sábado, 24 de setembro de 2011

A Tradição Relativa V - 2ª Parte


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O Companheiro de Morte, continuação

"Na manhã seguinte, no templo, Sali quis saber do sumo sacerdote se havia razão para condenar-lhe o julgamento. O ancião não tinha resposta. Alegou que precisava ouvir mais uma vez as histórias de Farlinas, precisava se preparar melhor e que, naquela noite, após terem cumprido com seus rituais de rezas e oferendas, voltariam ao palácio.

Quando o sol começou a se por, Sali estava novamente sentada ao lado do rei e Farlimas começou sua narrativa. Mais uma vez, antes do alvorecer, todos dormiam – o rei, seus servos, seus hóspedes, os emissários e os sacerdotes – envoltos pelo êxtase. Mas entre eles, Sali e Farlimas estavam despertos e sugaram o prazer dos lábios um do outro. E abraçaram-se novamente, entrelaçando braços e pernas. E assim as coisas continuaram, dia após dia, por muitos dias.

Mas se antes havia corrido a notícia das histórias de Farlimas, agora havia o rumor de que os sacerdotes estavam negligenciando suas oferendas e orações. A intranquilidade começou a espalhar-se, até que um dia, um mercador, em visita ao templo, perguntou quando celebrariam o próximo festival da estação, pois estava planejando uma viagem e gostaria de voltar para os festejos e precisava saber quanto tempo tinha. O sacerdote, muito constrangido, pois há muitas noites não via a lua e as estrelas, pediu que voltasse no dia seguinte, que iria consultar as tabelas e só aí teria uma resposta definitiva. Todo o clero foi convocado e o superior inquiriu qual deles recentemente tinha observado o curso das estrelas. Nem uma única voz respondeu. Todos tinham estado ouvindo as histórias de Farlimas. 'Não há nenhum entre vocês que tenha observado o curso das estrelas e a posição da lua?' Eles continuaram sentados completamente imóveis, até que um, que era muito velho, levantou-se e falou que haviam sido enfeitiçados por Farlimas e que nenhum deles podia dizer quando deveriam ser celebradas as festas nem quando o fogo deveria ser extinto e o novo aceso. O supremo sacerdote preocupado com o que dizer às pessoas, pediu a um noviço que trouxesse Sali até sua presença. Não lhe saía da cabeça o fato de que enquanto Farlinas vivesse e falasse todos o escutariam. Quando Sali apresentou-se diante dele, a primeira coisa que ouviu foi: 'Farlimas é contra Deus, tem que morrer'. Sali estremeceu e lembrou-lhe que o narrador era Companheiro de Morte do rei, que matar Falimas era também matar o rei. Teria o sacerdote lido nas estrelas o dia da consumação? Não, não tinha nenhuma resposta e isto o estava atormentando.

Novamente solicitou uma audiência ao rei e o encontrou no palácio, ao lado da irmã. Akaf, solítico, vendo-lhe o semblante abatido, pediu-lhe que dissesse o que passava em seu coração. O ancião pediu-lhe que falasse de Farlinas. 'Deus enviou-me, primeiro um pensamento da proximidade do dia da minha morte e eu fiquei com medo. Em seguida, Deus enviou-me a lembrança de Farlimas, que me havia sido enviado como presente de além mar. Deus confundiu meu discernimento com o primeiro pensamento. Com o segundo, ele alentou meus sentidos e tornou-me feliz'. O sacerdote disse, quase num lamento: 'Farlimas tem que morrer, ele está perturbando a ordem revelada'. Akaf levantou-se, foi até uma janela lateral donde se avistava o porto fervilhando de bens e após cofiar a barba por instantes, sem voltar-se para o velho disse: 'Morro antes dele'. Sali juntou-se ao irmão e olhando para o sumo sacerdote disse: 'A vontade de Deus dará a decisão nesta questão'. Akaf voltou para o trono e anunciou: 'Assim seja! E para isto, todo o povo deverá testemunhar'.

Mensageiros saíram pela cidade gritando aos quatro ventos que Farlimas, naquela noite, falaria diante de todos. Um trono coberto por um véu foi erigido para o rei na grande praça pública e, quando a noite chegou, o povo, aos milhares, acorreu de todos os lados. Os hóspedes, os emissários e os sacerdotes chegaram e acomodaram-se. Sali sentou-se ao lado do irmão, Akaf, o rei velado. Foi ordenado que Farlinas se apresentasse e ouvisse a acusação que o clero apresentava contra ele, de destruição da ordem estabelecida cuja sentença era a morte.

Farlimas retirou os olhos de Sali, fitou a multidão, olhou de relance para os sacerdotes e ergueu-se. 'Sou um servo de Deus e acredito que todo o mal no coração humano é repugnante a Deus. Esta noite Deus decidirá se mereço morrer ou viver'. E começou a narrativa.

Suas palavras eram no início tão doces quanto o mel, sua voz penetrava na multidão como a primeira chuva de verão na terra seca. De sua língua exalava um perfume mais intenso que o do almíscar ou do incenso; sua cabeça brilhava como uma luz de uma única luminária numa noite negra. Sua narrativa era como o haxixe que faz as pessoas felizes quando despertas e logo torna-as sonhadoras. Com o aproximar-se do amanhecer, ele elevou a voz e suas palavras inundaram os corações das pessoas como o Nilo crescente. Para algumas, eram palavras pacificadoras quanto a entrada no Paraíso, mas para outras, tão assustadoras quanto o Anjo da Morte. O júbilo tomou conta do espírito de alguns e o horror do coração de outros. E quanto mais se aproximava a aurora, mais poderosa se tornava sua voz, mais altas suas reverberações dentro das pessoas, até que os corações da multidão se levantaram uns contra os outros, em batalha; se enfureceram uns contra outros como as nuvens no céu em noite de tempestade. Raios de fúria e trovoadas de ira chocavam-se. Mas quando nasceu o sol e a narrativa de Farlimas chegou ao fim, uma perplexidade inexprimível tomou conta das mentes confusas dos que permaneceram vivos. Ao olharem ao redor, viram que os sacerdotes jaziam mortos no chão. Sali ergueu-se e prostrou-se diante do rei, que estava por trás do véu e exclamou: 'Ó meu rei, retire o véu, meu irmão: mostre-se ao seu povo e faça a oferenda você mesmo. Pois estes aqui foram ceifados pelo Anjo da Morte, por ordem de Deus'. Os servos retiraram o véu que encobria o trono real e Akaf levantou-se. Ele era o primeiro de sua linhagem de reis que o povo de Napara vira. Ele era jovem e tão belo de se apreciar como o sol nascente. A multidão entrou em júbilo. Um cavalo branco foi trazido para que montasse. Akaf dirigiu-se ao templo, tendo à sua esquerda a irmã e à direita o contador de histórias. O jovem rei pediu uma enxada e na entrada do templo cavou um buraco. Ordenou a Farlimas que lançasse nele uma semente. Cavou outro e pediu que Sali lançasse nele uma semente. Imediata e simultaneamente as duas sementes germinaram, crescendo diante dos olhos das pessoas e, ao meio dia, as espigas nascidas das duas sementes estavam maduras. O rei extinguiu o fogo no templo e todos os pais de família da cidade extinguiram as chamas de suas lareiras. Sali acendeu o novo fogo e todas as jovens virgens da cidade vieram buscar fogo dessa chama. E desde aquele dia, não houve mais sacrifícios humanos em Napata. Akaf tornou-se o primeiro Nap de Napata a permanecer vivo até que a Deus agradasse tirar sua vida na velhice. Quando morreu, Farlimas sucedeu-o no trono, elevando ainda mais a fortuna do reino".

Arach-ben-Hassul ia se preparando para sair quando um ouvinte o interpelou:
- Não entendo como isto pode ter causado a ruína do reino!
O velho barba branca contemplou-o e, enquanto ajeitava ao ombro sua abaia, completou:
- A fama de Farlimas tomou conta do mundo de tal forma que surgiu tanta inveja nos corações do homens que quando ele morreu os países vizinhos romperam seus tratados, declararam guerra ao reino e Napata sucumbiu, invadida por selvagens e bárbaros que logo esgotaram suas minas de ouro e cobre e destruíram suas cidades. Nada restou daqueles dias gloriosos senão a lembrança dos contos que Farlimas tinha trazido consigo do seu país, muito além do mar.


sábado, 17 de setembro de 2011

A Tradição Relativa V - 1ª Parte


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O Companheiro de Morte

Através de um tradutor soube que um estudioso leu na obra de um mestre a narração de um orgulhoso barba branca, numa roda de cameleiros, tuaregues, berberes, árabes, núbios, etíopes e europeus, quando da elevação da repressa de Assuã por ordens do Lord Kitchener, para manter seus subordinados ocupados com seus próprios assuntos, visto a Itália ter declarado guerra à Turquia, bombardeado e ocupado Trípoli, Cineraica e as ilhas Dodecanesas. Reunidos no mercado da cidade de El Obeid, a sudoeste de Cartum, no Sudão, em 1912, durante sete dias vários contadores revesaram-se na contação de histórias. No oitavo, Arach-ben-Hassul, descendente de uma das últimas famílias sobreviventes da antiga guilda dos artesãos de cobre, levantou-se e disse: “Agora sou eu que vou contar”. E falou de um tempo remoto em que aquela região era verde e poderosa; que um dos quatro mais ricos reis da terra, o Nap de Napata do Cordofão, era proprietário de todo o cobre e ouro da região; que mantinha domínio sobre muitos povos, todos fabricantes de armas e fornecedores de escravos para a corte; que o reino era grande exportador de riquezas para todo o Ocidente; que, embora fosse rico e poderoso, sua vida era a mais triste e limitada, pois cada Nap de Napata podia reger apenas por um breve período de anos e, que de um modo ou de outro, tudo isto junto foi a causa da destruição do outrora próspero reino de Kash. Infelizmente, esta região hoje não passa de um deserto físico e cultural. Mas deixemos o chefe dos cameleiros falar, através do mestre, do estudioso, do tradutor e deste amador que para vós escreve. Assim:

Em todo o reino, todas as noites, os sacerdotes observavam as estrelas, faziam oferendas e acendiam fogos sagrados por medo de perder a trilha das estrelas e ficarem sem saber quando o rei deveria ser morto. Assim, como tantas vezes antes, aquele dia chegou. Touros foram sacrificados; todos os fogos da terra foram apagados; as mulheres encerradas dentro das casas e, após terem decapitado o rei, os sacerdotes acenderam o fogo novo e um novo rei foi convocado: Akaf, sobrinho do imolado.

O primeiro ato oficial de cada Nap de Napata era decidir quais pessoas deveriam acompanhá-lo no caminho da morte. Elas eram escolhidas entre os que lhe eram mais caros e o primeiro nomeado seria o que dirigiria os outros. Um escravo chamado Farlimas, célebre por sua arte de contar histórias, chegara à corte alguns anos antes, enviado como presente por um rei do Extremo Oriente. E o novo Nap de Napata disse: 'Este homem deverá ser meu primeiro acompanhante. Ele me entreterá até a hora da minha morte e me fará feliz depois da morte'. Para cuidar da chama sagrada, que deveria permanecer acesa durante o período daquele reinado, os sacerdotes designaram Sali-fu-Hamr, a irmã mais nova de Akaf. Ela devia cuidar do fogo sagrado, manter-se absolutamente casta por toda a vida e ser morta, não junto com o rei, mas imediatamente após, no momento de acender a nova chama. Mas Sali-fu-Hamr tinha medo da morte e, quando ouviu que a escolha havia recaído sobre ela, ficou apavorada.

O rei viveu, por um tempo, feliz, em grande deleite, desfrutando da riqueza e majestade de seu domínio. Passava as noites com seus amigos e com todos os visitantes que chegavam à corte como emissários. Mas numa noite fatídica ele compreendeu que, a cada um de seus dias jubilosos, andava um passo adiante em direção à morte certa e ficou com muito medo. Foi incapaz de afastar aquele pensamento assustador e, deprimido, pediu que Farlimas contasse uma história. 'Chegou o dia em que você tem que me alegrar'. Farlimas começou a contar uma história e todos escutaram. O rei e os hóspedes esqueceram de beber, esqueceram de respirar. Até os escravos esqueceram de servir e também de respirar. A arte de Falimas deixou-os envolvidos numa deliciosa embriaguez. O rei tinha esquecido seus pensamentos de morte.

Naquele dia, Akaf e seu séquito mal puderam esperar até a noite e dali em diante, todos os dias, Farlimas era convocado para desempenhar seu papel. A notícia de suas narrativas espalhou-se por toda a corte, a cidade, o país. O rei, a cada dia, presenteava-lhe uma bela peça de vestuário. Os hóspedes e emissários davam-lhe ouro e pedras preciosas. Ele ficou rico. E quando andava pelas ruas, seguido por uma tropa de escravos, distribuía presentes aos necessitados. As pessoas o amavam e passaram a desnudar o peito para ele, em sinal de respeito. Sali, ao ouvir o milagre, enviou uma mensagem ao irmão: 'Deixe-me, apenas uma vez, ouvir Farlimas contar uma história'. E um dia Sali veio. Farlimas viu Sali e, por um momento, perdeu seus sentidos. Tudo o que ele via era Sali. Tudo o que Sali via era Farlimas. Tirando os olhos de Sali, o narrador começou. E sua narrativa foi no início como o haxixe, que leva a um suave adormecimento e logo conduz os homens da inconsciência ao sono. Depois de um tempo os hóspedes estavam dormindo; o rei estava dormindo. Ouviam a história apenas em sonhos, até terem sido completamente arrebatados. Mas Sali permaneceu desperta. Seus olhos estavam fixos em Farlimas. E quando ele acabou a narrativa e levantou-se, ela também levantou. Farlimas andou na direção de Sali e Sali andou na direção de Farlimas. Ele abraçou-a; ela abraçou-o e disse, olhando-o nos olhos: 'Nós não queremos morrer. Devo pensar em uma maneira de ficarmos juntos'.

Naquele dia, Sali foi ao sacerdote supremo e quis saber quem determinava quando o velho fogo seria apagado e o novo aceso. O sacerdote disse-lhe que isto era decidido por Deus. Diante da insistência da moça em saber como Deus comunicava sua vontade aos sacerdotes, o velho respondeu: 'Todas as noites observamos as estrelas. Nunca as perdemos de vista. Todas as noites observamos a lua e sabemos, de uma noite para outra, que estrelas estão aproximando-se da lua e quais as que estão afastando-se. É por isto que sabemos. Fazemos isso todas as noites. Se passasse uma série de noites em que nada pudesse ser visto, não seríamos capazes de reencontrar nossas estrelas e não saberíamos quando o fogo deveria ser extinto e aí não estaríamos em condições de exercer nosso ofício'. Sali mencionou que as obras de Deus eram magníficas e que a maior, entretanto, não era a sua escrita no céu. Sua maior obra é a nossa vida na terra. Lição que aprendera na noite passada. O sacerdote não entendeu e quis saber do que ela estava falando. Ela respondeu que Deus deu a Farlinas o dom de contar histórias como jamais existiu igual, maior que sua escrita no céu. O velho, horrorizado, disse que ela estava errada e levantou-se para abrir a porta. Sali argumentou: 'A lua e as estrelas você conhece. Mas você já ouviu as histórias de Farlimas'? O sacerdote olhou para o chão e balançou a cabeça negativamente. 'Como, então, pode pronunciar um julgamento? Asseguro-lhe que mesmo vocês sacerdotes, ao ouvir, se esquecerão de vigiar as estrelas'. O ancião encarou-a e ela, sentindo o ardor do fogo, continuou: 'Prove-me apenas que estou errada e que a escrita nas estrelas é maior e mais poderosa do que esta vida na terra'. O velho pegou-a pelo braço, colocou-a na soleira da porta e despediu-se: 'É exatamente isso o que vou provar', e fechou a porta.

Akaf recebeu uma solicitação do alto sacerdote para que fosse permitido ao clero entrar no palácio naquela noite afim de que pudessem ouvir as histórias de Farlinas. O rei consentiu e assim, quando o sol se aproximava da hora de se por e o rei, seus hóspedes e os emissários estavam reunidos, juntaram-se a eles todos os sacerdotes, que despiram a parte superior de seus corpos e se prostraram no chão. O supremo sacerdote disse: 'Foi declarado que as histórias de Farlimas são as mais magníficas das obras de Deus'. O rei disse a ele: 'Vocês podem decidir por vocês mesmos'. O salão estava repleto de gente e Farlimas abriu caminho entre ela. 'Comece, meu querido Companheiro de Morte'. Farlimas olhou para Sali e Sali para Farlimas. Tirando os olhos de Sali, o narrador começou. E sua narrativa deixou-se ouvir enquanto o sol estava se pondo. Era como o haxixe que anuvia e transporta, que induz ao relaxamento, que leva ao desmaio profundo. De maneira que, quando a lua surgiu, o rei, seus servos, seus hóspedes, os emissários e os sacerdotes dormiam um sono profundo. Apenas Sali estava desperta e quando o relato chegou ao fim, Farlimas ergueu-se e dirigiu-se para Sali: 'Deixe-me beijar esses lábios dos quais saem palavras tão doces'. Eles abraçaram-se, entrelaçando braços e pernas e deitaram-se entre aqueles que dormiam, conhecendo uma felicidade de partir o coração". 

Continua no próximo sábado...


sábado, 10 de setembro de 2011

Quem É Que Manda Aqui?


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É sempre bom iniciar um discurso com uma máxima, depois desenvolver o argumento que corresponda. Mas como diria um esperto: se conselho fosse bom não se dava de graça. Portanto, na falta de máxima fiquemos com a mínima ou nenhuma prova de sabedoria. Enfeitar o bolo para que? Deixemos solado mesmo e quem tenha fome que o consuma como melhor lhe aprouver. Vamos e convenhamos, o mar não está pra peixe! Aliás, tanto o mar quanto o peixe não estão nem aí quanto mais chegando. Pelo menos não por estas bandas, afeitas a happy hours e peladas no fim de semana (e durante os dias da semana também) que ninguém é de ferro e se o mar não está pra peixe o negócio é virar molusco.

Começo lembrando que Carlos Rigot comprou um chapéu. Medo que o céu desabe sobre sua cabeça e o encontre desprotegido. O remédio para hipertensão não o tem aliviado. Tanto que, ontem por razões ainda não totalmente esclarecidas, teve um ataque de pânico (ou terá sido calundu?) e só não correu por aí desesperado e nu porque tinha assumido o compromisso de visitar a vozinha que beira a casa dos noventa e oito e a qualquer momento desaparecerá numa nuvenzinha de pó rumo ao desconhecido, tamanho o seu entrunfinhamento em cima de uma maca hospitalar. Não iria fazer desfeita à venerável, não senhor, não àquela que tanto o embalou aconchegado ao colo, que tanto apertou-lhe as bochechas a sorrir felicíssima cada vez que fazia as suas (dele) vontades. Deixou de lado a frescura fidalgal e apressou o passo com o firme propósito de afagar aqueles ralos cabelos o quanto antes e assim poder retornar à costumeira atividade de tentar juntar dois ou três liames na direção de qualquer coisa semelhante a conclusão. Era assim: o nosso comensal catava aqui e ali, com alguma perícia, diga-se de passagem, argumentos que trouxesse ao seu conturbado espírito não a paz dos cemitérios mas algum equilíbrio que permitisse continuar fazendo o que achava que ainda tinha a fazer muito mais por obrigação do que por decisão tomada. Decisão tomada mesmo foi a compra do chapéu. Intempestiva, é bom lembrar. Mas o que não era inesperado na vida deste neurastênico contumaz? Quanto mais precavia-se mais perturbado ficava. Obcecado por organização, vinha tentando colocar um pouco de ordem nos pensamentos e a forma encontrada foi a de criar um universo paralelo onde trancafiou-se e de lá não saía nem a pau, afinal mantinha lacrado os portões, jogado fora a chave e esquecido a senha. O que não o impedia de continuava a dar bom dia, responder aos tudo bem?, bater o ponto, pagar prestações, procurar descobrir uma maneira não teatral de evitar os incômodos e, quem sabe um dia, ganhar na loteria pois vinha se mostrando esta a única saída visível para os seus infortúnios, visto não ter seguido o conselho paterno de encontrar algo rentável com o que se ocupar e parar de ficar por aí caçando chifre em cabeça de porca, que ao homem cabe construir uma família, escrever um livro e se plantar uma árvore já está de bom tamanho, o resto é o resto e só podemos ir até onde a nossa perna alcança e se o mundo pudesse ser mudado teria sido em seu começo e não depois que já viciou-se no desvio. É o tal negócio, quanto mais dizem para gente não fazer uma coisa aí é que desatinamos fazê-la, não pra contrariar como querem alguns rebeldes mimados mas, porque a natureza não tolera arreios nem freios e nada supera a experiência por mais aguda que seja a lógica. Porém sensatez é bom e não tem efeito colateral. Daí esta joia da sabedoria humana que hoje conhecemos por meio termo. Mas como algo que é meio pode ser inteiro? É certo que por isto, integridade seja algo tão raro e por ser tão escassa, seu valor resulta nulo por não existir demanda.

Foi neste ponto, no momento desta inflexão, que bati à sua porta na tentativa de encontrar com o meu amigo alguma resposta para a minha perplexidade diante de um fato que encontrei noticiado na Gazeta naquela manhã fria e desolada: uma doméstica havia sido condenada, em última instância, a um ano e três meses de cadeia pelo crime de roubo. Havia sido denunciada por seu antigo patrão de tê-lo surrupiado, num raro momento de descuido, a singela quantia de cento e vinte reais. Os advogados, confiantes na benevolência da justiça, imploraram piedade. Em vão. À mulher restou resignar-se da sentença e cumprir a pena conforme prescreve o nosso acerbo e volumoso Código Penal.

Claro que não aguardei que ele me oferecesse um chá, um café ou um simples copo d'água até porque Carlos Rigot não se dá ao trabalho de levantar as pestanas quando está imerso em sua rotina de leitura, atitude que, em passado recente, fez com que a família buscasse intervenção psiquiátrica temerosa que dali possa sair algum artefato capaz de destruir o modo de vida ocidental. Ponderados que são, acreditam que tudo em excesso é doença, que ao bom cidadão não cabe excessos e para que tudo fique de acordo é preciso que cada um se comporte dentro da mais estrita observância dos bons modos e dos bons costumes conforme reza a tradição expressa na letra da lei. A ignorância é insegura, daí deitar raízes profundas na tentativa de autoafirmação. O que nunca cogitavam era que a curiosidade do meu amigo havia atingido um ponto para além do cabo da boa esperança, havia alcançado aquele ponto onde nada nem ninguém o demoveria do direito de compreender porque dois e dois são quatro e, principalmente, ter para si se esta conta é mesmo exata.

Joguei-me na cadeira de praia displicentemente disposta diante da televisão, não sem antes afastar algumas peças de roupas que descansavam em seus braços. - Cara, você precisa dar um jeito nisto aqui, arrisquei na tentativa de fazê-lo devotar-me atenção. Não ousava censurar meu amigo. Estava acostumado às suas manias e até me sentia bem ao seu lado por conta de seus discursos, alguns cheios de luz e retos outros recobertos de nuvens sombrias, tortuosos e trôpegos como os passos de um bêbado carente de solidariedade numa madrugada de aperreio. O que não tolerava era aquele seu ar de ausência quando decidia enfronhar-se num assunto. Tornava-se insuportável e não havia santo no mundo capaz de retirá-lo do buraco onde se metia. Teimoso como uma porta, só o tínhamos neste mundo quando lhe aprazava ou convinha. Resignado, aguardei que reparasse na minha presença e se dignasse dar-me ouvidos. O que demorou alguns intermináveis minutos. Finalmente passou a mão sobre a cabeça como se afastasse algo incomodo e persistente, voltou-se para mim e perguntou com aquela loquacidade peculiar: - E aí? Fiz de conta estar no fim de uma peroração e repliquei: - E então?!

- Então que ela foi absolvida. A Câmara aceitou o argumento de anterioridade do crime e decidiu que ela continua deputada mesmo tendo sido flagrada com a mão na massa num ato de lesa pátria. Lembrei do caso e incontinente aproveitei para contar-lhe do que me afligia buscando traçar um paralelo entre os dois episódios. Indignado, aventurei-me discorrer sobre que tipo de justiça é esta que usa todo rigor para condenar um fraco e mostra-se convivente com os malfeitos dos poderosos?
- Mas a justiça foi feita! Nos dois casos, os julgadores cumpriram a lei.
- Lei injusta, isto sim!
- Porque aqui não se trata de justiça.
- Trata-se do que então?
- De poder. Você leu Alice no País dos Espelhos? Diante do ovo que fala, Alice questiona-lhe o direito de fazer as palavras significarem coisas diferentes do que elas querem dizer para as outras pessoas. E o ovo, do alto do fino muro que o sustenta, sentencia: A questão é quem é que manda aqui. 

sábado, 3 de setembro de 2011

O Sobrevivente


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Acendeu um cigarro e pronto. Porque não um cachimbo, já reclamaram, até elogiaram: ah, o cheiro do fumo... mas, olha, falo do bom, importado. Depois é um hábito sofisticado, envolve ritual, essas coisas que tornam a vida mais interessante, emprestam a existência algum estilo, estilo de verdade, não este fedorento vício. Mas como acostumara-se a servir-se das novidades quando elas se dispusessem, livre e espontaneamente, chegar às suas mãos em forma de presente, Carlos Rigot bateu a cinza e retomou a linha de pensamento que vinha ocupando seus neurônios naquela tarde, agoniado com a perspectiva de ter que cumprir mais um ritual familiar, dessas obrigações que nos cansam mais do que se tivéssemos escalado uma alta montanha com botas de chumbo e uma enorme mochila entupida de pesados e inúteis pertences presa às costas . Não é que desgostasse das festinhas que os parentes constantemente faziam, regadas a muita cerveja, quitutes deliciosos e um ou outro papo capaz de produzir grandes risadas mas, ultimamente vinha dedicando o pouco tempo que tinha para si em seus próprios devaneios, afinal desejava experimentar algum prazer intelectual visto que os de outra ordem andavam meio escassos ultimamente. Ademais era uma boa oportunidade para testar uma teoria que vinha desenvolvendo, a de que quando você esta atoa ninguém o perturba enquanto que, basta pensar em ocupar-se alguém sempre lhe bate à porta. Bem, se nesta tarde sua teoria rendesse mais um ponto na tendência positiva não teria saída senão inventar alguma desculpa e aguardar para a próxima os falares de desconfiança e censura que inevitavelmente choviam sobre seu caráter arredio e pouco afeito às costumeiras discussões e projetos a que todos se lançavam certos de estarem fazendo o melhor por suas vidas. Olhou para o canto costumeiro da janela e entregou-se à cena na ânsia de compreender algo daquela história ouvida no coletivo semana passada, alheio à campainha do telefone que insistia em desviá-lo do caminho. Bingo. Ligo depois de volta, disse apressado e colocou o cotovelo sobre a escrivaninha enquanto segurava os lábios com o indicador e o queixo com o polegar.

O ônibus partira de Casa Nova um pouco antes das sete e logo às dez, com o sol tinindo, atingira a primeira parada. Os dezessete que ia às compras em Estância Eldorado, comportavam-se como em férias, férias adolescentes. O motorista avisou quinze minutos e ninguém lhe prestou atenção entretidos que estavam com a confissão de um novo possível romance surgido na última hora entre Arminda e Julião, os mais novos integrantes daquela singular caravana que já ia para o sétimo ano e que nunca deixara de fazer a alegria dos seus integrantes: uma semana longe de casa, com dinheiro no bolso e muita novidade para ver e comprar, além da companhia de iguais, seguros de contarem com a discrição mútua, desde que as escorregadelas não atrapalhassem os negócios.

Quando atingiram a Serra do Espinhaço, Julião embalado por meia dúzia de latinhas, chamou Arminda para dançar e a turma toda apoiou não sem protesto do motorista que solicitou moderação dentro do seu veículo, que não toleraria descontroles em sua nave, que aquela era a última vez que avisava, que se tivesse que falar de novo pararia o ônibus e mandaria todos prosseguirem a pé. Mas qual o quê, estavam pagando, bem melhor ficasse calado, tocasse o barco adiante, a festa estava apenas começando, não adiantava ficar nervoso, que já devia estar acostumado, que aquela já era a quarta vez que os conduzia, melhor ficar de olho da estrada e evitasse que a vaca fosse pro brejo. O condutor engoliu, ruminou, cuspiu fora mas na boca ferveu um gosto de desfeita e, enquanto o punhal do desrespeito enterrava-se no espirito, deixou o pensamento perambular em masmorras, perder-se em subterrâneos mentais que a gente sabe bem poucos saíram de lá para contar, mas logo recuperou o folego e desculpou-se consigo mesmo ao lembrar das gorjetas e mimos que lhe enchiam os bolsos e braços ao final da jornada. Que a gente não faz, que a gente não tolera quando se pensa na crianças, choramingou de si para si e nem teve tempo de enxugar os olhos subitamente invadidos por um sentimento de vazio ao pensar no destino dos filhos na estrada da vida... o ônibus foi colhido de frente por uma carreta, rolou ribanceira abaixo, tombou, tombou, tombou cinco vezes, bateu numa rocha e escapuliu na transversal direto para o abismo.

Duas horas depois, enquanto o perímetro era isolado, a polícia disciplinava uma horda de curiosos, bombeiros preparavam a descida, paramédicos vistoriavam equipamentos, uma ambulância aproximava-se gemendo agonia e uma chusma de repórteres disputavam terreno ávidos de ângulos, um lavrador gritou: tem alguém subindo o morro! Era Julião. O único sobrevivente. Pega daqui, segura dali, ajudaram-no a galgar os últimos metros na direção da pista e depositaram-no numa maca dentro do carro resgate. Milagre. Após passar por um exame preliminar constatou-se que o recuperado não apresentava qualquer arranhão, ferimento ou traumatismo decorrente da sinistro: muito pelo contrário, parecia saído de uma festinha de fim de semana pronto para encarar a dureza de uma segunda feira. Milagre. O repórter da rádio local, concunhado de um dos policiais, conseguiu chegar até Julião e o arrastou até a lateral da ambulância, local que lhes propiciaria alguns minutos distantes do assédio inevitável. Ao ser indagado sobre o que acontecera, Julião, sem pestanejar, vaticinou: - Ouvi um estrondo, me agarrei no banco e pedi a deus que me salvasse! Milagre. E o repórter, de microfone aberto para aquela cobertura que, na sua apressada contabilidade, poderia render semanas de editoriais, colunas, debates, interpretações de especialistas, campanhas pró e contra insistiu, visivelmente insatisfeito com aquela primeira resposta, resposta que encerrava tudo, botava um ponto final na história. Pediu mais, detalhes, minúcias, enveredou pela história pregressa, cogitou relações, suscitou manobras, descasos, omissões, na desesperada e profissional tentativa de oferecer aos seus ouvintes e quicá ouvintes que ainda não eram seus, algo bombástico, algo extraordinário, a ponta de um novelo que ao ser desembaraçado traria ao mundo novas perspectivas, afinal detinha em sua locução a oportunidade de fazer bonito e quem sabe cacifar-se para vaga numa emissora de alcance nacional.

Tão absorvidos estavam em seus próprios redemoinhos, da perplexidade um, da ambição outro, nem perceberam que, na contra mão, um caminhão desgovernado, invadira o cordão de isolamento e, tendo abatido dois ou três desavisados que insistiam em fotografar o tumulto, veio com o peso de suas quinze toneladas, acrescido de outras tantas pela implacável velocidade, chocar-se com a ambulância e espremê-los entre as ferragens, invalidando qualquer veleidade que, por alguns instantes, tenha embalado suas vidas”.

Enquanto rabiscava garatujas na folha de papel estrategicamente depositada sobre a mesa, Carlos Rigot anotou duas ou três conclusões, quem sabe as usasse em argumentos futuros. Mas que segurança tinha desses seus achados? Claro que não desejava participar de disputas científicas, artísticas, religiosas ou metafísicas então, guardaria pra si a expectativa de algum juízo sintético. Seguramente a reconstituição não correspondiam aos fatos. Mas temos como saber da verdade? E o mais importante: que significado ela nos revela, em que consequências ela nos atola? É! Somos livres para contar um conto e acrescentar um ponto. Para livre interpretar basta começar, devemos isto aos protestantes.

Chegado ao fim da sua sumária investigação, não se sentia nem um pouco melhor, nem mais nem menos recompensado, nem mais nem menos sabido. Sua breve análise não lhe trouxera aquele prazer mas dera-lhe uma certeza: deveria ter ido à festa. Deveria ter aceito o convite dos parentes e ido empanturrar-se de guloseimas e cevada, como fazem os chineses quando seus braços não alcançam a pipa que está no alto.