaredas, queimadura de gelo, secura braba, garganta arranhada, navalha, cacos de vidro, álcool em ferida, osso quebrado. Pavoroso.

Passados estes dias, quis ir para a rede. Passou outros quinze balançando-se, pra lá e pra cá. Nhec, nhec, nhec.... O marido e dois filhos revesavam-se nos cuidados, mas que cuidados, se não havia, se não sabiam. Não comia, não bebia, só balançava o corpúsculo pra lá e pra cá. Pendulo. Nhec, tic, nhec, tac... A filha do meio, grávida, veio visitá-la. Gritou que não entrasse, iria perder a criança.

Trouxeram o médico de aplicar injeção. 
- Na mão viu, porque lá nem pensar, onde já se viu, estranho enxergar minhas vergonhas
O doutor tentou ser gentil mas, a espetada desacertou, a canela fina arribou e ai ai como doeu a masculeza do receitador que vergou e fugiu. Era deixar. Engruvinhou.

No mês seguinte, levantou-se, passeou pela casa, deu uma volta pelo oitão, encheu todos os potes com água e soltou os passarinhos. 
- Tá boa, alguns disseram saudosos da paçoca. Mas Oraldina não fez paçoca, não salgou carne, não preparou maria-isabel nem lembrou do cajus no ponto pra cajuína, só perguntou pelo mais novo. 
- Tá viajando. Foi levar encomenda de malas pras bandas de Miguel Alves
- Mande uma carta avisando que é pra ele voltar. Quando chegar vou me esconder atrás da porta que é pra dar um susto nele
E riu sumida, imperceptível. Quando o rapaz chegou fez bu e correu se rindo, levada.

E cantou. Versinhos do arco-da-velha. Do tempo do onça. Do tempo do bufa. E a casa se encheu de perfumes. Quem era sério sorria, quem era alegre soltava gaitada. De onde tirava aquilo? E Oraldina ria, palitando o dente com a ponta da unha miudinha como se tivesse mastigado iguaria.

Quis cafuné. Veio a nora. 
- Faz daquele jeito. Gostava. A filha mais velha ensaiava muxoxo. Não tinha preferências, gostava e pronto. Na metade da tarefa, a moça ouviu um trec, na nuca. A cabeça rala tombou. Deitaram-na. Vieram as filhas. 
- Quero ir vestida que nem Santa RitaMas não usem a máquina, tem que ser costurada à mão
Vai saber porque! As moças, esmeradas, gastaram tempo de sobra, adiando, adiando... E Oraldina rindo, mangando de toda coisinha, dessas tais coisinhas sem qualquer significância. Mangou das moscas, das formigas, das aranhas... Mangou do bode velho, das galinhas poedeiras, do garnisé ... Só não mangou do marido que era enfezado. Pra ele declamou umas quadrinhas meio sem graça. 
- Doidou
Queria chupar carambolas, mas engasgou, tossiu invisível. Lacrou os olhos. E acenderam velas. O genro pegou uma e botou-lhe na mão. Todos em volta. Nenhuma lágrima, já haviam derramados córregos uns, outros rios. Aguardaram munganga, não veio. Levantou o dedo e disse: 
- Prestem atenção, prestem muita atenção. Estão prestando atenção? Então... 
Tum! Sumiu.

Velaram-na no terreiro, sobre três tábuas e dois cavaletes. Tiraram fotografia. Todos de preto. Menos ela, que ficou muito bonita de branco.

Passado uma semana, as duas mais novas estavam deitadas na cama alta quando caçula sentiu uma pontada no ombro. 
- Que é? É mãe? 
Não se virem. Vocês duas prometeram rezar missa. Esqueceram, como esquecem requeijões mordiscados nos buracos das paredes?

Oraldina não descuidou dos seus. Nunca.  


sábado, 13 de agosto de 2011

A Tradição Relativa IV


hernehunter.blogspot.com

As Belas Palavras

Quando a cabeleira flamejante de Ñamandu
Dançava nas coroas que ornavam as cabeças dos Jeguakavas
Os caraíbas chegaram para aumentar o mal no mundo

Karai, que andava pela terra à procura de ywy mara eÿ
Recusou o sinal de repartir o rosto e disse:
- Guardem seu deus, temos os nossos!

Mburuvicha não gostou, falou dos presentes
Do pau de fogo e da faca, do quanto era grande a terra pra cultivar
E dos muitos inimigos que os Ava tinham que vencer
- Ywy mara eÿ é sonho, difícil de encontrar.

Karai tomou o assento da palavra e disse que era hora de ñe'ë porä
- É preciso ganhar a pátria das coisas não-mortais, disse Karai
Que se ywy mara eÿ não existia, que Ñamandu falasse
Que todos os deuses falassem, que era a hora da completeza acabada

Os Jeguakavas abriram seus corações e aguardaram a embriaguez.
Cessou todo o ruído da floresta, cessou o alarido das crianças
Sabiam que sem ñe'ë porä nenhum adornado iria sobreviver.

E o que Karai falou esplendorou nos corações heroicos dos Ava
Dignas dos deuses, as palavras adornaram-lhes ainda mais a alma
Ñe'e porä dentro deles, semente em cada um, ywy mara eÿ inatingível
Pela violência e pela brutalidade da Terra Má, agora domínio dos caraíbas

- Porque nós, belos adornados, somos expostos a uma existência achy,
Perguntou Karai, porque somos reduzidos a viver a vida de animais doentes?
Nós desejamos ywy mara eÿ mas nossa condição é ywy mba'e megua
Como podemos reconquistar nossa pátria perdida, nossa pátria múltipla?

Karai, um arandu porä, um ñe'ë jara, permitiu que o pensamento se libertasse
E a sua potência desdobrou desdobrando-se ao ponto de tomar conta de Karai
E não era mais ele quem falava, mas um longínquo eco de numerosas vozes
A murmurarem a dança flamejante da cabeleira de Ñamandu na noite originária
E os Jeguakavas, fios de sua cabeça, disseram, cada um com voz própria,
Karai tem razão, ywy mara eÿ vai nascer de belas palavras, de ñe'ë porä.

- Que fiquem guardadas no recôndito da floresta para serem pronunciadas
Pelos poucos numerosos que se erguem na sua totalidade de adornados.
Para que nossa carne de natureza imperfeita se sacuda
E jogue fora, para longe de si, sua imperfeição.

E quanto a você, Karai Ru Ete, você, nós-vós,
Todos os dias hás de pronunciar as abundantes palavras,
As belas palavras que nenhuma pequenez altera. 


sábado, 6 de agosto de 2011

Uma Crônica das Trevas

macaraninews.com.br



Passou o dia com a visão do olho esquerdo comprometida. Perto das nove horas, como sempre fazia todas as manhãs, logo após banhar-se, saboreava uma salada de frutas a ruminar o furação que teria naquele dia - uma série de gravações para selecionar e enviar aos analistas: últimos registros das entrevistas daquele projeto que vinha arrastando-se por quase três meses, por falta de pessoal qualificado, gente com desenvoltura suficiente para falar em nome da empresa e conseguir ser bem atendido sem as costumeiras recusas e abandonos.... Percebeu que o olho ficou embaçado, umedecido e daí puf!

Lembrou daquela vez, também pela manhã, quando ao iniciar a leitura de Dom Casmurro, não conseguiu prosseguir - a vista ficou turva, as letras dançaram e não viu alternativa senão correr à ótica mais próxima, ser encaminhado a um oculista de plantão no andar superior, e sair de lá com um bifocal numa armação vermelha que lhe emprestou, deveras, um ar melhorado.

E agora ali, na sala, diante da televisão, sem aviso, sem sinal, assim, do nada, o olho esquerdo esqueceu de enxergar. Tapou o direito com a mão e o que viu foram sombras e rasgos de luz, rajadas de vermelho, coriscantes. Sentiu-se como o seu diafragma ficasse aberto tempo suficiente para obter uma foto de longa exposição, as luzes formando rastros contínuos. Não se avexou e falou em voz alta: fiquei cego do olho esquerdo! Avisou, pelo telefone, ao gerente, que não iria naquele dia, que estava de saída para a clínica em busca de diagnóstico e cuidados.

No trajeto, no ônibus, sucessivas vezes repetiu o gesto de tapar o olho direito e observar as mutações da tímida claridade que o tempo exibia e aquilo o divertiu. Não sentindo dores, aproveitou para brincar um pouco com aquela sensação (passaria por uma viagem de ácido, daquelas que fizeram a festa da rapaziada nos anos sessenta - embora naquele momento não houvesse nenhum artificio, tudo por obra e graça da própria natureza). Nem aí para a eventual estranheza dos passageiros diante das interjeições que emitia ao alterar seu inexistente foco de um alvo para outro. Pensou que poderia acostumar-se com aquela nova maneira de enxergar o mundo e as coisas, ainda tinha o olho direito, pois não? Mas caiu em si quando ocorreu-lhe: e se o outro também falhar, agora?! E se tiver que passar o resto dos seus dias enxergando a vida dançar à sua frente sem distinguir quem ou o que dança e porque dança essa dança? Meio que lamentou por imaginar-se interrompido, incapaz de prosseguir... De prosseguir o que, se mal tivera inicio um novo modo a ver o mundo? Um ponto de vista exclusivo, afinal acabara de penetrar um universo paralelo: tudo que precisava agora era encontrar as palavras certas para descrevê-lo. Mas e se fosse irreversível, ahn? Bem, neste caso teria vivido uma manhã espetacular.

A oftalmo virou, mexeu e num gesto de enfado, concluiu: - Nada. Nada de errado com seu olho, tudo normal. E diante do paciente decepcionado, emendou: - Talvez fosse melhor procurar um clínico. Pode ter acontecido algo neurológico... não sei. Doze horas depois, com a visão restaurada e com o resultado da tomografia gravada em disco (onde chegamos, que mais nos reserva o futuro?), nada constava, nenhuma anormalidade, nenhuma hemorragia, nenhum coagulo, nenhuma veia rompida, nadica de nada. O clínico, pausada e gentilmente, discorreu sobre a possibilidade de ter ocorrido um AIT e explicou detalhadamente o que venha a ser esta sigla estrambólica. Receitou uma droga devoradora de gordura arterial, fez um encaminhamento ao cardio e solicitou observância de cuidados com relação à pressão. Tks!

Nunca foi do tipo que nutrisse muita simpatia por médicos, principalmente àqueles que comentam, em voz alta e grosseira, as prescrições e procedimentos dos colegas. Vejam só que recepção! Aquilo o fez ficar com os dois pés bem atrás ao ver-se sentado à frente daquela senhora de volumosas bochechas, voz sumida e com aparência de não cultivar qualquer senso de humor. É que, dos médicos, espera-se fala mansa e sorriso largo (médico ranzinza só o House, mas ele pode, o cara é bom e agora que encontrou o amor da vida dele, está melhor ainda – semana passada ele invocou de curar uma escritora e, para não ficar sem a continuação da aventura de um herói adolescente que curtia, inventa uma lorota que faz com que ela autorize uma operação. Quando a mulher recupera-se, fica puto ao saber que não vai haver continuação da história e que agora ela vai dedicar-se a histórias para adultos. Não tendo como voltar atrás, não vê saída senão marcar mais um ponto no doce coração da doutora Cuddy). Como confiar em alguém que não demonstre inquietação, não se rale todo por nós, que entregamos, por necessidade, nosso corpo às suas apalpações? Aprendemos desde cedo a não dar muito crédito a quem nos diga que isto é assim ou assado. O “eu penso” ou “na minha opinião” ou alguma mentirinha saborosa só pra não nos deixar cair no desengano, soa muito mais agradável do que a empáfia de isto é pau e aquilo é pedra, mesmo que isto seja pau e aquilo pedra.

A cardiologista anotou, anotou e anotou e sem ao menos dirigir-lhe o olhar, ao fim da consulta, apresentou-lhe uma lista de procedimentos a serem rigorosamente seguidos pelos suspeitos de hipertensão e passou-lhe uma receita onde cravara o nome de uma droga cascuda que mais lembrava a alcunha dalgum sacerdote asteca, daqueles bem caxias. Não contendo o pequeno grilo que insiste nestas horas mostrar suas estridentes patinhas, questionou se não havia genérico (tudo bem, lembra o Serra mas, ninguém é perfeito). A sisuda discípula do compassivo Hipócrates levantou as sobrancelhas, ensaiou um muxoxo como se estivesse diante dalgum tabaréu e afiançou, do alto dos seus emoldurados diplomas, que aquele era um remédio de primeira linha (!), para ser tomado, dali em diante, pro resto da vida. Tinha ideia do custo? - É uma droga nova, um tanto cara, não nego mas, sua eficiência tem mostrado uma excelente relação custo benefício.

A pulga atrás da orelha não se deu por satisfeita: - Não há outros, mais baratos? (Lembrou-se dos enalapril's e captropil's da vida, distribuídos em centros de saúde, de grátis). Notou nela uma certa impaciência logo controlada pela lembrança de algum pacto (?): - Há sim, mas não produzem o efeito desejado, além do mais estão sendo retirados do mercado. E se dissesse que o laboratório possui um programa de fidelidade, continuou, um programa onde o senhor pode obter o medicamento com cinquenta por cento de desconto, estaria interessado? Hum, sei não... - Ligue para este 0800 e inscreva-se. Ah, não esqueça de passar-lhes meu nome. Após quarenta dias, retorne. Sei!

Quando, com o telefone em punho e ciente que fora mal informado sobre o valor do desconto, se viu obrigado a ler o número de registro da doutora, percebeu estupefato que os três últimos algarismos do cadastro dela no Conselho reproduzia fielmente o sinal da besta! No creo em brujas, pero que las hay, las hay!