sábado, 29 de outubro de 2011

Soltem a Magdala - Capítulo 2


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No capítulo anterior os Prejudicados bateram à porta. Mas sendo o preço da liberdade é a eterna vigilância, recorre-se primeiro aos últimos recursos.

Falcão – (Com bolas de gude) Tá brincando, não troco esta esverdeada por nada deste mundo. Sente só a firmeza. Uma esfera perfeita. Repara como desliza... quase não é preciso esforço...
Volupo – Falcão, quantas vezes já te disse que este esporte não dá futuro pra ninguém. Porque você insiste em ser diferente, meu filho? Alguém me lembra de assinar um decreto proibindo, de uma vez por todas, a prática deste jogo. Burocrácio, como andam as coisas?
Burocrário – Na mesma. Com ligeira tendência de queda.
Volupo – Continue monitorando a bagaça.
Burocrário – Estou indo agorinha mesmo pra Central de Balelas e Quejandos.
Falcão – (Ao Burocrácio) Epa, paradinho aí: devolve a gordinha!
Burocrácio – É mesmo uma belezura! (Devolve)
Falcão – Mas não é pro teu bico.
Volupo – Posso falar?
Falcão – Vamos nessa.
Volupo – Negócio seguinte... Ai, cansei: conta pra ele Baleia.
Baleia – Os Prejudicados mais uma vez botam as manguinhas de fora.
Volupo – É você na qualidade de ministro nomeado...
Falcão – Permite? Altamente nomeado.
Volupo – Mas que periga ser baixamente nomeado se não acabar com esta anarquia.
Falcão – Primeira providência: Consultar o Conselho.
Volupo – Como “consultar o conselho”?
Falcão – Ué! Como se consulta o conselho?
Volupo – O conselho é você, idiota!
Falcão – Perdão, mesmo sendo eu o conselho, só imitirei um parecer após amplas consultas.
Volupo – Agora deu! Quem ele que é: um democrata?
Falcão – Perdão de novo mas, tudo deve ser feito dentro da mais estrita legalidade. (Abre caderneta) Vejamos... Está bem aqui: blá, blá, blá... hum, hum, hum... Táqui: Inciso XXXVIII, parágrafo 27, artigo terceiro, capítulo VI, do Regulamento pro Seguro Não Morrer de Velho... ponto: Moleza: é botar pra quebrar!
Volupo – Pelo menos parece que sabe ler.
Falcão – Fui! Alguma coisa do comércio, madame?
Devassa – Se não for dar muito trabalho, dá pra passar na pizzaria e trazer uma gigante de aliche, com bastante azeitona?
Falcão – Sinto, mas não tenho xongas.
Devassa – Debita na conta única.
Falcão – Na um ou na dois?
Volupo – Alguém consegue levar as coisas a sério por aqui?!
Falcão – Cada coisa a seu tempo. (Saindo) Se não tiver aliche, posso trazer anchova?
Devassa – Anchova não gosto, traz de pepperoni com bastante toucinho.
Volupo – Ainda mando este cara de volta pro orfanato!
Devassa – Podemos ir agora?
Volupo – Agora não vai ser possível.
Devassa – Você tem que conversar com o médico.
Baleia – Minutinho, excelência.
Volupo – Marquei aula de yoga.
Baleia – Segundinho só.
Devassa – Mas...
Volupo – Deixa o Baleia falar, mulher.
Baleia – É que chegou um primo da cunhada de um sobrinho da empregada da irmã da vizinha da sogra gorda de uma conhecida da mamãe e...
Volupo – E tá procurando trabalho!
Baleia – Não chega a tanto.
Volupo – Devassa, minha flor, ainda temos vagas no Ministério das Forças Ocultas?
Devassa – Qual o nível de instrução dele?
Baleia – Phd em mercandaizing.
Devassa – Hum... talvez pra entubar bracholas no período vespertino.
Baleia – Ele é perito em projetos culturais, acrescento.
Volupo – Manda passar no almoxarifado e pegar uma arara fixa. Mas vou logo avisando, oitenta e cinco por cento do salário vem direto pro bolso do besta aqui.
Baleia – Anotado.
Volupo – Se perguntarem por mim diga que estou em reunião no clube .
Devassa – Nananinanão. O senhor vai visitar a Emengarda. Faz mais de mês que o senhor não comparece.
Volupo – Saco! Já devíamos ter jogado uma pá de cal nesta história.
Devassa – E acabar com o nosso bem bom?!
Volupo – Aquilo é um entulho.
Devassa – Mas é nossa sobrinha e se regemos, regemos em seu nome, lembre-se disto.
Volupo – Mas aquilo é uma inês morta.
Devassa – Fala baixo que ela pode ouvir. Vamos, entre. E bote um sorriso nesta cara de gamela. Cadê a minha fofinha?
Emengarda – Ahhhh...!
Devassa – Titio e titia tão ati!
Emengarda – Ahhhhhhhhhh....!
Devassa – Tê ti foi? Tá dodói ati?
Emengarda – Ahhhhhgggg....!
Volupo – Pára!
Devassa – Deixa de ser grosso.
Volupo – Se já não gostava de repolho, agora então...!
Devassa – Tínhamos que ter evitado aquele acidente.
Volupo – A culpa foi sua. Você inventou aquela reforma estrutural no palácio.
Devassa – A culpa foi nossa. Você concordou inteiramente com o projeto.
Volupo – O que a gente não faz para impressionar a massa!
Devassa – Parece que foi ontem. Sempre fui uma idealista, sabia? Sonhava com um mundo melhor, onde cada um pudesse ir à Paris pelo menos uma vez por ano. Mas o destino é cruel, tá nem aí pras boas intenções. E hoje, o que sou? Uma cética, cuja únicas venturas são alguns míseros trocados que mal dão pra despesas do dia a dia em Miami. Ah, quem me dera voltar ao passado...

Continua...


sábado, 22 de outubro de 2011

Soltem a Magdala - Capítulo 1


marceloazevedo.wordpress.com



Na longínqua, ensolarada e verdejante Ilha de Pelópia mandavam dois regentes austeros e ufanistas. Faziam e aconteciam e não prestavam contas. O povo para eles é que tinha a sorte de tê-los como donos da vida e da morte. Ê lugar bom pra se viver. Lugar bom pra se viver estava ali.


Burocrácio – (Com jornal) Patati patatá... deixa ver... ouçam esta aqui: “Não há um só pelopino, desde a mais tenra idade, que não pratique o mais popular e nobre esporte. Celeiro de craques, somos hoje grande exportador de cafifas. Pelópia desponta como favorita absoluta ao título máximo no campeonato mundial de pandorgas, posição que mantém a mais de meio século, a despeito da torcida contra, invejosa e maledicente”. E vai por aí a fora...
Devassa – A vida é linda!
Baleia – (Entrando esbaforido) Meus soberanos, o Ministério da Coisa Líquida e Certa...
Volupo – Que espero continue acertando e liquidando com altos índices de produtividade, diga-se de passagem!
Baleia – Respeitosamente...
Devassa – Você não está irradiando bons fluidos, Baleia!
Baleia – Sinto-me envergonhado por trazer-vos desagradável notícia.
Volupo – Quem se atreve...?!
Baleia – Os Prejudicados!
Devassa – Gentinha sem caráter.
Volupo – O que desejam desta vez? Não bastam as cestas básicas?
Baleia – Sublime recordação. Porém, o buraco agora é mais acima. Ameaçam invadir o palácio se a infante Magdala não for libertada e coroada imediatamente soberana de Pelópia.
Regentes – Ai, ai, ai... me segura que vou ter um troço (Desmaiam)
Burocrácio - (Ao Baleia) Satisfeito?
Baleia – Mas...
Burocrário – Esta tua competência ainda vai acabar nos levando pro buraco.
Baleia – E agora?
Burocrário – Segura tua onda e vai bombando ar (Entrega-lhe um leque. Recita) “A densa floresta de sanguessugas repleta/ De abrigo serve ao ignaro contrabando/ E às orgias laicas dos primitivos aborígenes/ Mas o braço valeroso e forte/ Do egrégio poder lúcido e audaz/ Traz a impoluta máquina/ O potente tijolo/ E o prático aerosol repelente/ Cumprindo seu destino altaneiro/ Rasga o homem/ O manto covarde e vil da indolência/ Introduzindo na mata inóspita/ A singela civilização/ Ei, serra/ Ei, trator/ Leva o progresso onde a vontade guie/ E a insigne excelência alcance”.
Devassa – Já consigo respirar!
Volupo – Puxa, tocou fundo. Lavra de quem, esta pérola?
Burocrácio – Da minha santa vó, que o divino a tenha!
Volupo – Emoções à parte, chegou a hora da onça beber água. Abram as canais com a nação!
Burocrário – Rede à postos! Em três... dois... um, no ar! Sai pro lado, Baleia!
Volupo – Pelopinos e pelopinas. Mais uma vez, no exercício estrito do dever outorgado, penetro em vosso lar (com perdão da má palavra) no momento em que saboreardes uma gentil penosa. Obrigado e bom proveito. Amados, novamente a mão solerte da discórdia ameaça nossas mais sagradas instituições que, com sacrifício pessoal e familiar, busco preservar e aperfeiçoar. Daqui, do aparente aconchego do trono, onde, para informação de vocês, faço das tripas coração, estou de butuca naqueles que querem chutar o pau da barraca! Comigo não, violão! Aqui não tem esbórnia. Somos pacíficos por obra e graça do divino mas, se me pisam nos calos, rodo a baiana e aí todo mundo vai saber o que luzia perdeu na horta. É só. Em nome da nossa amizade, fica aqui um grande abraço. Fim.
Burocrácio – Fechada a rede.
Volupo – Acho que coloquei as coisas no seus devidos lugares, não? Burô, me chama o Falcão.
Devassa – Amoô...! Será que vamos ter um endurecimento do regime?
Volupo – Arriar a bandeira, nunca!
Devassa – Nossa, me subiu um fogo. (Ao Baleia) Que parar de abanar esta meleca!
Volupo – Devassa, na iminência de chover cobras e lagartos, talvez devesse passar o fim de semana na casa de Noca.
Devassa – Nem vem que não tem!
Volupo – Foi só uma sugestão.
Devassa – Te conheço de outros carnavais.
Volupo – O trem aqui vai feder, tô avisando.
Devassa – Pode tirar seu cavalinho do cerrado.
Volupo – Diz que me ama!
Devassa – Num digo!
Volupo – Diz.
Devassa – (Inaudível)
Volupo – Não ouvi.
Devassa – Fico encabulada!
Volupo – Quem é a minha bilunga?
Devassa – Ah, Volupo, pára, vai!
Volupo – (Xumbregação) Que foi, Baleia?
Baleia – Olha, não é pieguice, não. Mas esse amor me comove.
Devassa – Devias ter pensado nisto antes.
Baleia – Perdoem-me qualquer desassossego.
Volupo – Depois me lembre de te dar uns cascudos.
Devassa – São sejas duro com ele.
Baleia – Para minha remissão... (Apresenta relatório) Saiu indagorinha do forno.
Volupo – Quanto?
Baleia – Nadinha. Não gastei um só dubrix. Claro que usei de certos métodos persuasivos, coisa leve, autorizada pela lei de patentes. Vê esta reta ascendente? Estamos no rumo certo.
Volupo – Quem?
Baleia – Vosso governo.
Volupo – Aprovação?
Baleia – Noventa e oito virgula noventa e sete.
Volupo – E o resto?
Baleia – Que resto?
Volupo – A titica que falta.
Baleia – Favas contadas.
Volupo – É por isto que você continua morando na cidade baixa.
Baleia – Considere a margem de erro!
Volupo – De erro em erro, ferra-se um governo!

Continua... 

sábado, 15 de outubro de 2011

Rapidinhas


Escultura Estranha, Los Angeles


Segundo a Agência Ânsia, ao contrário da nobilíssima frase não há almoço grátis, o programa espacial e as sondas Pioneer 10 e 11 informam exatamente onde encontrá-lo, alertou em palestra, para uma horda de fiéis, o mais cotado pré pré candidato à presidência dos EEUU. Ao encerrar sua inspiradora alocução conclamou a multidão para uma reza braba.

De acordo com previsões do prestigioso Banco de Investimentos Global, divulgadas em seu boletim semanal, se Cristo fosse hoje sacar algum no Banco do Vaticano, seu saldo seria insuficiente.

A coluna da Barbara Boquinha, num dos seus costumeiros furos de reportagens, registrou ontem que, durante a Batalha Apocalíptica entre o Bem e o Mal, alguém, visivelmente indignado com o atual estado de coisas, dirigiu-se ao Comandante Bondoso e pontificou: “Olha, acabaram de bater a minha carteira: tô fora”.

Correspondentes internacionais do New World, divulgaram lá fora, em letras garrafais que, na Praça dos Três Poderes, o consórcio vencedor acabou de instalar o outdoor: “Desculpe o transtorno, estamos em obras”.

Relatório divulgado neste final de semana pela Federação Internacional da Industria Farmacêutica sugere que, ao preparar-se para Sua Segunda Vinda, Cristo teria exclamado: “Paiê, cadê meu remédio pra enxaqueca”.

Esta ninguém me contou, vi com estes olhos que a terra há de comer um dia (ou não!). O portão da sede da Nova Igreja Renovada da Salvação Compulsória, ostenta o amigável cartaz: “Cuidado com o cão”.

Publicada em doze idiomas pelos quatros cantos do mundo, a Revista Espírita Luz e Caridade, em edição extra nesta quinzena, revela que os portões do Paraíso amanheceram hoje com a seguinte pichação: “Estamos em greve por melhores devotos”.

A Revista Tô Nem Aí, traz em sua última edição o borogogó de que, após assistir ao comercial de lingerie estrelado por top model fashion da hora, famoso diretor norte-americano decidiu levar às telas o drama amoroso do casal primeiro. Acrescenta, ao final de extensa reportagem, a ilibada publicação: “Espera-se grande polêmica em torno da cena em que Eva convence o Todo Poderoso de que tudo não passou de um leve descuido”.

Segundo a Delegacia Especializada em Crimes Contra os Costumes, a partir de denúncias anônimas, foram presas, em Búzios, na tarde de ontem, as famigeradas Filhas de Ló: grupo que usava a internet para divulgar a prática do hediondo crime da senefilia.

Dado como morto, emérito político reapareceu hoje, acompanhado de elegante entourage, a batizar com seu insigne nome, um movimentado beco sem saída.

Segundo fontes fidedignas anonimamente infiltradas no Banco Central, Judas não morreu enforcado. Teria se jogado do topo do Parthenon ao descobrir que as trintas moedas na verdade não passavam de combalidos euros.

De olho no mercado e publicada às pressas, por um dos seus sócios, a biografia de operoso executivo do Vale do Silício nos conta que, nos idos dos 70, o jovem teria declarado, durante reunião informal e ligeira com alguns veteranos órfãos de Woodstock: “Claro que sou bobo. Mas não sou otário”.

Diante da recente polêmica causada por um comercial onde o canônico Bruxo de Cosme Velho aparece caracterizado de ariano, o mais novo acadêmico, do alto do seu engomado fardão, teria declarado nos corredores de formidável emissora: “O patrão, o que acha?”.

Um dublê de humorista, está sendo processado por um nascituro de famosa cantora. Um fato inédito nos anais do Direito Civil, Penal, Trabalhista e Canônico. O grande filosofo grego Aristóteles foi convocado como testemunha, por sua declarada aversão aos bufões, neste que promete ser o julgamento do século. O grupo televisivo, radiofônico e futebolístico, proprietário dos direitos de transmissão, espera abocanhar preciosas fatias da concorrida audiência, custe o que custar.

Ínclito político e acadêmico fervoroso, ao ser vaiado na cidade da música, teria declarado, manhosamente: “Finalmente sou pop. Posso morrer em paz”. Sua filha, ao contrário, teria ameaçado: “Essa gente anda procurando sarney para se coçar”.

Para finalizar: entre os trapalhões, barulhentos e sem escrúpulos e os práticos, eficientes e morais, nado em um oceano de contradições - neurótico até a medula, ingênuo até o talo.



sábado, 8 de outubro de 2011

Malassombro


Retirantes, Portinari, 1944


Seca braba, dos seiscentos,
Mundo velho esturricado.
Rasga mortalha roucou.

O jegue, mal segurado nos ossos
Dobrados, tropeça ermo nas canelas
E de boca vai ao chão, lascado - Crend'eus Pai!

De dia, calorão
- Ô fome.
De noite, litania
- Sai visagem.

Olhos turvos e gretados
No terreiro, assuntam um redemunho:
- Vôte, crend'eus pai treis veiz!

Dos dedos gastos dos meninos
Tomba mais uma porta:
- Tomém, num tinha serventia.

No oco da sala, duas trouxas esperam
Arriadas nos cambitos das meninas
- Tadinhas das mi'as fia, dá dó.

- Dessa vida levo nada, é pó:
Osmarina, Geralda, Dasdô
Celestino, Casimiro e Nicanô

- Vamo, Belé, vamo estradá.
Dois passos cada um deu, a custo:
Tiveram que estancar, no susto.

Medonha, uma voz vem de trás, agônica:
A cintilar coriscos nas órbitas absortas.
A pau a pique geme sob impacto da mágica.

- Vô ficá aqui suzinha, a mercê desta agonia?
No batente que em antes tinha porta
A miséria, tesa, fina e fria, suplicava companhia.


sábado, 1 de outubro de 2011

O Pedido



Encounter, M.C.Escher, 1944


A campainha toca justamente quando estou no banho. Por que as campainhas sempre tocam nestas horas? Vai aqui um tanto do efeito Carlos Rigot. Não tenho podido escapar da sua influência nestes últimos meses. Tenho me dedicado a pensar nas suas teorias mais do que deveria. Mas vá lá, é possível que meu amigo esteja certo em algo. Com a toalha à guiza de sarongue fui até à porta. Olhei através do olho mágico: ninguém. Quem terá sido? Decidi abrir. Nada nem ninguém. Nada, modo de dizer - no capacho jazia um envelope pardo, meio amassado e gasto pelo uso. Que continha? Voltei para o banho intrigado com aquela surpresa e depressa cumpri meu ritual matinal, ansioso. Após servir-me de uma caneca de café, decidi que era a hora de decifrar aquele mistério. Adivinhem! Num breve bilhete, com letras de variados formatos e tamanhos, recortadas de revistas, Rigot desculpava-se por tirar-me dos meus afazeres e lamentava não tê-lo feito pessoalmente. Solicitava que eu desse uma passada de olhos numa pequena crônica escrita na última madrugada, sob o efeito de alguns analgésicos e da decisão de embarcar numa demorada viagem (sabe-se lá por onde) sem previsão de volta. Pedia-me ainda a gentileza de, vez ou outra, deixar entrar um pouco de sol no seu apartamento, e mais: ao encarregar-me da guarda dos seus escritos (o que demandaria um completa arrumação naquele caos de coisas suas) pedia que organizasse tudo por título, data e assunto – aquilo que não se enquadrasse nestas categorias, estaria eu autorizado a criar meu próprio método de classificação. Estava tudo lá, era só ter paciência, escrevera. E que me preparasse para, a cada semana, receber, via correio, dois ou três manuscritos, os quais deveria aquivá-los digitalmente visto ter eu certo domínio destas novatas tecnologias. E finalizou: “...se assim decidires, para conservação da nossa amizade, podes compartilhar com quem quiseres. Divirta-se.”

Ao meu amigo, nunca me passaria negar alguma coisa. Bem, talvez negasse duas ou três. Armas, por exemplo. Jamais guardaria armas para um amigo. Porque certamente jamais as devolveria. E aí, perderia o amigo. Portanto, como sei que também vocês possuem amigos e deles recebem os mais estranhos pedidos, sei que entenderão do porque não me furtei à tarefa que me designada. E para que meu amigo continue a apreciar a amizade que lhe dedico, compartilho com vocês um dos primeiros escritos que encontrei, passado quase um mês desde que comecei a, duas vezes por semana, sentar-me naquela cadeira de praia e tentar colocar um pouco de ordem no mundo de Carlos Rigot. Esclareço que não alterei nada, nem uma vírgula. Digitei tal como encontra-se no original que agora repousa, dentre muitos, numa novíssima pasta AZ em cima do guarda-roupas lá de casa - para desespero da diarista que nunca consegue removê-la sem esforço e dores costumeiras. Não sei quanto tempo isto vai durar, afinal prevejo meia dúzia. Talvez o forro do guarda-roupas ceda antes. Bem, vamos ao compromisso.

Sem título, agosto de 79. Reminiscências. (Crônica ou Conto?)

Até os vinte e cinco anos somos qual a manhã, tudo em nós é obediencia, pudor, graça e doçura; até os quarenta e cinco, qual o meio dia, refletimos moderação, coragem, amor, cortesia e lealdade; até os sesenta, somos o entardecer – tudo em nós almeja sabedoria, justiça, generosidade, humor e alegria; depois dos setenta, a noite – só nos resta relembrar com gratidão.
Dante Alighieri

Quando criança, gostava de brincar de aviador. Deitava o velho velocípede, de modo que uma das rodas ficasse à altura da sua barriga. Sentava num caixote de madeira e acomodava outro caixote ao lado. Posicionava um pedaço de madeira no vão entre as tábuas a simular um cambio. Elevava a vista e aguardava a passagem dalgum avião. Quando avistava um, acionava sua máquina e punha-se a guiar o mais pesado que o ar. E voava... voava... Todos os dias. Embora a “máquina” mais se assemelhasse a um automóvel, era um avião que pilotava. No alto, no meio das nuvens, no céu, lá ia a guiar seu numinoso pássaro e quando este sumia na imensidão daquele azul, o velho velocípede readquiria a função original: conduzí-lo por estradas intermináveis no meio da sala enquanto a mãe lhe apontava a colher.
- Ô apressado e bonito motorista, pare seu lindo caminhão e venha abastecer. Hoje temos baião de dois e carne do sol assada na panela!
- Só um pouquinho, dona moça. Preciso manobrar. Vrum... vrum! Depressa, que tenho uma carga importante que precisa chegar daqui a pouco na Capital.

Partiu. Em suas andanças descobriu que sucesso significa morte. Não tornou-se aviador, tampouco motorista. E como sucesso rima com posses, acabou num sonho recorrente, labirinto... Corredores, portas, salas, quartos... Lugares minúsculos, exdrúxulos... Próximo da saída, acorda com a sensação de que esqueceu alguma coisa em algum lugar. Chegou a rabiscar: “Ecos que me plangem a memória, elos gastos, ociosos e malandros, fizeram de mim um instrumento e agora que sou plano vasto e tardo, com ferros me aplaino e me desgasto”. A pior coisa que pode acontecer a um humano é esquecer do próprio destino. Donde vem, para onde vais, meu bom e interrompido herói?

Pois é... Infeliz do povo que precisa de heróis, disse Brecht. Herói: sujeito preparado na arte da sedução; aquele que faz uso de expedientes e artifícios discutíveis para nos convencer que seu propósito ou o propósito dos interesses que representa, é o proposito de todos. Se a crítica, exercida com propriedade, trouxer à consciência as manobras, trejeitos e artimanhas dos indivíduos na busca de seus objetivos, das leis e dogmas dos poderes constituídos, faremos avançar a liberdade, a autonomia e a responsabilidade humanas. Quem sabe um dia possamos dispensar os heróis! Infelizmente, vivemos ainda num mundo onde viscejam oportunistas, aventureiros, charlatões, artistas do sofisma que não descansam na tentativa de nos vender gato por lebre. Apelos altissonantes reverberam conceitos obsoletos e, no mais das vezes, cínicos. Vivemos num mundo avançado tecnologicamente gerido por interesses que beiram o obscurantismo, senão guiados por propósitos arcaicos e superados, em nome da segurança e do bem estar - deles próprios. Sangrento altar de sacrifícios! Apesar dos efeitos visivelmente perniciosos, dos efeitos devastadores e comprometedores do futuro da raça humana, certos princípios ainda encontram-se encastelados e fortemente aparelhados, reproduzindo-se em alta velocidade. A propriedade privada e a religião são formas de dominação que impedem o progresso humano. A primeira aprisionando o corpo, a segunda o espírito. Romper com estes grilhões requer criatividade. Requer novo conceito de Justiça, reformulação completa do Estado, um novo Contrato Social. Sobretudo, requer uma nova Mitologia. Onde a lógica e a retórica empolada de arautos corrompidos pelo poder material, ávidos de luxo e privilégios, não mais nos seduzam com suas odisséias improváveis e melancólicas. Nego a fácil cópia e afirmo a dificil criação. Criar é partir e um dia voltar. Precisamos de heróis. Heróis diurnos e diuturnos, que nos emocionem, que nos levem às lágrimas, que nos purguem os pecados, que nos ensine a compaixão e, sobretudo, que combatam perigos reais e hipóteses plausíveis. E na eventualidade de combaterem implausibilidades, que insistam a todo instante em demonstrar que elaboram jogos, donde possamos extrair juízos que ampliem nossa sensibilidade e gerem novos e eficazes conhecimentos. Precisamos de heróis que trabalhem pelo amanhã, o amanhã que fomos ontem”.

Viram? Meu transparente amigo travava (aguardo ainda trave) um árduo combate: empreender a volta. Descobrirá o caminho? Com quais elixires nos brindará ao irromper à porta? Só posso desejar que constelações o guiem.